Notícias » Popular » Colunistas » Colunistas

 Alexandre Rodrigues: A coisa mais importante
04 de abril de 2003 11h18 atualizado às 11h26

Comentários
 
O rádio deu que no dia seguinte ia ter chuva e trovoadas. Eu desliguei o botão e fui até a sala de João.

- João ¿ eu disse ¿ preciso sair mais cedo hoje. É aniversário da minha mulher.

João era um negro forte, que passou uma porrada de anos dando duro em canteiros de obras enquanto estudava à noite, até conseguir um diploma e passar a entrar nos prédios só quando já estavam prontos. Pôs a mão no meu ombro.

- Não sei não. O trabalho tá atrasado. Se te deixar sair mais cedo, vai parecer proteção.

João conhecia a Idalina. Sabia que no mesmo dia do aniversário dela também era aniversário de casamento. Contrariado, eu já saía quando ele veio sorrindo.

- É brincadeira. Pode ir. *********************

A coisa mais importante do mundo para João era ter um amigo. Se subira na vida, isso não mudara sua submissão em relação aos outros. Desde criança, exagerava ao tentar agradar. Quando pequeno, era quem sempre se oferecia para as brincadeiras mais arriscadas, invadindo quintais para buscar a bola de futebol perdida ou quebrando vidraças só para provar que podia fazê-lo ou enfrentando os vizinhos que se queixavam de sua ousadia. Quando adulto, se transformou em ¿boa gente¿. Ser ¿boa gente¿ era estar sempre pronto a tolerar deslizes. A dar folgas e deixar os outros saírem mais cedo. O cargo de chefe trazia consigo muitos bajuladores, mas a estes não dava valor. Só queria admiração e fraternidade verdadeiras. *********************

Era estranho sair de dia, ver as ruas ainda meio vazias, os carros andando sem o engarrafamento da hora do rush. Estava acostumado a sair depois de escurecer. Trabalhava dez horas por dia. Meu trabalho era verificar relatórios e conferir notas de compra. Dias e dias a fio, sem parar, telefonando para o restaurante A ou a empresa de táxi B para perguntar se seus preços eram mesmo aqueles que foram anotados nas notas fiscais. Depois fazia relatórios contando se os gastos eram verdadeiros ou não.

Na rua, não pensava mais em notas fiscais. Procurava um presente para Idalina. O que não contei para João ou para ela é que juntara dinheiro para comprar um presente caro. Vendedoras bonitas e sorridentes tentaram me empurrar perfumes, lenços e outras bobagens, mas continuei entrando e saindo das lojas, uma após a outra, não gostando de nada que me mostravam. A rua começou a encher com a multidão despejada feito saindo da boca dos prédios. O relógio dava cinco horas, os primeiros escritórios começavam a fechar.

Mais à frente tinha uma floricultura. Entrei.

Rosas da Tailândia têm o vermelho mais suave ¿ o vendedor me disse. ¿ São usadas para fazer os perfumes mais finos da Ásia.

Atrás dele, uma placa, Fazemos arranjos para festas, casamentos e batizados. Fazemos coroas de flores para velórios e enterros.

A placa fora pregada no meio da parede, mas ainda assim estava bem acima da cabeça dele. O vendedor era um anão vestindo macacão de criança.

- São um ótimo presente de aniversário. O mais incrível sobre as rosas é que estão presentes em todos os continentes, em quase todo tipo de terreno. A Rosa da Etiópia, por exemplo, floresce em pleno deserto. Sobrevive com pouca água e desenvolveu uma proteção natural contra o sol escaldante, uma espécie de membrana sobre as pétalas. É também chamada de ¿o camelo das rosas¿.

- Você sabe muito sobre elas. *********************

A coisa mais importante do mundo para Edu, assim se chamava o vendedor, era saber mais sobre as rosas. Conhecendo-as, se sentia parte de um clube seleto, o clube mais antigo e exclusivo do mundo, um clube voltado não para o poder, a fria inteligência sem emoções ou a guerra e a dominação, o clube dos admiradores da beleza no mundo. Às vezes, lendo sobre a Capela Dourada de Manila, uma espécie selvagem e raríssima, quase lendária, ou a Rosa Gigante de Israel encontrava tanta histórias de dedicação, como a sua, que não se continha. As lágrimas em seu rosto eram de felicidade. *********************

Ele deu um sorriso. Dava pra ver, tinha prazer em falar do assunto.

- Sou um expert ¿ disse.

Foi cara, a rosa, precisei ir a um caixa eletrônico para sacar dinheiro. Na porta tinha uma família de mendigos. O menor deles se levantou e veio me pedir um trocado na saída, mas fingi que não ouvi. A loja já estava toda acesa quando voltei. O dia indo embora quando saí com um buquê e em seguida entrei numa bomboniere.

