National Geographic

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Terça, 23 de janeiro de 2007, 21h24 Atualizada às 01h47

Realidade virtual cura dores fantasmas

Para os pacientes que sofrem dores fantasmas nos membros amputados, uma cura pode estar chegando, via computador. A realidade virtual pode representar a solução para a sensação, normalmente agonizante, de sentir a presença de um membro que não está mais lá, dizem especialistas.

"Quatro em cada cinco dos pacientes que usaram nosso sistema de realidade virtual reportaram significativa redução em suas dores", diz Steve Pettifer, cientista da computação da Universidade de Manchester, Inglaterra.

"Se novos testes provarem que se trata de uma tecnologia de sucesso, ela poderia ser usada em hospitais ou por pacientes em suas casas". Pettifer diz que cerca de 80% dos pacientes de amputações passam por alguma forma de desconforto associada a dores fantasmas e muitas vezes têm a sensação de pontadas ou choques elétricos. Algumas pessoas sentem que seus membros estão contorcidos em posições impossíveis e outras sentem fisgadas nas palmas das mãos amputadas.

Os médicos têm conhecimento do problema há muitos anos. Ambroise Paré, um cirurgião francês do século XVI, descreveu a situação de soldados que haviam sofrido amputações e sugeriu que as dores poderiam ser atribuídas ao cérebro. Mas mesmo hoje não está claro o que exatamente causa as misteriosas sensações, disse Vilayanur Ramachandran, neurologista da Universidade da Califórnia, em San Diego. "Trata-se de um velho equívoco supor que a origem dessas dores fantasmas esteja nas terminações nervosas dos membros amputados", diz o especialista.

"Quando um braço é removido, existe uma parte do cérebro que fica temporariamente sem receber sinal algum. Assim, os impulsos sensoriais do rosto tomam o lugar que antes era ocupado pelos impulsos vindos do braço". Ocasionalmente, os sinais se confundem e qualquer movimento do rosto causa dor lancinante no membro fantasma, acrescenta.

"Hoje em dia, a terapia para dores fantasmas envolve o uso de uma combinação de analgésicos e, em certos casos, procedimentos mais extremos como estímulo profundo ao cérebro, método que envolve inserir um eletrodo na região do cérebro que acredita-se esteja respondendo à dor fantasma", diz Pettifer. O método mais comum é introduzir um eletrodo através do pescoço até o peito, onde fica instalado um "sistema de controle" que gera um sinal de alta freqüência para desativar a parte do cérebro que está causando a dor.

O método menos invasivo desenvolvido por Pettifer e seus colegas toma por modelo o trabalho anterior de Ramachandran, que envolvia uma caixa de papelão com um espelho de um lado. Neste método, o paciente se posiciona diante da caixa e mexe o braço. O reflexo parece enganar o cérebro da pessoa e levá-la a considerar que é o membro amputado que está se mexendo.

"O estímulo visual", afirma Ramachandran, "parece aliviar a dor". Mas com o sistema virtual, o paciente usa um capacete que vem equipado com duas pequenas telas de vídeo, uma para cada olho. Cada tela exibe um ambiente virtual, criando a sensação de visão tridimensional. O paciente usa uma "luva de dados", equipada com sensores que medem a movimentação dos dedos. Três outros sensores -um na cabeça e dois no membro remanescente- detectam a posição e rotação do corpo do paciente.

Quando o equipamento está instalado, o paciente realiza tarefas tais como tocar uma série de alvos mutáveis ou rebater uma bola flutuando diante de seu rosto. "Tudo isso são desculpas para que movam seus membros", explica Pettifer. "O braço funcional é que faz esses movimentos. Mas no ambiente virtual eles vêem o braço amputado supostamente executando a tarefa. Como na caixa com o espelho, o sistema engana a pessoa e a faz pensar que o membro amputado está se mexendo". Os resultados não são consistentes. Mas os pesquisadores dizem que uma sessão no equipamento em geral alivia as dores nos membros fantasmas por até dois dias.

Quatro em cada cinco dos pacientes que testaram o sistema até agora reportaram redução significativa nas dores em membros fantasmas, e a equipe de Pettifer está planejando um teste clínico em larga escala a partir de fevereiro.

Albert Skip Rizzo, psicólogo do Centro de Sistemas Integrados de Mídia da Universidade do Sul da Califórnia, diz que "os resultados surpreendentes oferecem uma nova maneira de compreender de que forma o cérebro percebe os sinais do corpo e como se pode iludí-lo com certos estímulos visuais". Ramachandran considera que as conclusões de Pettifer negam o conceito de que há conexões fixas no cérebro, com as quais cada pessoa nasceria, e que, quando essas conexões são danificadas, há pouco que se possa fazer. "O estudo desafia a posição padrão da neurologia nos últimos 50 anos e propõe que muitos distúrbios neurológicos podem representar simplesmente supressão funcional, passível de reversão, como se houvesse um botão de reiniciar", argumenta Ramachandran.

O trabalho pode ter aplicações para além do campo das dores fantasmas, ele acrescenta. "As pessoas estão usando o sistema (de espelho) para reabilitar pacientes de derrames (e permitir que voltem a movimentar seus braços). Mesmo em um caso no qual os danos sejam considerados permanentes, poderia haver recuperação parcial".

Mas restam muitas questões, entre as quais o fato de que o sistema não funciona para todos os pacientes, admite Pettifer. "Não sabemos exatamente em quem o método funciona. Mas quando compreendermos melhor a questão, produzir uma versão para ser usada em clínicas ou até o uso doméstico deverá ser simples".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Nat Geo Today-- The New York Times Syndicate

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