National Geographic

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Sábado, 17 de fevereiro de 2007, 12h05 Atualizada às 12h05

Zâmbia oferece a turistas última África verdadeira

"Se os leões caminharem em nossa direção, não se mexa", Robin Pope sussurrou para mim. "Espere minhas instruções". Ele se voltou para os leões, três fêmeas e seis filhotes, localizados a cerca de 18 metros de nós. Estávamos a pé, longe de qualquer árvore que pudéssemos galgar. Os leões mal desviavam os olhos de nós. Suas orelhas estavam inclinadas para trás; as caudas se moviam lentamente.

Um dos filhotes mais velhos e ousados deu alguns passos em nossa direção. A mãe do leãozinho se ergueu. Eu contei mentalmente quantos saltos eles teriam de dar antes de chegar até nós.

Chegar perto de leões a pé pode não parecer a melhor das idéias, mas no vale do Luangwa, na Zâmbia, isso é parte de uma tradição única no mundo dos safáris, iniciada aqui meio século atrás. Robin Pope é um dos mestres modernos dessa tradição. Com dois outros viajantes, eu saí na companhia dele para um safári de três dias ao longo do rio Luangwa, que tem 800 quilômetros de comprimento e se estende por um distante vale selvagem que cobre cerca de 20 mil quilômetros quadrados de território na região centro-sul da África. Localizado entre as grandes planícies da África Oriental e os espinheiros do deserto de Kalahari, o Luangwa não atraiu tanta atenção quanto merece, nas últimas décadas.

Isso está mudando rapidamente, e vim aqui para explorar as qualidades que tornam o Luangwa único. Por sob seu discreto anonimato, existe um lugar que algumas pessoas já definiriam como "a última África verdadeira". Quase três décadas atrás, Robin Pope, nascido na África do Sul e criado nas regiões selvagens da Zâmbia, foi contratado como guia para safáris a pé.

O responsável por atraí-lo a esse trabalho foi Norman Carr, um guarda-caça que se tornou conservacionista e mais tarde pioneiro do ecoturismo, e cuja influência continua a se fazer sentir em todas as hospedarias e acampamentos espalhados pelo vale do Luangwa. Carr inventou a idéia de safáris a pé, e seu código de ética, e treinou a nova geração de guias, que preservam e expandem essa tradição.

Encontros imediatos com animais, no ambiente deles, é uma das características ¿e emoções- de um safári a pé, e Robin gosta de se aproximar bastante, mas não aceita riscos insensatos. "É preciso caminhar com um senso constante de antecipação, prestando atenção ao inesperado e usando todos os sentidos", diz dele ao iniciarmos nossa jornada, ao nascer do dia. "E, além disso, ouçam sempre o que seu sexto sentido tem a dizer".

Caminhar pelas regiões remotas da África faz com que todos os sensos fiquem em alerta. Os sons e os cheiros se tornam mais intensos - o ruído dos passos sobre as folhas secas das árvores parece explosivo, o cheiro das flores se torna quase enjoativo. Tudo parece importante - o estalido de um galho, o rugido de alerta de um impala, o cheiro distante da morte, em algum lugar, trazido pela brisa suave - o que isso quer dizer? Há leões por perto?

Robin caminha em ritmo constante, enquanto percorremos um bosque repleto de árvores de mogno, campinas recobertas por plantas secas de mopani e trechos de vegetação densa, um emaranhado de arbustos conhecidos como capparis; nossa caminha se interrompe diante de qualquer panorama que desperte o interesse: uma pilha de penas brancas com pequenos pontos negros (tudo que resta de um pássaro), alguns espinhos de porco-espinho (parece que ele conseguiu escapar ao ataque), excremento de hienas (branco como os ossos que elas comem), rastros (recentes) de leões.

Caminhar com Robin é tão absorvente que ocasionalmente me esqueço do perigo. Mas há uma quinta pessoa conosco, sem a qual nenhum safári seria possível (e sem a qual nós não poderíamos ter nos aproximado dos leões). Trata-se de um guarda armado do Serviço de Fauna da Zâmbia. Em cada safári, um guarda acompanha o guia que lidera o grupo, armado com um rifle com poder de fogo suficiente para deter um elefante, se preciso. Antes de retornarmos ao acampamento para uma pausa de almoço, Robin nos conduz ao rio, por uma ravina íngreme, e vemos dezenas de hipopótamos repousando em uma espécie de lago, perto da margem, mergulhados até a altura dos olhos.

Nós nos aproximamos inclinados, tentando nos fazer menos visíveis, e então Robin e Ison Simwanza, nosso guarda, rapidamente se voltam e apontam para uma imensa nuvem de poeira do lado oposto do rio: um grande rebanho de búfalos se espalha pelas planícies arenosas, formando uma muralha marrom cada vez mais larga, uma legião de animais a caminho do rio para beber.

Os búfalos são conhecidos tanto por sua timidez quanto por seu espírito agressivo e chegar perto deles pode ser difícil. Mas o vento está a nosso favor, hoje. Robin e Ison caminham, agachados, alguns metros adiante de nós, seguidos por dois dos turistas, que os seguram pela cintura. Eu me coloco um pouco para trás, também agachada, posicionada entre os dois.

Caminhamos todos juntos, agachados, lentamente, pela margem do rio, formando uma figura que, a distância, esperamos, se pareça com um búfalo de perfil. O rebanho não presta atenção. Estamos diante deles, agora a 20 ou 30 metros, e logo rastejamos lentamente até a margem do rio - perto o bastante dos animais para sentir seu forte cheiro bovino e perceber o imenso poder dos músculos flexionados por sob sua pele.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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