National Geographic Traveler

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Terça, 23 de janeiro de 2007, 21h20

Vacas marinhas têm comportamento amoroso

Se você um dia decidir nadar em companhia de uma vaca marinha selvagem da Flórida, esteja preparado para o que pode parecer uma proposta erótica. Renomadas por seu comportamento carinhoso, as vacas marinhas já se aproximaram de muitos nadadores incautos e cerraram os olhos, entreabrindo os lábios, como se estivessem flertando e à espera de um beijo.

Mas os nadadores não precisam se apavorar. Esse comportamento, dizem os cientistas, é simplesmente mais um exemplo da maneira pela qual as vacas marinhas empregam seu senso de tato altamente desenvolvido. Novas pesquisas sugerem que o senso tátil das vacas marinhas é tão refinado que os animais podem até mesmo experimentar a sensação de "toque à distância" -uma capacidade de "sentir" objetos e eventos na água, mesmo que estejam relativamente longe do ponto em que se originam.

Em estudo recente, os biólogos marinhos Roger Reep e Diana Sarko, da Universidade da Flórida, em Gainesville, nos EUA, constaram que os animais eram recobertos de pêlos finos que funcionam como sensores. "Descobrimos que as vacas marinhas dispõem do que denominamos pêlos táteis em todo o corpo, ao contrário da maioria dos mamíferos, que só os têm no rosto", diz Reep, do Colégio de Medicina Veterinária da universidade.

Combinados, esses pêlos táteis formam uma espécie de conjunto sensor, dizem os biólogos, o que possivelmente permitiria que as vacas marinhas detectassem, mudanças nas correntes marítimas, temperatura da água e até mesmo força das marés.

Quanto aos beijos que as vacas marinhas parecem estar oferecendo aos nadadores, explicou Sarko, na verdade eles representam apenas a maneira pela qual o animal recolhe informações, dispondo os pêlos que cercam sua boca em uma forma que permita que avalie o que está se aproximando. "Os pêlos faciais estão explorando ativamente o ambiente que os cerca", diz ela. "Mas talvez a vaca marinha simplesmente o tenha achado atraente. Não tenho certeza", disse Sarko.

A descoberta de Reep e Sarko pode explicar de que forma as vacas marinhas realizam tarefas complexas tais como conduzir longas e tortuosas migrações em águas turvas, a despeito de terem vista pouco aguçada. "Quando você sai em um barco pela primeira vez e não conhece a área, termina perdido em dois minutos", diz Reep. "O ambiente é realmente complexo".

Mas as vacas marinhas navegam esse labirinto aquático a cada dia, deixando os rios a cada manhã para se alimentar nos grandes gramados subaquáticos ao largo da costa antes de voltarem para águas ribeirinhas ao anoitecer. "E por isso a questão é determinar como elas sabem para onde estão indo", diz Reep. "Estamos falando de água relativamente escura, e já sabemos que elas não têm grande acuidade visual".

Uma das possibilidades é que elas sejam capazes de empregar os seus pêlos táteis para detectar o movimento da água e determinar onde se encontram no ambiente e que, "portanto, empreguem seus pêlos sensoriais como ferramentas de navegação", ele afirma. Sarko concorda, dadas as observações sobre o notável senso migratório da espécie.

"Quando um furacão se aproxima, elas abandonam a área, de modo que é preciso imaginar de que espécie de senso dispõem e o que exatamente são capazes de detectar", diz. "Mas queremos saber mais sobre suas capacidades no que tange ao uso dos pêlos".

"Nosso objetivo dominante é compreender as vacas marinhas um pouco melhor e descobrir de que forma elas percebem seu ambiente", diz Sarko. "Ao fazê-lo, já que elas não pareceram muito capazes de se adaptar a nós, talvez descubramos melhores maneiras de nos adaptarmos a elas".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Nat Geo Today-- The New York Times Syndicate

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