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 O método Cardiff
28 de março de 2003 15h59

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O método Cardiff ensina que é possível enlouquecer por vontade própria. Ensina que é possível preencher a cabeça com pensamentos inúteis, empilhados e sobrepostos de qualquer jeito, até não sobrar mais espaço e o equipamento deixar de funcionar, como acontece com um computador antiquado.

Ele decidiu testar o método Cardiff. Naquela noite, cancelou a saída com os amigos, desligou a TV, o telefone e os eletrodomésticos, e descalço, se sentou na posição de flor de lótus no sofá. O método Cardiff ensina que qualquer posição é ideal para a sua prática, sendo a posição de flor de lótus apenas uma escolha meio óbvia, já que é usada em outras formas de meditação.

O primeiro passo é uma série de exercícios respiratórios ritmados, que ele começou prendendo e soltando o ar. O silêncio, ensina o método Cardiff, é a conexão com a própria mente. Fez e reprisou os exercícios de tensionamento muscular, obrigando os pulmões a trabalharem em um ritmo forte e contínuo, uff... pufff... uff.... pufff..., depois chegou a vez de começar a relaxar e visualizou um tapete verde, vivo e infinito, como um gramado, em que caminhava, sentindo o formigar das cerdas nas plantas dos pés descalços. uma onda de satisfação o invadiu.

Em silêncio, pronunciou mentalmente um mantra de dois ou três minutos, até sentir um entorpecimento que começou suave no pescoço e nos ombros e se espalhou pelas extremidades do corpo cada vez mais forte. Entrava no momento do desligamento total, o momento zero. Em breve, sua mente estaria pronta para ser preenchida até acima do limite.

Relaxado, diz o método, o sujeito se sente como se fosse feito de gelatina. Sente que seu equilíbrio é tão precário que poderia desabar a qualquer momento, por qualquer razão, mas se alguém tocá-lo vai ver que o corpo, sob completo controle, tornou-se rijo feito uma estátua. Músculos são ferro fundido, nervos, cabos de aço. Foi neste momento que ouviu o barulho pela primeira vez.

De início não passou de um ruído distante, ainda que insistente, então seus últimos fiapos de raciocínio pensaram ser algum efeito colateral do método. estudiosos do método cardiff dizem que são comuns estas reações. Às vezes, ensinam, vivemos sonhos ou lembranças como se fossem verdadeiras. Mas no seu caso o barulho era difícil de distinguir e cada vez mais próximo. Quando o ouviu pela quarta ou quinta vez, teve certeza de que era real.

Abriu os olhos. A luz feriu-o por instantes, até se acostumar. do outro lado da sala, na janela aberta, descobriu o autor dos ruídos. Um pombo. Arrulhando, andava pelo parapeito, arrepiando as penas cinzentas. Ele não gostava de pombos. Na verdade, tinha horror a qualquer tipo de pássaro, mas especialmente pombos. Evitava os pombos não só pela doenças ou a sujeira que espalhavam, mas por um medo atávico e inexplicado. Sentia-se enjoado na presença de um. quando alguém ridicularizava seu medo, explicava: "pombos são como ratos".

Por isso se perturbou tanto com o pombo, que também parecia incomodado com a sua presença. arrulhava em sua direção, de vez em quando batendo as asas mais fortemente. À distância, sem jamais chegar perto da janela, gritando e sacudindo os braços, comçou a tentar espantá-lo, mas o pombo não se intimidou com aquele espantalho humano. Pelo contrário, voou para dentro da sala.

"Porcaria!", ele xingou, tentando vencer a náusea e agarrar a ave com as mãos. Pelo que sabia, pombos não saem à noite. Este devia ser um retardatário do passeio diurno que perdeu o caminho do ninho e decidiu passar a noite em sua janela. Descobriu, facilmente driblado a cada investida, que pombos não são tão burros quanto parecem. Aquele viu um nicho, um espaço pouco maior do que o seu corpo, entre o alto da estante e o teto e se escondeu. Lá ficou todas as vezes em que foi acuado. Era preciso ajuda. Apanhou uma vassoura, mas quando retornou à sala, o pombo voltara à janela aberta. Numa pose desafiadora, mantinha uma das patas erguida e as penas completamente arrepiadas.

Caso estivesse praticando o método Cardiff, sua mente se encontraria no terceiro estágio, quando lentamente perde a capacidade de descartar pensamentos. É quando começa o processo da loucura. O método Cardiff não foi concebido na Escócia, como supóe o nome, mas na antiga União Soviética. Os espiões aprendiam a enlouquecer por vontade própria para o caso de serem capturados. Assim, não teriam nenhum segredo extraído pelo inimigo. O criador do método Cardiff foi curiosamente um cozinheiro, que imaginou que a mente pode ser preenchida tão completamente de pensamentos quanto uma panela pode ser preenchida de feijão.

O quarto estágio viria quando começasse a empilhar os pensamentos, úteis ou descartáveis, tanto faz, como quem enche um quarto de móveis até não ter mais espaço para colocar mais nada e que haja tantas coisas lá dentro que também não possa tirar mais nada. Bem-vindo à casa de bonecas do anúncio da semana patrocinado pelo programa de televisão onde as modelos usam xampu anunciado na revista de estilo para jovens bonitas e inteligentes que vivem rodeadas de...

No momento do que devia ser o quarto estágio, ele brandia a vassoura para o pombo, que mais uma vez fez o contrário do esperado e retornou ao buraco, deixando o bico de fora e arrulhando ameaçador. A possibilidade de esmagar e matar o pombo encheu-o de nojo. teria de limpar depois o sangue e as penas. Desistiu, portanto, de uma matança. o negócio era esperar que o pombo se desinteressasse do apartamento e fosse embora sozinho. Era capaz de não se incomodar com a a ave se a ave não o incomodasse. "sou capaz disso", repetiu, para ter mais confiança.

O pombo continuava escondido, arriscando de vez em quando uma olhadela na sua direção. Ele decidiu ignorá-lo. retornou ao sofá e à meditação, ao método Cardiff. Retornou aos exercícios respiratórios ritmados. Encontrou mais uma vez o tapete verde e as plantes de seus pés formigando. Então uma sombra voou sobre o tapete tão veloz que não conseguiu ver o que era, sumiu pouco adiante. A sombra, no entanto, retornou na sua direção e começou a rodeá-lo. Dando arremetidas, começou a arrulhar cada vez mais alto.

Arregalou os olhos, aterrorizado e gritando. Quase desmaiou por um momento, mas conseguiu se acalmar ao reconhecer a sala e o sofá. Em seu nicho, o pombo o olhava. Era sua impressão ou havia um desafio naquela atitude? Tudo o que conseguiu fazer foi olhá-lo de volta. Não podia dizer quanto tempo os dois se confrontaram. A cena lhe lembrava os filmes de faroeste, quando mocinho e bandido se estudavam antes de sacar as armas. mas então o pombo se desinteressou e voou de volta ao parapeito. E depois saiu pela janela na direção das torres iluminadas da avenida paulista.

Com um grito de felicidade, ele correu pela sala e fechou a janela. Mesmo que o adversário fosse apenas um pombo, incapaz de qualquer outro pensamento senão comer, foder e fugir, sentiu que vencera a batalha. Mal deu dois passos para voltar ao sofá, berrou um palavrão. No tapete da sala, bem no lugar que seus pés descalços pisavam, havia uma grande poça de merda de pombo.

Redação Terra