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 Alexandre Rodrigues: A derrubada das árvores III
07 de março de 2003 09h23 atualizado às 10h08

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A produtora do show se chamava Laura. Estava em um camarim vazio quando o segurança bateu à porta. Sem abrir a porta, ela ouviu o segurança dizer que a procuravam na entrada. Laura era incomodada assim o tempo todo em shows. Bicões, gente que mal conhecia, amigos ou mesmo VIPs de verdade a procuravam para entrar de graça nos shows.

A regra número um de Laura sobre gente rica: Apesar de terem dinheiro, acham que entrar de graça é prova de status.

O segurança não soube dizer quem era, então, pensando que podia ser alguém importante, decidiu sair. Ainda estava nervosa e, na pressa, não verificou a aparência. Se o fizesse, veria que deixou a parte de baixo do nariz suja de pó branco.

Esse homem - o segurança apontou o outro Raul - diz que é artista.

Isso aqui é um festival de rock. Só temos atrações internacionais. Quem é você? Cadê o teu crachá?

Raul Seixas - ele respondeu.

O Raul Seixas já morreu. Não tem crachá?

Olhou bem de perto o homem. Acrescentou:

Além do mais, você não parece com o Raul.

O homem também a olhou de perto. Disse:

O seu nariz está sujo de branco.

Só então ela sentiu o cheiro inconfundível de química nas narinas.

Isso? - respondeu, fungando e limpando o nariz - é uma base para a pele. Suaviza as rugas.

Pode entrar - acrescentou sem parar de tremer, dando passagem ao homem que dizia ser Raul Seixas.

O homem que dizia ser Raul Seixas seguiu por um corredor escuro, em ter tapumes, em direção ao palco. Quase ao mesmo tempo eu olhava pela terceira ou quarta vez o endereço anotado em um pedaço de papel. O endereço anotado nos livros ficava a mais ou menos dois quilômetros de onde eu morava. Ainda era dia claro, então decidi fazer o caminho a pé, para ter mais tempo de desistir. Apesar da curiosidade, não sabia o que dizer ou fazer.

Além de tudo, devia haver um clímax. Mas antes mesmo de chegar à frente da casa eu vi Diomedes. Pelo menos a representação de como eu o imaginara. Diomedes tinha mais ou menos cinqüenta, uma discreta barriga, uma expressão simpática permanente no rosto, mesmo quando agia de maneira implacável com os subordinados, o que era freqüente. Os cabelos eram levemente cacheados e desgrenhados, o que lhe dava um ar distraído. Esta réplica humana perfeita de um personagem literário varria a calçada de bermudas, exibindo pernas muito brancas.

Quando eu já estava perto, me viu e sorriu.

Em outro lugar, o homem que dizia ser Raul Seixas chegou à entrada do palco, onde as bandas esperam a sua vez.

Cadê a tua banda? - um técnico de som perguntou ao homem que dizia ser Raul Seixas. Também não o reconhecera.

Banda? Não, eu vou tocar sozinho.

Você quantas pessoas estão aí fora?

Não.

Umas cem mil. Tu acha que elas querem ver um showzinho de voz e violão? Isso é coisa pra barzinho. Elas querem é pular.

Tudo bem. Só vou tocar as rápidas.

O técnico olhou de novo para o estranho, mas outra vez não conseguiu ligar a identificar o homem de cavanhaque como alguém famoso. Uma das coisas que o levaram a isso foi a sua circunferência. O homem que dizia ser Raul Seixas pesava uns cento e cinqüenta quilos. Era imenso.

Mas também não conhecia a maior parte dos artistas que se apresentariam. O técnico não sabia quem era, por exemplo, Mateus Milton, roqueiro experimental que no momento causava estranheza entre o público com uma mistura de percussão e som eletrônico repetitivo. A música fora feita para dançar, mas só causava espanto, quando não tédio. Ao terminar, Mateus Milton foi saudado com aplausos esparsos. Segundos depois, a platéia se empolgaria muito mais com um jingle de refrigerante.

Assim o homem que dizia ser Raul Seixas se preparou para a sua parte.

Já a parte de Diomedes foi levantar os olhos enquanto recolhia as folhas varridas da calçada, aparentemente me reconhecer e dar um sorriso. Também incluiu os gestos seguintes: se levantar e amistosamente andar na minha direção, estendendo a mão. E ainda de dizer: É um grande prazer.

É um grande prazer - ele disse.

A minha parte foi ficar constrangido. E ainda não saber o que dizer.

O mesmo da minha parte - eu respondi.

Entramos. Na varanda, um homem oscilava numa cadeira de balanço. Do cabelo ao rosto, das roupas mal cuidadas à grande barriga à mostra, do jeito de colocar um dos pés sobre a cadeira ao cavanhaque, era a expressão perfeita do que eu pensara ao criar Arnaldo Surdo.

É ele? - Arnaldo de repente perguntou a Diomedes, que fez sim com a cabeça.

Estamos muito, muito felizes - ele disse.

Tem alguma coisa errada? - eu perguntei a Diomedes.

