National Geographic

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Sexta, 30 de março de 2007, 17h36

África: caça esportiva pode ajudar preservação

As caçadas esportivas podem desempenhar papel essencial na conservação da fauna africana, de acordo com número crescente de biólogos.

Por isso, alguns especialistas estão pedindo um programa que regulamente o setor de caça esportiva africano, para garantir os benefícios de conservação.

De acordo com um estudo recente, nos 23 países africanos que permitem caçadas esportivas, 18,5 mil turistas pagam mais de US$ 200 milhões ao ano para caçar leões, leopardos, elefantes, javalis, búfalos d¿água, impalas e rinocerontes.

As operações privadas de caça nesses países controlam mais de 1,4 milhão de quilômetros quadrados de território, segundo o estudo. Isso representa 22% mais terras do que as dos parques nacionais dessas nações.

À medida que cresce a demanda por terra, devido ao aumento acelerado da população humana, alguns conservacionistas estão argumentando que resultados mais efetivos poderiam ser obtidos por meio da cooperação com os caçadores e da regulamentação sensata desse setor econômico.

As caçadas esportivas podem ser sustentáveis, se administradas cuidadosamente, diz Peter Lindsey, um biólogo especialista em conservação na Universidade do Zimbábue, em Harare, que comandou o recente estudo.

¿A caça esportiva tem importância essencial para a conservação da fauna africana, ao criar incentivos financeiros à promoção e retenção de animais, e como forma de uso de terra em áreas vastas¿, diz.

Na próxima edição da revista especializada Conservation Biology, Lindsey e uma equipe internacional de colegas pedirão por um plano que reforce os benefícios da conservação no setor de caça esportiva, incluindo um programa de certificação que regulamente o setor de maneira mais severa.

"Para justificar a existência continuada de áreas (protegidas) no contexto de uma maior demanda por terra, a fauna tem de pagar pelo seu sustento e contribuir para a economia, e a caça esportiva oferece uma maneira importante de fazê-lo", afirma Lindsey.

A fim de receberem certificados sob o plano proposto pelo biólogo, as operações de caça teriam de provar seu compromisso para com o bem-estar dos animais, a administração cuidadosa das cotas de abate, objetivos de conservação em longo prazo e desenvolvimento das comunidades locais.

"Chegou a hora de o escrutínio científico propiciar o maior benefício possível à conservação, no setor de caça", disse Lindsey.

¿Deveria haver também maiores esforços do setor de caça para adotar auto-regulamentação e garantir que os profissionais inescrupulosos sejam afastados¿, acrescentou.

A caça esportiva tem má reputação nos países desenvolvidos, em parte devido às caçadas indiscriminadas dos antigos colonos europeus, observa Lindsey. A caça irresponsável resultou na extinção de espécies como o quagga (primo da zebra), e conduziu a declínios maciços na população de outros animais, entre os quais os elefantes e os rinocerontes negros.

Mas a caça esportiva também merece crédito por ter facilitado a recuperação de espécies, argumenta a equipe de Lindsey no estudo.

Os rinocerontes negros do sul da África evoluíram de uma população de apenas 50 animais um século atrás para mais de 11 mil, hoje, porque as caçadas deram a criadores um estímulo financeiro para preservar o animal, segundo os autores.

A caça esportiva também levou ao ressurgimento das populações de zebras montanhesas e wildebeests negros na África do Sul, ele afirmou.

Os caçadores tipicamente abatem apenas entre 2% e 5% dos machos das populações animais que tomam por alvo, a cada ano, acrescentou, o que exerce efeito insignificante sobre a saúde reprodutiva das populações.

Muitos grupos de defesa dos direitos dos animais se opõem ao abate de animais por esporte.

¿A idéia da caça esportiva como método de conservação é uma questão extremamente complicada e contenciosa, que gera visões antagônicas de parte de pessoas que alegam, todas, querer o melhor para os animais¿, diz Marc Bekoff, ecologista comportamental da Universidade do Colorado em Boulder e autor de The Emotional Lives of Animals.

Bekoff diz que embora o programa de certificação seja uma boa idéia, ele acha difícil acreditar que viesse a funcionar bem na prática, porque a burocracia necessária a essa regulamentação seria complexa.

¿É difícil acreditar que a situação chegou ao ponto em que matar é a melhor maneira de conservar¿, ele afirma. "É preciso haver alternativas mais humanas".

No final de fevereiro, a África do Sul anunciou um projeto de lei há muito aguardado contra a chamada "caça enlatada", prática que envolve matar os animais dentro de jaulas ou caçar animais que são libertados de uma jaula, sob efeito de tranqüilizantes, pouco antes de serem abatidos.

A proibição entrará em vigor em 1° de junho, sob uma lei que também proíbe caça com arco e flecha.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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