Gerald Traufetter
O clima, em resumo, há muito vem causa de migrações em massa. E o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU está alertando que a tendência pode voltar a se fazer sentir, no futuro próximo. A segunda parte do extenso relatório da organização sobre o aquecimento global, divulgado na sexta-feira, alerta quanto à possibilidade de que os desastres climáticos iminentes deflagrem um êxodo mundial de proporções bíblicas. De fato, segundo a Cruz Vermelha Internacional, 25 milhões de pessoas já começaram a se transferir de lugares que sofrem problemas ambientais sérios - um número que pode superar o atual total de refugiados de guerra no mundo.
Os países ricos e industrializados, depois de décadas despejando mais gases responsáveis pelo efeito-estufa na atmosfera do que os países pobres, têm condições de se ajustar às mudanças, caso invistam, mas as partes mais pobres da América Central, Ásia e África sofrerão severamente com secas e inundações. Essa conclusão que se tornou um dogma na controvérsia sobre clima gerou um debate sobre direitos humanos. Agora, não é apenas a globalização, os mercados fechados ou as conseqüências do colonialismo que privam os pobres de oportunidade - temos também os gases responsáveis pelo aquecimento global. Será que as próximas décadas verão milhões de "refugiados do clima" que trocarão os desertos e as áreas inundadas da África ou América Latina pelas terras do norte?
"Cenários de filme de terror"
A questão continua em aberto entre os cientistas. Os especialistas não conseguem nem chegar a acordo quanto à existência de refugiados do clima. Norman Myers, ecologista da Universidade de Oxford, argumenta que sim, e diz que o número pode ultrapassar a marca dos 200 milhões nos próximos 50 anos. "Essas pessoas não vêem alternativa que não procurar asilo em outros países, pouco importa o quanto a tentativa de chegar a eles possa ser", disse ele.
Seu colega Stephen Castle, do Instituto Internacional de Migração da Universidade de Oxford, contradiz esses cenários de filme de terror. "Myers e outros simplesmente acatam as previsões sobre o clima como indisputáveis, e calculam quantas pessoas vivem hoje em áreas que serão inundadas", diz o autor de The Age of Migration (a era da migração), um livro que se tornou texto padrão nas universidades. O método, diz Castles, leva a estimativas exageradas quanto ao número de refugiados.
Ele diz que seria mais preciso tentar pesquisar como as pessoas responderiam em termos concretos a desastres ambientais, guerras ou pobreza generalizada, em uma dada área. "O que vemos é outra coisa -imigração em geral não é a estratégia preferencial". Quando as condições de vida se tornam intoleráveis, as pessoas tendem a se transferir para outras regiões de seus próprios países - cruzam as fronteiras nacionais apenas raramente.
Os especialistas em imigração de países como Bangladesh tendem a concordar. Na companhia de áreas baixas como as ilhas Maldivas, Bangladesh serve como indicador antecipado para as profecias quanto às alterações no clima, e mesmo lá a alta do nível do mar não está se processando repentinamente. Partes do país poderão ser protegidas por diques; outras talvez tenham de ser abandonadas, mas as pessoas podem ser transferidas a regiões vizinhas. "Apenas alguns poucos bengalis fogem de fato para a Índia", diz Castles.
A questão crucial é a qualidade da resposta governamental aos desastres. Depois do terremoto de 1995 em Kobe, Japão, a maior parte dos 300 mil moradores forçados a deixar a cidade puderam voltar alguns meses mais tarde. Depois da erupção do vulcão Pinatubo, nas Filipinas, no entanto, a demora para retornar à região foi de anos. Mas a capacidade de reação de um país não depende apenas de dinheiro, como o prova a resposta medíocre do governo dos Estados Unidos ao furacão Katrina, em 2005. ¿A resposta depende mais de poder de decisão e capacidade de organização, e dos esforços para enfrentar a corrupção e os problemas de gestão¿ em um governo, diz Castles. As previsões dramáticas em excesso quanto a migrações em massa, afirma, servem essencialmente para agravar a xenofobia. "No momento, uma maré de refugiados já está beijando as costas da União Européia", ele aponta.
Reforma agrária contra o apocalipse?
Thomas Faist, sociólogo da Universidade de Bielefeld, também resiste à linguagem alarmista que seus colegas começaram a empregar. "Não quero negar o problema", diz o professor, "mas não podemos perder de vista o fato de existem razões muito mais decisivas para que as pessoas deixem seus lares". Há inundações e a desertificação acontecendo agora; ao mesmo tempo, há pessoas passando fome que tentam fugir de suas regiões. Mas Faist argumenta que as principais razões para abandonar a pátria são conflitos étnicos ou incompetência política e econômica. Para ele, as alterações climáticas são apenas um fator agravante. Quem desejar deter o influxo de imigrantes terá de tratar das causas subjacentes, e ele duvida que o clima possa ser apontado como raiz dos conflitos que grassam em todas as regiões pobres do mundo.
Ele acredita que verbas de emergência ou assistência monetária preventiva aos países mais afetados pelas alterações climáticas serão inúteis. "O que eles precisam é de ajuda tecnológica, sementes resistentes a seca e apoio político que ajude seus governos a reagir", diz. "As alterações climáticas não deveriam ser exploradas como causa, para liberar os países em desenvolvimento de suas responsabilidades".
Der Spiegel
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