Não fique confuso - ele respondeu. Quer dizer, você vai ficar um pouco, mas é natural nessa situação.

Respirou fundo e continuou:

Você é nosso personagem. Nós criamos você.

Neste momento, o homem que dizia ser Raul Seixas entrou no palco. As pernas tremiam, sentia um vazio no estômago. Não estava mais acostumado a shows. Inicialmente, a multidão o olhou curiosa em silêncio. Alguns pensaram se tratar de um técnico de som, mas então ele plugou o violão, deu um pigarro e começou.

Eu sou a mooooooooscaaaaa...

A voz não tinha nada a ver com a de Raul. Desafinou durante toda a música e mais ainda na próxima, Ouro de Tolo, um pouco menos em Gita, quando, no entanto, as vaias já estavam mais fortes. Em pouco tempo, era um rugido sufocando o som dos alto-falantes enquanto uma chuva de garrafas plásticas atingia o homem que dizia ser Raul Seixas. Ele tentou continuar, dando os primeiros acordes de Sociedade Alternativa, mas dois adolescentes conseguiram subir no palco, agarrar o microfone e jogar para a multidão. Foram presos sob ovação dos outros. O som foi cortado, entrou de novo a música do refrigerante.

Laura estava no canto oposto do palco. Viu o homem que dizia ser Raul Seixas sair, derrotado, pelo backstage.

Um técnico burro - disse um segurança a Laura - foi quem deixou ele entrar no palco. Pensou que fosse um dos artistas.

Laura não respondeu, só correu até o outro lado. No backstage, o Ira! era a próxima banda a se apresentar. Ela correu, então, até a área VIP e os corredores embaixo do palco, por onde passavam os artistas e convidados. Só desistiu quando fez todo o caminho de novo, sem encontrar o homem que dizia ser Raul Seixas.

Nós criamos você - Diomedes repetiu. Você se chama Flávio, acha que é escritor, acha que escreveu livros, que na verdade nunca existiram. Seus gestos, sua vida, são o que determinamos. Acha que um dia os teve porque assim nós quisemos que pensasse. Acha que foi até aquele sebo de livros e que encontrou nossos nomes e endereço porque essa é a nossa vontade.

Ele começou a mexer numa planta, arrancando as folhas já secas. Então se virou, sorrindo.

Ah, mais uma coisa. Os cupins não são invenção nossa, eles realmente existem.

Isso é algum tipo de piada?

Não - foi Arnaldo Surdo quem respondeu -, nós somos escritores. Escrevemos em dupla. Você é um personagem. Nós lhe demos vida. Feito Deus.

Estou vendo que você não acredita - interferiu Diomedes. Com um gesto, me mandou acompanhá-lo.

Fomos até a sala, onde estava ligado um computador. Na tela, as últimas palavras eram "Assim, os três entraram e pararam diante do computador. Arnaldo Surdo se sentou e começou a escrever".

Arnaldo Surdo se sentou e começou a escrever. Olhando por cima do ombro dele, vi a frase. "E bem diante dos olhos de Flávio, Arnaldo Surdo não era mais a representação de um personagem, mas a cara do famoso Sigmund Freud".

E quando me olhou, ele era a própria encarnação do doutor Sigmund Freud, psicanalista de Viena.

Posso fazer mais - ele disse em seguida e escreveu: "O doutor Sigmund Freud falava com acentuado sotaque alemão e o mais estranho: podia voar".

Eu fai foar - ele disse e, batendo os braços, começou a sair do chão, até flutuar pela sala.

Diomedes, como se não estivesse acontecendo nada, se sentou e escreveu: "Então ele finalmente entendeu".

Então eu finalmente entendi. Sem causar medo ou qualquer sentimento, toda a explicação surgiu de uma vez. Fui tomado por uma sensação de calma. Sigmund Freud parou de bater os braços e voltou para o chão. Eu os olhava como um filho que descobriu de repente seus verdadeiros pais. Diomedes saiu da sala, mas voltou e perguntou:

Alguém quer café?

Quando anoiteceu, eu voltei para casa. Na saída, os dois me levaram até o portão. Meus dois amigos, Salvador e Pedro, amigos do meu pai até a morte, deram adeus e eu comecei o caminho de volta. De repente, parei e olhei os dois. Estavam muito velhos, mas ainda bem conservados. Com certeza tinham muitos anos pela frente.

Tal pensamento, constatou Diomedes, tinha poucos minutos, escrito por ele no computador. "Sem perceber", ele escreveu, "Flávio esqueceu de tudo ao atravessar a porta e voltar ao quintal. Até mesmo do café, pois lhe veio uma vontade de correr até um bar e pedir um expresso. Até mesmo que era um personagem ou que aqueles eram seus criadores. Escrevendo, Diomedes os transformara em simpáticos velhinhos".

A última coisa que ele me programou para dizer é sobre a derrubada das árvores. Quase não se falou nelas, mas enquanto estamos nós aqui falando, em toda parte elas continuam caindo, caindo, caindo, caindo...

Redação Terra