A vendedora, uma morena bonita e com longos cabelos pretos, saiu de trás do balcão e foi me receber, sorridente. Eu era o único cliente. A loja era do tipo que vende chocolates finos pelos olhos da cara. Olhei um balcão com vários compartimentos de chocolates.

- São chocolates finos ¿ a vendedora disse.

Chocolates em forma de gota, de tartaruga, de joaninha. Com gosto de menta, café, amêndoas, uísque, conhaque e cointreau. A vendedora perguntou se eu tinha escolhido algum. Falava e sorria ao mesmo tempo.

- Um pouco desse e desse ¿ apontei.

O sorriso pesou um saquinho cheio de chocolates e me entregou, mas pegou o saquinho de volta e começou a enchê-lo.

- Esses são por conta da casa. *********************

Para Elizângela, a vendedora, a coisa mais importante do mundo era se vingar de Rafael. O namorado a havia traído com uma colega de faculdade. Quando viu o homem entrar na loja bem na hora de fechar, quase não prestou atenção nele mas ao mesmo tempo só levou poucos segundos até decidir: Vai ser com esse aí mesmo. *********************

Eu queria uma noite especial, mas voltei para casa depois das seis da manhã. O táxi deixou Elizângela primeiro. Elizângela comeu todos os chocolates. No caminho para o motel, as rosas foram esmagadas por acidente na porta do táxi. Sobraram galhos raquíticos com umas poucas pétalas penduradas.

Quando entrei, Idalina estava acordada, fumando e fazendo café na cozinha. As olheiras denunciavam a falta de sono. O tempo todo, a noite toda, indo para casa também, eu pensava numa resposta, criando histórias mirabolantes e sempre me escolhendo as respostas mais simples, mas quando ela me olhou, vi que não conseguia dizer nada. Só entrei no chuveiro e deixei a água cair por um tempão. Quando saí, Idalina tinha saído também. Ainda não estava em casa mais tarde, quando acordei para trabalhar.

Pelo resto do dia senti vontade de ir embora e me humilhar para Idaliana. Me jogar aos seus pés e pedir perdão. Mas não podia pedir de novo para sair mais cedo. De modo que só quando já escurecia eu entrei de novo na floricultura e pedi as mesmas rosas de antes.

- As Rosas da Tailândia? Estão em falta. Aquelas de ontem foram as últimas. Mas posso te fazer um arranjo com estas rosas de Berlim. Acabei de receber um carregamento. *********************

As rosas de Berlim são alaranjadas e têm pétalas enrugadas e meio bufantes, como um colarinho de palhaço. Não existem desde sempre na natureza, sendo uma criação de botânicos alemães, que misturaram vários tipos de rosas até obterem uma espécie nova. A coisa mais importante do mundo para esses criadores era mostrar que o homem não pode ser Deus, mas às vezes pode aperfeiçoar o Seu trabalho. *********************

Já a coisa mais importante do mundo para Idalina, eu achava, era que o marido tivesse sumido na noite de seu aniversário e do aniversário de casamento. *********************

Para mim, a coisa mais importante do mundo era consertar as coisas. Por isso andei várias quadras até encontrar outra loja de chocolates e depois corri para o ponto, rezando para o ônibus chegar mais rápido do que o normal. Planeja as desculpas e, depois de tudo calmo, levar Idalina para jantar fora. Com a chave na porta, me decidia se queria comer strogonoff ou filé à parmeggiana.

No meio da sala, um corpo brilhante. O suor descia em riachos nas costas de João. Estava nu, mergulhado entre as pernas de Idalina, que, puxando-o, fez seu corpo se mexer mais rápido e suar mais.

A coisa mais importante do mundo era ter mulher e trabalho. E um amigo. Mas já não tinha mulher e nem o amigo quando o João veio falar comigo e disse É uma pena, mas vou ter que te mandar embora. Falou de cabeça baixa, sem me olhar nenhuma vez. Idalina, eu sabia, estava no seu apartamento.

- Tudo bem - eu disse.

Saí pela rua, mais uma vez de dia. Evitei a floricultura e fui até a loja de chocolates. Outra vendedora me recebeu sorrindo. Disse:

- A Elizângela está de férias. Viajou.

Já estava saindo, mas dei meia volta e outra vez pedi pedi um pouco de cada chocolate da vitrine. Comi ali mesmo. Com a boca cheia, mastigava e não conseguia mais segurar as lágrimas. *********************

A coisa mais importante do mundo para os fabricantes de chocolates finos é que a mistura de cacau, açúcar, essências e outros ingredientes seja única e tão saborosa que valha o preço. Se alguém chora enquanto come chocolates? Bem, isso não é problema deles

Redação Terra