Todos os sintomas estão à flor da pele enquanto eu falo.
A empresa ¿ continuo ¿ não pode mais abrir mão deste tipo de organização. Já se foram os tempos românticos. Já se foram os tempos amadores. Já se foram os tempos do improviso. Agora temos a ciência da administração ao nosso lado, a organização ao nosso lado.
Houve tempos ¿ ascrescento ¿ em que tudo era feito ao sabor de circunstâncias. Não mais. Agora temos metas a cumprir, resultados, cálculo de risco, técnicas gerenciais modernas. O resultado? Todo mundo sabe, um número mínimo de baixas. Somos mais eficientes e menos vulneráveis.
Vivemos ¿ completo com uma frase feita ¿ a era do profissionalismo.
Uma salva formal de palmas, todos se dispersam no instante seguinte. Os discursos matinais de terça-feira foram dica de um especialista. Ele disse que reuniões são uma forma de motivar o pessoal e que motivação é a palavra-chave dos tempos modernos. Mas, alertou, as reuniões não podem acontecer logo no início da semana. Nas segundas de manhã ¿ disse ¿ ninguém presta atenção em porra nenhuma.
Mas as palmas acontecem sempre, seja qualquer um o discurso. É claro que todos sabem que o profissionalismo é importante e seguem as normas, mas cada um sabe também daquilo que nenhuma organização consegue impedir: um imprevisto.
Por exemplo: se uma mulher trai o marido, diz o senso comum que é mais provável que qualquer pressão a faça terminar o casamento. Mulheres infiéis, garante a sabedoria popular, só procuram casos extra-conjugais se estão infelizes e querem um novo relacionamento. Isso as torna menos vulneráveis ao nosso trabalho, pois a infidelidade é um sinal de que o casamento acabou. Mas há o caso dessa Stella, que logo no primeiro telefonema aceitou um acordo. Eu mesmo fui fazer o acerto.
Quando volto à sala, Ivone usa a caneta mastigada para fazer desenhos em um destes blocos grandes de rascunho que as empresas dão de brinde no final de ano e passam o ano seguinte ocupando metade da mesa alheia. Sem me olhar, empurra uma pilha com quatro ou cinco pastas.
Clientes novos ¿ comunica.
Abro a primeira pasta na minha sala. "Um presidente de multinacional, Henrique, matou a namorada de faculdade em 1991 por causa de uma traição. Ela o traía com um colega, melhor amigo dos dois". Uma história das mais comuns hoje em dia. "Uma noite, Henrique chegou ao apartamento e encontrou a cama desfeita, Clara, a namorada ainda seminua na cozinha, o cheiro de suor e sexo por toda parte. Em um acesso de fúria, agarrou a jovem de surpresa e a empurrou pela janela. Não houve luta, de tão rápido que foi. Ela atravessou a janela e caiu onze andares. Henrique desceu correndo e saiu a pé por um portão nos fundos do prédio. Caminhou rápido, dando preferências às ruas vazias, até um bairro vizinho, então pegou um táxi para casa. Muitos vizinhos já cercavam corpo. Viram-no chegar e cair em prantos. Como todos eram testemunhas e não havia cenas de luta, a polícia desconfiou, mas nunca reuniu provas para nada."
