Reinaldo Marques/Terra
Obelisco em São Paulo decorado para a celebração do dia mundial de combate à aids; pesquisas avançaram, mas desinformação também cresceu
Não será em 2007 que o mundo científico verá chegar ao fim um dos maiores desafios da medicina até hoje: a cura da aids. Mas é possível afirmar que este ano os médicos e pesquisadores deram passos concretos. Os avanços ocorrem também fora dos laboratórios, na articulação política. O Brasil, por exemplo, tomou a frente das nações em desenvolvimento e iniciou um batalha frente à indústria farmacêutica por preços mais baixos para os medicamentos contra a aids.
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou no início de maio quebra da patente do anti-retroviral Efavirenz. A decisão veio após a negociação entre o governo federal e o laboratório Merck, detentor da patente da droga, não chegar a um acordo sobre a redução do preço.
"É importante deixar claro: não importa se a firma é americana, alemã, brasileira, francesa ou argentina. O dado concreto é que o Brasil não pode ser tratado como se fosse um País que não merece respeito, ou seja, pagarmos quase US$ 1,60, quando o mesmo remédio é vendido para outro país a US$ 0,60. É uma coisa grosseira, não só do ponto de vista político e econômico. É um desrespeito. Como se o doente brasileiro fosse inferior ao doente da Malásia. Não tem nenhuma possibilidade de aceitarmos isso", disse Lula.
O fato é que a decisão do governo brasileiro impulsionou outros países a reabrirem a discussão do preço de determinados medicamentos. As associações de comércio do mundo se apressaram em tentar contornar a situação e censurar parcialmente a decisão do Brasil. Mas o País manteve sua posição e iniciou a produção do genérico do Efavirenz em Pernambuco, com um custo final 40% inferior ao medicamento da Merck.
Mas a pesquisa laboratorial também andou a passos largos. Em agosto, foi anunciado que cientistas franceses descobriram onde o vírus da aids esconde seu "reservatório" no corpo de pacientes submetidos a tratamento contínuo contra a doença. Ainda que o tratamento em um paciente com HIV fosse bem sucedido, o indivíduo sempre continuava com uma carga viral que os médicos não conseguiam mapear.
Mas o estudo francês trouxe algumas respostas para a questão. Os estudiosos franceses dos renomados Instituto Pasteur e Instituto Nacional da Saúde e de Pesquisas Médicas (Inserm), em Paris, afirmaram que é nos gânglios linfáticos da região intestinal que o vírus se oculta. O mais importante foi comprovar o local do esconderijo nos pacientes infectados e tratados há mais de dez anos, cuja carga viral chegara a um ponto indetectável.
"Nós mostramos que este 'reservatório' profundo se situa essencialmente nos gânglios mesentéricos, que drenam a região intestinal, e não nas placas Peyer, situadas no interior do colo, inclusive nos indivíduos tratados que não possuíam partículas virais detectáveis no sangue ou nos gânglios periféricos depois de 10 anos de infecção", disse o coordenador do estudo, Jérôme Estaquier.
A comunidade científica mal celebrava a descoberta e já foi assolada com um balde de água fria. A Merck, a mesma fabricante do remédio que teve a patente quebrada no Brasil, anuncia que vai suspender os testes com sua vacina experimental contra a aids, durante muito tempo considerada uma das mais promissoras. O motivo: testes apontaram que o medicamento era ineficaz.
A Comissão de Monitoramento de Dados de Segurança, que é independente, examinou os resultados preliminares do estudo e recomendou a suspensão da administração a voluntários, devido à perspectiva de fracasso, segundo o laboratório. "Ninguém realmente sabe quando e se teremos uma vacina eficaz contra o HIV, porque o vírus é um enorme desafio", disse Mark Feinberg, vice-presidente de assuntos médicos da unidade de vacinas da Merck.
Fatos e falácias
O ano também foi pródigo em descobertas sobre a prevenção da doença. Mas igualmente rico em falácias sobre o HIV. Uma pesquisa realizada em Uganda, por exemplo, sugeriu que lavar o pênis logo após uma relação sexual pode elevar o risco de contrair o vírus. O trabalho foi apresentado pela equipe do médico Fredrick Makumbi na Conferência sobre Patogênese e Tratamento do HIV, realizada julho, na Austrália.
O mesmo encontrou contou também com a tese do cientista americano Robert Bailey defendeu a circuncisão como forma de evitar o contágio de milhões de pessoas. O professor de Epidemiologia da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, assegurou que a circuncisão reduz a transmissão do HIV em 60%. "É preciso passar da pesquisa às políticas, é necessário que a circuncisão possa ser praticada de forma segura, higiênica e que eticamente não seja discriminatória", ressaltou.
Parecia brincadeira, mas na verdade era um exemplo da trágica realidade da África do Sul, onde um de cada seis habitantes morre de aids. Mas a ministra da Saúde do país que se prepara para receber a Copa do Mundo dentro de 36 meses declara publicamente que uma dieta de azeite de oliva, alho e beterraba é um eficaz forma de prevenir o contágio. Outra autoridade do país também não mediu as palavras. O ex-vice-presidente Jacob Zuma, e forte candidato à sucessão do presidente Thabo Mbeki se considera a salvo do vírus desde que tome banho depois de dormir com mulheres infectadas.