Atualizada às 19h28
É improvável mas não impossível que o presidente da tribo, cuja casa não dispõe de água encanada e cujo carro é um Alfa Romeo enguiçado, venha a supervisionar um império do jogo - iniciado em seu escritório doméstico, decorado com imagens de belos iates. Se isso acontecer, ele diz, os anciãos da tribo deixarão para trás a pobreza e poderão viver em casas de repouso, operadas por médicos e enfermeiras, que ele acredita possam ser construídas pela tribo com o dinheiro que o cassino geraria. E é improvável mas não impossível encontrar um trecho aparentemente ilimitado e vazio de terras alagadas em Nova Jersey, sobre as quais os gansos de inverno voam em uma sinfonia uníssona de plumas.
Todos esses elementos estão reunidos aqui, no canto sudoeste do Estado, lugar ao qual James Brent Thomas, o chefe da tribo unalachtigo, parte da nação nanticoke lenni lenape, muitas vezes vem para observar o pôr do sol, do outro lado do rio Delaware. Foi aqui que os ancestrais de Thomas desembarcaram de suas canoas, em 1632, depois que outra tribo tentou massacrá-los no Delaware. E é aqui que ele sonha seus quixotescos planos para que a tribo, em suas palavras, "deixe de mendigar migalhas da mesa alheia" e viva de maneira tão suntuosa quanto deseje.
Thomas, 48 anos, como os jogadores que ele gostaria de atrair, acredita em apostas arriscadas. A tribo, que é composta por 60 membros, quase todos os quais instalados em ou perto de Bridgeton, alega em um processo aberto em tribunal federal no ano de 2005 que o Estado vendeu indevidamente 1.231 hectares de terra sobre as quais a tribo tinha direitos, em 1801, sem a requerida aprovação do Congresso. Os unalachtigo querem trocar a terra, que agora faz parte do município de Shamong, no condado de Burlington, por 607 acres no condado de Alpine, Nova Jersey, que hoje abrigam um acampamento de escoteiros. A tribo também deseja adquirir outros 607 acres em Rancocas, Nova Jersey, hoje um parque estadual arrendado a outro grupo de indígenas.
Em Alpine, uma cidadezinha de 2,2 mil moradores à margem do rio Hudson, a noroeste de Manhattan, a tribo propõe construir o que Thomas define como "uma cidade do pecado completa", projeto de US$ 5 bilhões que incluiria cinco cassinos, dois condomínios fechados e 150 casas. A tribo também planeja construir um cassino em Rancocas, cidade de 11 mil pessoas localizada a meia hora, de carro, de Filadélfia. Quando adquirem terras, as tribos indígenas tipicamente convidam incorporadores imobiliários especializados em cassinos para investir nesse tipo de projeto.
A tribo pequot mashantucket tinha 200 membros no dia em que o cassino Foxwood foi inaugurado, e muito menos quando a idéia para o cassino, instalado no Connecticut, começou a ser desenvolvida. Thomas, que conheceu membros da tribo pequot em sua vida pregressa como comerciante de arte, disse que foram eles que o inspiraram em sua busca.
Muitas tribos indígenas americanas, entre as quais os cheyennes, arapahos e outros grupos, em Oklahoma, Califórnia e Wisconsin, tentaram construir cassinos em terras distantes de seus lares históricos, mas os unalachtigo merecem atenção especial devido ao seu status humilde e à proximidade entre os terrenos que planejam desenvolver e a cidade de Nova York. O Estado de Nova Jersey solicitou à Justiça Federal que encerre o processo aberto pela tribo, repetindo a decisão da justiça estadual contra um processo semelhante iniciado em 2001.
Em uma petição de solicitação de que o caso seja encerrado, o Estado argumenta que as tribos estão proibidas de processar Estados e seus representantes legais em casos envolvendo terras indígenas, e que de qualquer maneira o prazo para esse tipo de reclamação já prescreveu. O Estado também questiona a legitimidade da tribo de Thomas, alegando que ela necessita de reconhecimento formal pelo Serviço de Assuntos Indígenas, uma agência federal.
Thomas rebate alegando que o Estado renunciou aos seus direitos de soberania sobre a tribo em 1758, e afirma que a tribo não precisa de reconhecimento federal para operar cassinos, "porque os jogos de azar são legais em Nova Jersey". Ele fala longa e detalhadamente sobre os US$ 776 milhões em receita dos cassinos que a tribo compartilharia com o Estado, sugerindo que o dinheiro seja usado para reduzir o valor do imposto predial e imobiliário.
A argumentação jurídica é uma capacidade que Thomas descobriu e empregou como parte de um plano para sair da cadeia tão logo possível, quando cumnpriu quatro meses de uma sentença de prisão de três anos, em 1990, por fraude de seguros de automóveis. Esse é um ponto que seus adversários mencionam com freqüência, mas que a Justiça criticou o Estado por empregar, classificando-o como "ofensivo, injustificado e irrelevante". No entanto, diversos especialistas em leis indígenas dizem duvidar das chances da tribo, apontando que os obstáculos jurídicos são muitos para as tribos que desejam operar cassinos.
"Assim, se eles conseguirem reconhecimento federal e caso seu direito à terra seja sustentado por provas sólidas, um bom advogado aconselharia o Estado a oferecer um acordo", afirmou Nell Jessup Newton, diretora da Escola Hastings de Direito, parte da Universidade da Califórnia. "Mas há muito de incerto no processo. É improvável que o Estado deseje um acordo quando existem tantos obstáculos que o grupo indígena teria de superar".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times Magazine
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