National Geographic

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Sexta, 30 de março de 2007, 17h34

Tabernas: cenário espanhol para westerns italianos

Foi essa a minha impressão ao ver o deserto de Tabernas, na região de Almeria, sudeste da Espanha. Única região semidesértica da Europa, Tabernas tem em média apenas três dias de chuva ao ano, e, com temperaturas que podem atingir os 43 graus no verão, pode parecer nada hospitaleiro. Mas durante 15 anos, a partir do início dos anos 60, a região atraiu importantes cineastas.

Foi aqui que o diretor italiano Sergio Leone popularizou o western espaguete (o pai dele dirigiu o primeiro western italiano, em 1913), e filmou a sua famosa trilogia de westerns em tom operático - Por um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito -, além do clássico Era uma Vez no Oeste.

No processo, ele reescreveu as regras sobre como produzir um western, renovou um gênero estagnado e transformou em astro de cinema um jovem ator de televisão, Clint Eastwood.

Tabernas serviu de locação a centenas de filmes, entre os quais O Passageiro: Profissão Repórter, de Michelangelo Antonioni, Patton e até mesmo a partes de Cleópatra.

Mas são os westerns espaguete que eu realmente amo, e por isso decidi visitar o deserto espanhol e explorar as cidades "do oeste" que Leone construiu como cenários. Elas continuam lá, fervendo ao sol. Agora, quero ver os fantasmas de Henry Fonda, Charles Bronson e do "homem sem nome" de Clint Eastwood, que continuam a ressoar aqui nesta terra onde parte tão importante da história do cinema se passou, 10 mil km a leste de Hollywood.

Três cidades/cenários arruinadas - Western Leone, Mini-Hollywood e Fort Bravo - se posicionam a alguns quilômetros de distância uma da outra, em pleno deserto.

Minha primeira parada é Western Leone. Enquanto sacolejo em meu carro pela longa estrada de terra, sufocando na poeira do deserto, sinto um arrepio de recordação ao reconhecer a grande construção vermelha na qual vivia Claudia Cardinale e que tem papel tão central em Era uma Vez no Oeste, de Leone. Observando-a de mais perto, não resta muita coisa a não ser algumas fachadas desbotadas e um vento com jeito de assombração. No dia de minha visita, Western Leone está deserta, a não ser por um homem em uniforme de sargento do exército da União na guerra civil americana que tira uma soneca do lado de fora da construção vermelha, da qual pende a placa "Saloon".

Depois de me descobrir nas proximidades, ele se levanta lentamente e desaparece porta adentro. O som de um velho gerador se faz ouvir. A música tema de Por uns Dólares a Mais irrompe de imensos alto-falantes. Não consigo descobrir o nome do sargento - talvez seja o sotaque da Andaluzia ou ele esteja tentando criar sua versão do mistério de Eastwood-, mas ele se oferece, sem grande convicção, para me fotografar em traje de época, com chapéu, esporas e um revólver, e tudo isso por apenas sete euros.

Minha próxima parada é Mini-Hollywood, onde boa parte de ¿Três Homens em Conflito¿ foi filmada. O local não serve mais de cenário ao cinema, e agora é um, parque temático. Caubóis fantasiados e profissionais do amor desfilam pelas calçadas pavimentadas. Há um salão de videogame e lojas com lembranças para turistas à venda. Mini-Hollywood claramente dedica suas atenções aos ônibus de excursão turística, como o prova o grande estacionamento para ônibus na entrada da cidade. Não fico por muito tempo.

Ao chegar a Fort Bravo, eu enfim relaxo. Talvez seja por causa da clássica Western Main Street, equipada com loja de ferreiro, cadeia e hotel, ou pelo saloon completamente operacional, com cavalos amarrados à porta. Fort Bravo tem um charme preguiçoso e atraente, oferece até um cadafalso municipal.

O cenário decaído foi comprado há quase 30 anos por Rafa Molina, um dublê de cabelos grisalhos e temperamento agradável, de Valência. Ele pagou US$ 6 mil para "garantir que se um filme viesse a ser filmado aqui de novo, eu teria trabalho". Trata-se da única das três cidades cenográficas que continua em uso regular como locação para filmes.

Sem trabalho e enfrentando problemas financeiros no começo dos anos 80, Molina decidiu abrir o local como atração turística. Cobrava 25 pesetas (US$ 0,10) de entrada e permitia que os visitantes percorressem as ruas e observassem as fachadas, as lojas. Poucos anos mais tarde, começou a encenar espetáculos - tiroteios e brigas de bar simulados.

Os espetáculos são meio cafonas, mas permitem que minhas fantasias de uma vida como fora da lei escapem ao controle. No final do dia, depois que quase todos se foram, com o deserto silencioso e ocupado por longas sombras, caminho lentamente pelo meio da rua, com as mãos pendendo ao longo do corpo, esperando, talvez, ver o ameaçador "Tuco" de Eli Wallach sair de uma das construções, ou o "Angel Eyes" de Lee Van Cleef agachado sobre um dos telhados, de tocaia.

Enquanto Molina e eu conversamos no saloon, chega Paco Barrilado, um corpulento andaluzo, ex-boxeador, dublê e veterano de inúmeros westerns de Leone.

"Ele era um diretor severo", conta Barrilado sobre Leone. "Você fazia o que ele mandava, ou havia encrenca".

"E você sempre obedecia?", pergunto.

"Eu era jovem. Sergio sempre tinha um dólar de prata na mão, e quando ele ficava zangado começava a rolá-lo entre os dedos. Isso era um mau sinal".

Ambos alegam terem trabalhado como dublês e extras em Indiana Jones e a Última Cruzada, filmado cerca de 30 km ao sul, onde o deserto encontra o mar. "Acho que fui morto 10 vezes naquele filme", diz Molina.

Para não ser superado, Barrilado alega que "fui que comprei o poncho que Eastwood usava nos filmes de Leone". Rebato dizendo que li em uma entrevista que o ator havia comprado o poncho no vale de San Fernando, na Califórnia.

"Eu comprei, em Nijar, aqui perto", Barrilado insiste.

Molina me encara e revira os olhos.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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