A segunda pasta. "Hermes, filho de um fazendeiro do interior do Rio Grande do Sul, foi cursar faculdade de medicina no Rio de Janeiro e se meteu com o tráfico de drogas. Acabou seqüestrado. Ele mesmo ligou para o pai, da cidade de Ijuí, pedindo socorro. O pai viajou acompanhado do advogado. Logo que chegou, em vez de procurar a polícia, subiu sozinho o morro e foi até o traficante. Eu vim conversar, disse a Zé Miguel, o traficante, que respondeu contando quanto o filho do fazendeiro lhe devia. Dinheiro para comprar um bom apartamento na zona sul. O filho contou a Zé Miguel que tinha o pai fazendeiro e o convenceu a deixá-lo pegar drogas fiado para vender nos bares da zona sul. Quando a dívida ficou alta demais, ele tentou fugir sem pagar. Foi seqüestrado antes e apanhou por dois dias antes de Zé Miguel dar a ordem para que telefonasse ao seu pai. Para não matar o filho do fazendeiro, Zé Miguel exigiu o dobro do valor da dívida, metade a título de hospedagem de Hermes. O fazendeiro voltou no dia seguinte com o dinheiro, pagou e levou o filho para casa. Hermes foi obrigado a morar direto na fazenda, sem pôr os pés fora, por dois anos. Aí se regenerou. Voltou poucas vezes ao Rio. É atualmente líder da ala jovem de uma entidade empresarial."
A terceira. "Artur é casado com a herdeira de uma grande rede de supermercados, mas também namora Darcy, garoto de programa etc, etc."
A quarta. O caso dessa Stella.
A respeito das pastas, no primeiro dia de trabalho Ivone entrou na minha sala e perguntou sem cerimônia:
Como se sabe tanto das pessoas? Quer dizer, aqui tem fotos íntimas e boletins escolares. Essas são coisas da intimidade.
Porque ¿ eu respondi ¿ nunca há segredos verdadeiros. A não ser que só uma pessoa saiba, ela e mais ninguém, nunca vai ser segredo.
O exemplo da pasta número 1. Numa bebedeira, tomado de culpa, como acontecia freqüentemente, Henrique deixou escapar a história do crime para um colega. Os dois trabalhavam em um banco do governo, se conheciam havia vários anos. A morte de Clara já era uma lembrança distante. O inquérito fora concluído com a conclusão de suicídio. Henrique fez a confissão às lágrimas antes de desmaiar de tão bêbado. No dia seguinte, quando lembrou de tudo, o segredo, em vez de aproximá-los, os afastou. Henrique começou a olhar com horror para o colega. O assunto morreu um ano depois, quando os dois deixaram seus empregos em um programa de demissão voluntária. Henrique foi trabalhar na multinacional e galgou vários degraus até chegar à presidência, se tornando um destes caras que está sempre na televisão falando do governo e dos juros. Enquanto isso o colega tentava ser empresário e no meio do caminho descobriu que não servia para cuidar de um negócio. Depois da falência, tentou pedir emprego a Henrique, mas nunca passou da barreira de secretárias. Estava a caminho de um fim melancólico, empregado da contabilidade de um jornal de interior, furioso e magoado com o ex-colega, quando soube da nossa atividade. Nos procurou com um segredo para vender.
Ou José Luís, ex-agricultor da fazenda do pai de Hermes, em Ijuí, Rio Grande do Sul, que foi embora de casa revoltado pela falta de futuro trabalhando na roça doze horas por dia por meio salário mínimo. Veio morar na cidade grande e nada melhorou muito. Não tinha estudo, pois largou a escola na quinta série, e só o que sabia fazer era cuidar da terra. Arrumou emprego com um velho que plantava verduras em um terreno imenso que herdou do avô e depois ia vender na feira. Com a ajuda de seus braços fortes, os dois plantaram muito mais alfaces e venderam mais, porém também tiveram que dividir por dois o lucro e no final das contas ambos descobriram que plantar alface não dá dinheiro. A essa altura José Luís já morava numa favela e às vezes trabalhava para os traficantes, vigiando à distância a chegada da polícia. Por coincidência, aquela era a quadrilha de Zé Miguel e os dois não demoraram a descobrir que tinham um conhecido em comum: Hermes. Zé Miguel contou sobre o seqüestro e José Luís, que ele é um dos empresários mais respeitados do Rio Grande do Sul. Zé Miguel também conhecia a nossa atividade.
Eu e Ivone trabalhamos com a porta entreaberta. Assim, eu ouço quase sempre o que ela diz e ela ouve quase sempre o que eu digo. Nenhum dos dois se incomoda com a situação.
