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Talibã cresce com mudanças políticas no Paquistão; Ocidente reage

The New York Times Enquanto o movimento Talibã cresceu no Paquistão, na Argélia, militantes se transformaram em apoiadores da Al-Qaeda Enquanto o movimento Talibã cresceu no Paquistão, na Argélia, militantes se transformaram em apoiadores da Al-Qaeda

No ano de 2008, mudanças políticas deixaram a situação no Paquistão mais tensa, dando espaço para um novo crescimento do movimento Talibã. Em fevereiro, o Partido do Povo Paquistanês (PPP) - da ministra assassinada Benazir Bhutto - saiu fortalecido das eleições e começou a pressionar o presidente Pervez Musharraf, que acabou renunciando em agosto. Ao assumir o governo, o PPP promoveu mudanças na política antiterrorista, que passou a abrir espaço para diálogos com os talibãs. A idéia acabou não dando resultados, além de não ser bem recebida por Washington. Resultado: não houve acordo com os insurgentes, que aumentaram o número de ataques. Do outro lado, os Estados Unidos intensificaram as ações militares em território paquistanês.

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O novo governo iniciou as conversas com os insurgentes por meio de anciões tribais. Em maio, o governo chegou a preparar um projeto para um acordo de paz com os talibãs. "Progredimos rapidamente para um acordo de paz com o Movimento dos Talibãs do Paquistão", disse fonte do governo paquistanês. O principal porta-voz do Movimento dos Talibãs no Paquistão, Maulvi Omar, confirmou as negociações na época. Em resposta, os Estados Unidos, principais fornecedores de recursos financeiros e de armas ao Paquistão, e a União Européia (UE), advertiram que não aceitariam negociações com organizações terroristas que cruzam a fronteira para enfrentar suas tropas no Afeganistão.

No entanto, no fim de maio logo, após o início do cessar fogo, o Talibã acusou o governo de "se negar a retirar suas tropas das zonas tribais". O grupo, então "rompeu as negociações" novamente. Enquanto isso, os Estados Unidos expressavam preocupação com um possível acordo de paz entre o governo do Paquistão e o movimento talibã. No fim de junho, as forças de segurança paquistanesas lançaram uma ofensiva contra militantes do Talibã perto da cidade de Peshawar, no noroeste do país. A milícia ameaçou retaliação. Depois de atacar o grupo em uma localidade importante para o abastecimento das tropas americanas, o Paquistão defendeu que luta contra o terrorismo era de interesse próprio, e não para servir a outros países.

Na época, o líder paquistanês do Talibã Baitullah Mehsud, baseado na região tribal mais remota, o Uaziristão do Sul, informou que as conversas ficariam suspensas até que o governo parasse de falar sobre operações e ataques. Ele disse também que estava preocupado com as ações do governo e ameaçou provocar retaliações em todo o Paquistão caso as ofensivas por parte do governo não cessassem. O governo alegou que as incursões teriam sido motivadas porque os Talibãs estariam intimidando a população a seguir sua interpretação da lei islâmica. Alguns setores dos Estados Unidos disseram que o Paquistão não estava tomando atitudes suficientes para controlar as fronteiras.

Tensão
O chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, almirante Mike Mullen, visitou o Paquistão no dia 13 de junho, aumentando a tensão com insurgentes em virtude do aumento das especulações de que os Estados Unidos poderiam estar prestes a atacar militantes no noroeste do Paquistão. Nem os militares americanos, nem o governo paquistanês se pronunciaram sobre a visita. Apesar do Paquistão ter excluído a possibilidade de autorizar a entrada de tropas estrangeiras em seu solo, aviões espiões não tripulados das forças americanas com base no Afeganistão aumentaram seus vôos e ataques no lado paquistanês da fronteira.

