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Karadzic vivia com uma identidade falsa em Belgrado, escondia o rosto com barba, tinha cabelo comprido e óculos, além de praticar medicina alternativa
Na noite do dia 21 de julho deste ano, chegou ao fim a fuga de um dos homens mais procurados pela Justiça Internacional. Após 13 anos, o ex-chefe militar sérvio-bósnio Radovan Karadzic, principal acusado pelo genocídio de Srebrenica, na Bósnia, que matou quase 8 mil pessoas em 1995, foi detido pelos serviços de segurança sérvios. Trata-se do pior massacre perpetrado na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
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O "Carniceiro da Bósnia", como era chamado por muitos, vivia disfarçado num subúrbio de Belgrado, escondia o rosto com barba, cabelo comprido e óculos, e praticava medicina alternativa, disseram autoridades que realizaram a prisão. Karadzic, que usava documentos falsos sob o nome de Dragan Dabic, tinha uma amante, uma falsa família nos Estados Unidos e visitava regularmente um bar decorado com uma foto que o mostrava sem barba, como líder dos sérvios da Bósnia durante a guerra.
Levado ao Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII), em Haia, no dia 29 de julho, Karadzic aguarda julgamento. A previsão é de que a audiência preliminar do processo contra o ex-chefe militar seja realizada em janeiro de 2009. Com a ajuda de especialistas em assuntos legais, tanto profissionais quanto do mundo acadêmico, ele será o responsável pela própria defesa.
Acusações
Procurado por genocídio, crimes contra humanidade e crimes de guerra pelo TPII de Haia, ele é considerado responsável, em particular, e junto com seu assistente militar Ratko Mladic, pelo pior massacre na Europa desde a Segunda Guerra Mundial: a eliminação de quase 8 mil muçulmanos em Srebrenica (leste da Bósnia), em julho de 1995. Também era procurado por seu papel no cerco a Sarajevo, que se arrastou por 43 meses e durante o qual mais de 10 mil civis foram mortos.
Grande, com a cabeleira grisalha sempre revolta, Karadzic não foi mais visto em público desde sua fuga, em 1996. Considerado um monstro pelos croatas e pelos muçulmanos da bósnios, para os sérvios, ele continua a ser um herói da guerra que dilacerou a Bósnia, de 1992-1995, após a proclamação de sua independência.
Nascido em 19 de junho de 1945, na cidade de Petnjica, em Montenegro, Karadzic passou a infância em Niksic, perto da fronteira com a Bósnia. Seu pai, do qual ele herdou o fervor nacionalista, foi preso por ter participado do movimento dos "Tchetniks", que combateram tanto os nazistas, quanto os partidários comunistas de Tito, durante a Segunda Guerra Mundial.
Psiquiatra em Sarajevo nos anos de 1960, Radovan Karadzic começou sua carreira política somente em 1990, tendo como mentor Slobodan Milosevic, o homem forte da Iugoslávia, morto em março de 2006, na prisão do TPII, em Haia, antes do fim de seu processo.
Após a queda do muro de Berlim, o vento de transformação que varria a antiga Europa Comunista atingiu a Iugoslávia, que se dissolveu quando cada uma de suas seis repúblicas proclamaram sua independência, em 1991. Assim como Slobodan Milosevic, Karadzic queria promover a anexação à Sérvia dos territórios povoados de sérvios na Croácia e na Bósnia, onde os sérvios representam cerca de 44% da população.
Auxiliado pelo general Ratko Mladic, Karadzic "limpa" a Bósnia de seus elementos não sérvios. Mais de um milhão de pessoas tiveram de deixar suas cidades, e 200 mil foram mortas durante a guerra. Com os acordos de Dayton, no final de 1995, Karadzic obtém "sua" república: a Republika Srspka, enquanto croatas e muçulmanos dividem a outra metade do país, que se transforma na Federação croato-muçulmana.
Em Dayton, porém, Milosevic isola o aliado e, em julho de 1996, Karadzic é proibido de aparecer em público. Ele entra, então, na clandestinidade, dispondo de uma poderosa rede de seguidores. Também teria se beneficiado de proteção policial e, segundo boatos, teria encontrado abrigo, diversas vezes, nos mosteiros ortodoxos sérvios.
Sua lenda de intocável só fez crescer ao longo das operações frustradas da Otan para detê-lo, enquanto o Departamento de Estado chegou a prometer uma recompensa de US$ 5 milhões por qualquer informação que pudesse levar à sua prisão.