Assim, eu ouço Ivone falando várias vezes no telefone, dizendo que quer falar com o doutor Henrique. Mais tarde, eu realmente estou falando com Henrique depois de ouvi-la atravessar uma barreira de secretárias, sempre dando a mesma desculpa: Por favor, diga a ele que é sobre aquela namorada dele da faculdade.
O tempo médio para o primeiro contato no caso de um figurão chega a dias. Perde-se tempo nesta rede de subalternos que atua filtrando quem pode ou não falar com o big boss, deixando no final passarem só os que alguém acha realmente importantes. Ivone falou duas vezes com uma telefonista e depois com a secretária auxiliar, que a deixou na linha e consultou a secretária principal, que prometeu duas vezes telefonar de volta, mas não o fez. Na terceira tentativa, Ivone voltou à telefonista e depois à primeira secretária, que perguntou de novo, como se já não tivesse ouvido, quem eu era e qual o assunto, e finalmente chegou à secretária principal.
Uma história sobre a namorada dele da faculdade ¿ ouvi Ivone repetir, irritada, pela porta entreaberta.
No caso de Henrique, o tempo de espera foi cinqüenta e sete minutos ponto trinta e sete segundos. Anoto em um papel amarelo e depois no computador. Ensina o Manual: qualquer informação é importante e deve ser anotada. Os números anotados, somados e depois divididos, dão uma média do tempo de espera em cada perfil.
Finalmente Ivone avisou: Ele está na linha.
Vocês vão para cadeia. Não aceito chantagem ¿ Henrique grita no telefone.
O valor é de seiscentos e cinqüenta mil ¿ eu respondo sem alterar a voz. Diz o Manual: sempre manter a calma e ser educado.
Eu vou chamar a polícia.
Esteja à vontade ¿ eu respondo. Cópias de um dossiê completo estão guardadas com nossos colaboradores, que podem começar a divulgá-las quando o senhor quiser. Devo lhe adiantar: conseguimos fotos de Cristina. Estivemos com os pais dela. Eles não sabem de nada, mas em caso de prisão, saberiam. Temos uma bonita história sobre o caso escrita por um jornalista contratado. Usamos outros jornalistas e detetives particulares para investigar a sua história e não deixar nenhuma lacuna. A imprensa não vai ter trabalho em saber de tudo. E os pais de Cristina certamente vão querer uma indenização.
Ele silencia. É uma reação freqüente. Nesta hora, aconselha o Manual, o silêncio trabalha a meu favor. Diz o Manual: "Você pode imaginar a outra pessoa encolhida, tendo de pesar em segundos o que pode ser pior para ela. Podemos medir a aflição dessa pessoa pelo silêncio reinante do outro lado".
No telefone, nenhum ruído no escritório de Henrique.
Diz o Manual: o índice de sucesso nas negociações beira os cem por cento. Dois dias depois, o motoboy retira um saco de papel da lixeira do reservado de um McDonald's do centro e corre até o escritório. Nove minutos ponto vinte segundos depois, eu esvazio o saco na minha mesa, conto o dinheiro e o entrego ao motoboy para ir depositar no banco. Depois telefono para o celular de um funcionário do banco e aviso que o motoboy está a caminho. Por último, ligo para Rangel, encarregado de acompanhar as transações financeiras, e aviso sobre o banco, o funcionário e o motoboy. Ele provavelmente avisará um subalterno, que irá esperar o motoboy do lado de fora do banco, e outro que irá seguir o motoboy desde a saída do prédio. Um esquema complicado e dispendioso, mas necessário, diz o Manual. Então eu me recosto, fecho os olhos e suspiro profundamente. Um especialista em stress ensinou que isso é relaxante.
Pela porta entreaberta, Ivone fala de novo.
Exato. Aqui é da parte daqueles amigos que doutor Hermes fez quando esteve no Rio de Janeiro.
- Redação Terra


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