Os temores aumentaram ainda com as declarações de Barack Obama - que na época ainda era candidato à presidência dos Estados Unidos - de que poderia atacar a Al-Qaeda e o Talibã em solo paquistanês sem a aprovação de Islamabad. A hipótese não era alimentada por analistas. "Acho que Obama vai entender que o uso da força bruta só gera mais inimigos e aumenta a zona de conflito", disse Talat Massod, general paquistanês aposentado que virou analista. O Pentágono justificou a declaração de Obama dizendo que os locais que abrigam insurgentes no Paquistão são a maior ameaça à segurança do Afeganistão. Ao mesmo tempo, a imprensa dos Estados Unidos afirmou que o cinturão semi-autônomo tribal pashtu paquistanês na fronteira afegã tornou-se refúgio de militantes do Talibã e da Al-Qaeda.

Dentro do país, muitos paquistaneses se opunham à campanha de Washington contra os militantes e culpavam a cooperação de Musharraf com os Estados Unidos por incitar a violência. Qualquer ação americana no Paquistão, diziam, apenas exacerbaria o problema. O The New York Times chegou a publicar uma matéria sobre a elaboração de um plano, em 2007, para a facilitação das incursões de grupos de operações especiais americanos na zona fronteiriça. No entanto, divergências internas e a Guerra do Iraque impediram que o projeto fosse executado.

Ataques Americanos
Em meio a tensão política, analistas afirmavam que as relações foram complicadas pela série de ataques americanos na fronteira do país - a maioria com aviões não-tripulados. Em junho, soldados paquistaneses morreram em um desses ataques. Logo depois do incidente, o Paquistão protestou contra disparos feitos desde o Afeganistão. A força da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão atribuiu os disparos a militantes, que teriam o objetivo de "desencadear um incidente na fronteira".

Em outubro, o governo do Paquistão chamou para consultas a embaixadora dos Estados Unidos em Islamabad, Anne Patterson, a quem pediu o fim imediato dos "contínuos" ataques. Um comunicado do Ministério de Assuntos Exteriores paquistanês disse que as invasões representavam uma "violação da soberania do Paquistão". O Senado paquistanês, por sua vez, aprovou uma resolução condenando os ataques com mísseis. O governo paquistanês afirmou que os ataques causaram a "perda de valiosas vidas e propriedades" e acrescentou que "enfraquecem o apoio público ao governo em seus esforços contra o terrorismo". Em cerca de dois meses, teriam acontecido 12 ataques, a maioria deles atribuídos a aviões americanos não tripulados.

Renúncia de Musharraf
No dia 18 de agosto o presidente, Pervez Musharraf, renunciou ao cargo em meio a uma campanha de impeachment lançada por partidos do governo de coalizão. Inúmeros paquistaneses foram às ruas para apoiar a demissão, depois de um ano e meio de protestos violentos contra o chefe de Estado. Musharraf era acusado de incompetência e de violar a Constituição do país. O Partido Popular do Paquistão (PPP) - autor e articulador do processo de impeachment - qualificou a renúncia como "uma vitória do povo".

Pouco depois do primeiro pronunciamento do novo presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, um carro bomba explodiu fora do hotel Marriot, na capital paquistanesa, Islamabad. Pelo menos 40 pessoas morreram. Ao se pronunciar sobre o atentado, o presidente prometeu que o Paquistão não tolerará qualquer invasão em nome da luta contra o terrorismo.

As análises da época davam conta de que o novo governo deveria seguir a mesma política Musharraf - de cooperação contra o terrorismo - para garantir o crescimento internacional do país. Já a imprensa americana dizia que, apesar das relações pessoais de Musharraf com Bush, o ex-presidente fazia jogo duplo e negociava ao mesmo tempo com terroristas e americanos. "Musharraf oferece cobertura às operações do Talibã, mas ainda assim se provou capaz de convencer os americanos por muitos anos de que não estava atuando com duplicidade", disse Ahmed Rashida, um especialista paquistanês e autor de Descent into Chaos, livro que detalha o relacionamento entre o líder paquistanês e Washington. "Foi uma notável caminhada na corda bamba", disse.

