National Geographic

National Geographic

Domingo, 4 de fevereiro de 2007, 09h09

Mumbai é mistura de Hollywood e NY na costa indiana

"Há quem diga que Bombaim é a Nova York da Índia", diz Divya Abhat, nascida na metrópole hoje conhecida como Mumbai (o governo indiano alterou oficialmente o nome da cidade em 1995, em honra da deusa hindu Mumba, seguindo a tendência de abandonar os nomes da era colonial).

É difícil descrever a cidade em poucas sentenças, e se acrescentarmos à tarefa o Estado de Maharashtra, em que ela se localiza, e Goa, o Estado vizinho, as dificuldades se agravam ainda mais. A região é uma vasta mistura de riqueza e pobreza, de poderio comercial e financeiro cercado e compensado por paradisíacas praias desertas e montanhas e campos pastorais.

A "cidade dos sonhos" da Índia é a primeira parada natural para quem quer que visite a costa oeste do país. Ainda que seja mais conhecida como capital empresarial da Índia e sede da maior indústria cinematográfica do mundo, Bombaim tem muito mais a oferecer.

A visita começa por um dos ícones da cidade, o Portão para a Índia. Trata-se de um arco imenso construído pelos ingleses na saída do porto de Bombaim, para comemorar a visita do Rei George V e da Rainha Mary ao país, em 1911. O Império Britânico tinha grandes ambições ao conceder à Companhias das Índias Orientais uma licença de exploração sobre todo o comércio com as "Índias Orientais", as quais incluíam a seqüência de ilhas que originalmente formavam a cidade de Bombaim. Elas foram conectadas por meio de terraplenos.

O Portão marcava o local em que os navios desembarcavam os comerciantes, funcionários do governo e migrantes que ajudaram a dar forma à estonteante cidade em que Bombaim se converteu. Hoje em dia, o Portão e o parque em que está instalado servem de cenário a encantadores de serpentes, equilibristas, mágicos e outros artistas de rua.

Os migrantes desempenharam papel crucial na história da cidade. Atravesso a rua do Portão para o hotel Taj Mahal, uma glória em estilo vitoriano construída em 1903 por um empresário de origens persas e indianas, Jamsetii Tata. O folclore local dispõe que Tata foi proibido de se hospedar no melhor hotel da cidade, o Watson's, reservado aos britânicos e aos brancos. A resposta dele foi construir o Taj Mahal e decretar que o hotel teria o melhor atendimento do mundo. Desde então, o estabelecimento criado por Tata sempre esteve nas listas de melhores hotéis do planeta. O Watson's? Ninguém mais se lembra dele.

Um dos mais famosos guias do hotel é Suresh. Ele é responsável por passeios de carro pela Colaba Causeway, diante de miríades de lojas e camelôs que lotam as calçadas. Em seguida vem o bairro de Malabar Hill, a área sofisticada da cidade, que abriga os parsis.

Originários do Irã, os imigrantes parsis se estabeleceram e prosperaram ao longo da costa oeste indiana. Quando a cidade se tornou colônia britânica, os parsis já se haviam tornado os principais capitalistas da Índia, e financiavam as instituições culturais de Bombaim. Mantendo os amigos por perto, os parsis criaram uma comunidade de pessoas estreitamente relacionadas, em Malabar Hill, uma península que se projeta pelo oceano.

Residências elegantes, de fachadas quase escondidas por trás de árvores típicas da Índia, conhecidas como bânias, testemunham a prosperidade dos residentes. As casas do bairro raramente são vendidas em mercado público: trocam de mãos em transações privadas entre os parsis, o que reforça a exclusividade do bairro.

Mas a península abriga igualmente um dos mais antigos e sagrados locais da cidade: o Banganga, complexo de templos construídos 400 anos atrás e centrado em uma fonte de água sagrada, que se diz originária do rio Ganges, reverenciado pelos hindus. Outro local de grande popularidade é o templo da seita jain, repleto de decorações fantasiosas, construído em 1904 pelos devotos desse credo hinduísta que prega a não violência e a negação do ego.

Mas Suresh também é especialista em mostrar como o resto das pessoas vive, em Bombaim. A leste fica o movimentado Crawford Market (cujo nome foi mudado oficialmente para mercado Mahatma Jyotiba Phule, ainda que a maioria dos indianos continue usando o nome antigo).

É uma construção policromática, exuberante, com frutas, verduras e especiarias à venda no interior de um cavernoso edifício que mistura o estilo gótico e toques indianos. Assistir à barganha dos compradores e vendedores de flores e mangas é uma experiência reveladora, mas o friso que fica sobre a entrada principal do edifício talvez represente revelação ainda maior: foi criado pelo professor John Lockwood Kipling, pai do escritor Rudyard Kipling, autor de Kim e O Livro da Jângal, que nasceu em Bombaim quando seu pai lecionava aqui.

Mais ao sul, nova glória da era colonial, o Victoria Terminus (hoje Chhatrapati Shivaji Terminus), estação ferroviária repleta de detalhes de época, concluída em 1888. Oferecendo domos, arcos, torres e filigranas em quantidade impressionante, a estação foi integrada ao patrimônio cultural da humanidade, gerido pela Unesco, em 2004, como um notável exemplo da retomada do estilo arquitetônico gótico empreendida na era vitoriana, combinada a temas derivados da arquitetura tradicional indiana.

Ainda em funcionamento como terminal ferroviário, o edifício recebe pessoas de todas as classes pessoais, passageiros de trens locais e intermunicipais.

Um bom passeio se encerra na praia de Chowpatty ¿ não é um lugar onde se possa nadar, mas se tornou um dos lugares prediletos da cidade para assistir ao pôr do sol. Famílias, casais de namorados, trabalhadores, empresários vão à praia para caminhar na areia, e comer salgadinhos de arroz temperado com especiarias, servidos em cones de papel.

A praia serve como contraparte noturna ao encontro matinal das multidões no Portão da Índia, e fecha com perfeição o círculo da vida que Bombaim representa tão bem.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

  • Imprima esta notícia
  • Envie esta notícia por e-mail

Busca

Busque outras notícias no Terra: