Atualizada às 14h46
Russell Shorto
O mais ilustre dos filhos da Baviera, Joseph Ratzinger - papa Bento XVI - nasceu em uma aldeia a leste daqui. Ele entrou para o seminário em 1939. Pouco depois, aos 16 anos, foi convocado e iniciou seu muito divulgado período de serviço na Juventude Hitlerista, durante o qual tinha por tarefa guardar uma fábrica da BMW ao norte de Munique. Quando os norte-americanos chegaram, ele foi feito prisioneiro.
Ao longo de sua experiência sob o nazismo, o pai do papa o orientou para que ele a compreendesse como uma expressão do ateísmo moderno. O efeito foi reforçar a idéia da Igreja como um baluarte contra a escuridão ¿contra a visão de mundo laica e a racionalidade descontrolada.
Voltando ao seminário, depois da guerra, Ratzinger se deixou influenciar profundamente pela filosofia do personalismo, segundo a qual a base da realidade não era a ciência exangue, mas o ser humano individual. Mas isso servia apenas como suplemento à teologia católica. "Dogma" não era uma palavra ofensiva, para ele - era, em lugar disso, a base de tudo. "O dogma foi concebido não como grilhões externos, mas como a fonte viva que torna possível o conhecimento inicial da verdade", ele escreveu em suas memórias.
Ratzinger ascendeu rapidamente nas fileiras das instituições católicas bávaras, detendo a cátedra de dogma na Universidade de Regensburg entre 1969 e 1976, quando foi apontado como arcebispo de Munique e Freising, e o foco de sua carreira se orientou mais a Roma.
Nos 24 anos em que ocupou o cargo de prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, a agência católica de fiscalização doutrinária conhecida no passado como Inquisição, Ratzinger construiu uma reputação temível por correção doutrinária. Mas, como papa, ele em lugar disso vem optando por ocupar o terreno moral mais seguro e elevado quanto a assuntos como a guerra no Iraque, a liberdade religiosa e o combate contra a pobreza.
Assim, a ocasião do discurso feito por Bento XVI na Universidade de Regensburg em setembro passado ¿ discurso que causou protestos no Oriente Médio e ataques a igrejas no Iraque, Somália e Cisjordânia por ele ter aparentemente afirmado que o islamismo é uma religião violenta - marcou uma espécie de retorno às origens, se bem que incendiário.
O discurso expôs as fundações do pontificado que Bento XVI pretende construir. Seu argumento pode ser reduzido a algo como: a visão laica do mundo talvez seja um dos grandes desdobramentos da História, mas a visão laica que impera em boa parte do Ocidente é falha. A convicção errônea de que razão e fé são dois reinos distintos enfraqueceu a Europa e a deixou à beira de um colapso catastrófico. Se as pessoas estão à procura de uma maneira de sair do vasto atoleiro criado pelo 11 de setembro, Bento XVI argumenta, na prática, que a Igreja Católica talvez seja necessária.
Porque sua tradição foi filtrada pelo Iluminismo, a linha de raciocínio que ele propõe prossegue, a Igreja pode oferecer uma ponte melhor entre o racionalismo ateu e o fundamentalismo religioso.
O paradoxo que ele expôs no discurso é que, embora o Ocidente laico acredite que expandiu o escopo da razão, na verdade o que realizou foi o oposto. Muitos dos problemas que o Ocidente enfrenta, argumenta ele, derivam do fato de que a Europa laica está perdendo sua capacidade de se comunicar com o resto do mundo, e essa perigosa brecha precisa ser preenchida.
Comentando o discurso, o padre Thomas Reese, ex-editor da revista dos jesuítas norte-americanos, America, e - em uma reviravolta interessante - demitido da editoria pelo então cardeal Ratzinger por permitir que uma gama ampla demais de idéias encontrasse espaço nas páginas da publicação, me disse que "o discurso de Regensburg não era sobre o islamismo. O alvo primário do papa era a Europa. Ele vê uma grande necessidade de que o continente retorne às suas raízes cristãs. Esse é seu objetivo essencial e, caso o realize, seria uma vitória ainda maior do que a obtida por João Paulo 2° em seu esforço por derrubar o comunismo".
O que ninguém sabe, como descobri em viagens por regiões tradicionalmente católicas da Europa no final do ano passado e no começo deste, é se ainda há tempo para realizar a tarefa que o papa está se propondo. Comparar dados sobre a freqüência a igrejas na Europa e nos Estados Unidos é revelador. Na Europa Ocidental como um todo, menos de 20% das pessoas dizem ir à igreja (católica ou protestante) duas ou mais vezes por mês; em alguns países, esse número é inferior a 5%. Nos Estados Unidos, em contraste, 63% das pessoas se declaram membros de uma igreja ou sinagoga, e 43% dos entrevistados em uma pesquisa Gallup de 2006 afirmam comparecer à igreja toda semana ou quase toda semana.
"O fato interessante é que as pessoas que estão respondendo a perguntas sobre religião mentem nos dois sentidos", diz o sociólogo espanhol José Casanova, diretor do departamento de sociologia da New School for Social Research, em Nova York. "Nos Estados Unidos, elas exageram seu apego à religião, e na Europa fazem o oposto. Isso tem a ver com a situação da religião em ambos os lugares. Os norte-americanos acreditam que religião seja algo de bom, e tendem a se sentir culpados porque não são suficientemente religiosos. Na Europa, as pessoas acreditam que ser religioso é ruim, e se sentem culpadas por serem religiosas demais".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times Magazine
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