Fortalecimento Talibã
Em agosto, o novo governo do Paquistão resolveu banir os Talibãs colocando o movimento chamado de Tehreek-e-Taleban Pakistan (TTP) na clandestinidade. O Talibã declarou que não queria combater o exército paquistanês, mas era forçado a lutar porque as forças armadas do Paquistão estariam cumprindo exigências dos Estados Unidos. De acordo com a imprensa americana, o Talibã estaria se expandindo das áreas tribais para regiões mais urbanizadas.

Em pouco menos de um mês, as forças militares paquistanesas teriam matado mais de 600 militantes. Uma rebelião no Afeganistão, em setembro, fez com que o Paquistão enfatizasse a perseguição aos militantes em seu território por parte dos Estados Unidos. Logo ao assumir o posto de comandante do comando militar americano da região entre o Paquistão e o Afeganistão, o general David Petraeus disse que a insurgência talibã chegou a ter tanta estrutura que não podia ser derrotada apenas por meios militares. "Não se pode matar ou capturar a ponto de acabar com uma insurgência de dimensões tão grandes como era a do Iraque e do Afeganistão", disse.

Crescimento da Al-Qaeda na Argélia
Na África, insurgentes argelinos se uniram ao talibã assumindo o nome de Al-Qaeda no Maghreb Islâmico. O movimento, que esteve a beira da beira da extinção, oculto em cavernas, bosques, enfrentando dificuldades financeiras e a falta de adesão, se transformou em uma das mais potentes organizações afiliadas à rede terrorista de Osama bin Laden. Agora revigorados pela chegada de novos recrutas e por um zelo renovado para atacar alvos ocidentais, o grupo se tornou uma das mais potentes organizações afiliadas à rede terrorista de Osama bin Laden.

A Al-Qaeda no Maghreb foi autor de atentados com caminhões-bomba contra locais de grande importância simbólica, como os escritórios da ONU em Argel. Eles seqüestraram e assassinaram turistas europeus, demonstrando a expansão de seu alcance pelo norte da África. O grupo justificou sua união com a Al-Qada por motivações religiosas. Alguns militantes disseram que a designação do grupo argelino como organização terrorista por Washington, depois do 11 de setembro, levou os militantes a se voltarem contra os Estados Unidos. Recentemente o número dois da Al-Qaeda, Al-Zawahri, divulgou uma mensagem na qual diz que Barack Obama traiu suas raízes islâmicas e pediu que os ataques a "América criminosa" continuem.

Atentados em Mumbai
No fim de novembro, a cidade de Mumbai, o centro financeiro da Índia sofreu atentados que mataram, de acordo com informações oficiais, cerca de 183 pessoas, dentre os quais 18 estrangeiros. Os insurgentes desembarcaram em um navio no porto da cidade e tomaram dois hotéis ¿ Taj Mahal e Oberoi ¿ além de um centro judaico. Os alvos eram estrangeiros, diziam alguns dos insurgentes.

A especulação acerca da autoria dos atentados estremeceu as relações entre o Paquistão e a Índia, o que fez com que o ministro do Interior da Índia, Shivraj Patil, renunciasse após assumir a "responsabilidade moral" pelo incidente. Os governantes indianos chegaram a endurecer o discurso contra o Paquistão, país no qual os terroristas teriam sido treinados. O Paquistão, por sua vez, apelou para a cooperação e diplomacia, e enviou o chefe do ISI (serviço de inteligência militar) à Índia para compartilhar informações.

Em virtude da forma como os atentados foram realizados, especialistas acreditam que o grupo era mais preparado do que os insurgente de origem tribal. Os analistas disseram ainda que os terroristas tinham objetivos específicos de prejudicar a imagem da Índia, mais especificamente de Mumbai, o centro financeiro do país.

Redação Terra