Atualizada às 10h15
Steve Paul
"Oh, não", diz o diretor educacional Greg Carroll, batendo na mesa para enfatizar. Sandy Nelson faz uma careta, finge apunhalar o peito. A programação da conferência vai para a gráfica em poucos dias. "Ela precisa mesmo estar correta?", pergunta Nelson. Mais um inverno, mais uma louca investida em direção à linha de chegada para as pessoas que mantêm o pulso do mundo do jazz, defendendo sua posição no horizonte cultural e nas salas de aula da nação.
O normal seria esperar que o principal evento de jazz ocorresse em Nova York, no congestionado centro de Manhattan. Mas poucos sabem que o coração deste mundo tem batido por quase 40 anos aqui na outra Manhattan, aquela que fica na terra das camisetas da Universidade Estadual do Kansas e dos torcedores do Wildcats, bem como dos ventos que sopram na pradaria árida e sem árvores. O crédito vai para Matt Betton. Líder de banda bonachão e dono de uma loja local de música, Betton co-fundou em 1968 o que era então a Associação Nacional de Educação para o Jazz. "Ele sentiu que nós precisávamos de uma organização para representar o setor", disse McFarlin, o diretor executivo da organização, "e insistia em que essa forma de música tivesse lugar entre as artes e fosse respeitada como uma realização unicamente norte-americana".
Nos anos 60 o jazz era pouco apreciado nas escolas de música, e muitas vezes terminava considerado como uma distração indigna e indisciplinada que afastava os alunos das apresentações e estudos sérios. Mas Betton não se deixou desanimar. Formado em música em 1938 pela Universidade Estadual do Kansas, ele tocava clarineta e liderava uma big band por 40 anos. Em 1941 a revista "Billboard" a elegeu como a melhor banda universitária de dança dos Estados Unidos. "Ele era alto e carismático, parecido com Jimmy Dorsey", conta McFarlin, um trompetista alegre que tem o rosto enfeitado por um cavanhaque. Betton administrou acampamentos de verão de jazz para Stan Kenton, contratou cantoras do calibre de Marilyn Maye; cruzou caminhos com Jay McShann, Lester Young e Clark Terry; e ele e sua mulher, Betty, administravam uma loja de música em Manhattan, e criaram uma família de músicos.
Em 1968, Betton enviou um informativo de uma página para os cem primeiros membros da organização. Ele e Betty lutaram para manter a associação viva. A lenda diz que ele colocou um estimado Buick de 1916 como garantia de um empréstimo no banco para ajudar a associação a pagar as contas. Mas logo as coisas ganharam ímpeto, e em poucos anos Betton começou a publicar o "Jazz Education Journal", uma revista sempre bem nutrida, e a comandar um grupo cada vez maior.
Carol Comer, uma cantora de Kansas City e co-fundadora do Festival de Jazz Feminino de Kansas City no final dos anos 70, se lembra de ter recebido dicas organizacionais de Betton em uma conferência da AIEJ em Dallas. Ela ficou encantada com o modo pelo qual a conferência deu aos estudantes uma chance de conviver e aprender com músicos famosos. ¿Eles fizeram uma coisa incrível a partir daquele lugar¿, diz Comer.
Betton passou as rédeas para McFarlin em 1986. Quando Betton morreu, em 2002, ele pôde ver a AIEJ transformada em uma influente organização. ¿Estimamos que os nossos 10 mil membros estejam em contato com um milhão de estudantes¿, diz McFarlin. Ele e sua equipe mantém a música viva com base em um emaranhado de escritórios localizados na traseira de um restaurante mexicano abandonado, na ponta noroeste de Manhattan.
Logo antes de sua reunião de organização no mês passado, McFarlin recebeu uma ligação do produtor de uma nova série de DVDs de jazz ¿ gravações raras e antigas de Count Basie, Thelonious Monk e outros músicos para programas de televisão europeus. A série "Jazz Icon" vai ser lançada na conferência da AIEJ, e o produtor ofereceu a McFarlin 25 box sets para serem vendidos e levantar fundos para a organização. Quincy Jones, que está ajudando a promover a série, vai autografar os kits, e a AIEJ pode pedir mil dólares por cada conjunto. "Vamos nessa", diz McFarlin.
Na semana passada um caminhão carregando nove toneladas de programas da conferência partiu de Manhattan rumo a Nova York. Vinte pianos de cauda também estão a caminho. E McFarlin e sua equipe se estabeleceram na grande maçã para a preparação do show de abertura. Eles levaram suas planilhas codificadas por cores, seus celulares, walkie-talkies e seu entusiasmo pelo jazz. "Esta é uma música muito viva, sempre em evolução", diz McFarlin.
Mais de 7 mil músicos, professores, estudantes, produtores e representantes de selos musicais vão desembarcar em Nova York esta semana pra o que McFarlin chama do "Super Bowl do jazz". "A convenção da AIEJ é como a Disneylândia para um amante do jazz", diz Dana Gioia, presidente da Fundação Nacional das Artes. "Todo mundo estará lá. A maior loja de discos de jazz do mundo surge do nada por dois dias. Você encontra pessoas do jazz, 100, 200 grandes músicos".
Com seu elenco internacional e seu som sempre em evolução, a conferência ajuda a enfatizar que o jazz é uma música maleável. McFarlin prefere que seja assim. "Uma das coisas que nós não fazemos é definir o que é jazz", ele diz. "No minuto em que eu ouço alguém tentar fazer isso, não consigo deixar de revirar um pouco os olhos". Nos próximos anos a organização vai lançar conferências regionais na Escandinávia e na América do Sul, e um instituto de verão em Park City, no Utah.
Na conferência desta semana, somente da França estarão presentes 200 músicos e profissionais do setor, além de delegações de bandas de jazz de escolas da Austrália, Cazaquistão, Israel, Dinamarca e de muitos outros lugares. "Sob muitos aspectos", diz McFarlin, "é como ir para a Assembléia Geral da ONU. Só que é muito mais bacana".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Nat Geo Today-- The New York Times Syndicate
National Geographic
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