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 Alexandre Rodrigues: A derrubada das árvores II
27 de fevereiro de 2003 11h01

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É impossível dizer se Raul Seixas pode ou não fazer um show sem crachá. Matemáticos e físicos refutam qualquer avaliação, a mais simples que seja, sobre o assunto, afirmando pura e simplesmente: Raul Seixas já morreu, logo não pode participar de nenhum cálculo extravagante envolvendo crachás e shows.

Mas o homem, gordo e pálido, disse ao segurança: Eu sou o Raul.

Eu vim tocar - completou.

Quem é você? - perguntou o segurança.

O Raul. Já disse.

O segurança conferiu a lista de convidados e artistas numa prancheta.

Não tem nenhum Raul aqui - disse, apontando para a prancheta. Você disse que é artista?

Pô, sou eu. O Raul. Seixas. Eu sou a mosca que pousou na tua sopa - cantarolou. Vim tocar.

Mostrou o violão que carregava.

O segurança achou a voz e o rosto familiares, mas, cioso de seu trabalho, continuou a bloquear a entrada. Com o olhar, tentava comparar a imagem do homem gordo e de cavanhaque, os cabelos quase totalmente brancos, com alguém indefinido em sua memória. Tinha um motivo para isso: também se chamava Raul. Raul, o segurança, sentiu simpatia por Raul, o estranho, e tentava acabar com o impasse. De uma coisa tinha certeza: não constava nenhum Raul na lista de artistas da noite.

Eis o problema: Raul, o segurança, não sabia como era Raul, o cantor, e nem gostava de suas músicas. Tanto fazia que fosse parecido ou não com o homem à sua frente.

Milanês, chama a produtora - o segurança gritou para outro segurança, que desapareceu na escuridão rumo ao palco para cumprir a ordem.

Nesta parte, volto à minha história. Depois de descobrir sobre os cupins na caixa de livros, fui a várias livrarias, mas nenhuma tinha minhas obras. Na maioria, os vendedores de livros são umas bestas. Eu dizia meu nome e eles sequer consultavam as listas das editoras.

Sinto muito, mas não conheço este autor - responderam.

Decidi apelar para os sebos de livros, mas no início também não dei sorte. No centro de Porto Alegre, há uma boa quantidade de sebos, quase todos reunidos na Rua do Riachuelo. De uma ponta a outra da rua, entrei em cinco ou seis. Em um dos últimos, meu nome estava lá. Ao lado de Ian McEwan, uma surpresa: toda a obra de Angelo Marino. Até Às seis o sol se põe, uma espécie de resposta literária aO sol também se levanta, do qual eu mesmo só tivera um exemplar, roído pelos cupins. Barganhei com o vendedor por tudo um preço para toda a coleção. Meu melhor argumento: ninguém conhece este Angelo Marino, são livros de edição grosseira. Ele olhou para a estante e concordou, reduzindo tudo a menos da metade do preço.

Só em casa abri os livros. Conhecia cada edição, a fonte escolhida, a ilustração da capa. Peguei uma caixa de papelão e forrei de papel alumínio por dentro, preocupado com novo ataque dos cupins, então guardei todos os livros menos um, A fome sagrada. Uma história sobre um tempo em que as florestas voltaram a crescer, a produção de alimentos nunca foi tão grande e, no entanto, a humanidade é magra e faminta. Todos acreditam que a fome enobrece a alma, então só comem uma ração mínima diária, desprezando as frutas e verduras que surgem de todos os lados. Em sua vida famélica, os homens e mulheres muitas vezes têm delírios, devido à falta de alimentação. Alguns vêem a exuberância da natureza com seus olhos fundos e o cérebro subnutrido não consegue entender a realidade, fazendo-os pensar que estão no paraíso e sua fome está sendo recompensada. Quando o delírio passa, acreditam que a visão foi um rápido presente de Deus, que quis mostrar o que vão ganhar por sua perseverança. Muito tempo se passou desta maneira quando um homem, diante de uma árvore, vê uma jaca cair e explodir em pedaços. Quase inconscientemente, ele se ajoelha diante do fruto gigantesco e, feito Sidarta fez um dia, apanha um pedaço e põe na boca.

O nome do homem é Arnaldo Surdo. O sobrenome na verdade não é verdadeiro, ele se chama Armando Matias, mas o chamam assim porque é surdo de nascença.

Arnaldo Surdo também estava em outro lugar no livro. Na página 3, numa inscrição feita a caneta.

Pertence a Arnaldo Surdo, rua...

Outro livro da caixa, A sopa celestial, um cozinheiro é abduzido por extra-terrestres só para receber uma receita de sopa de banana. Os ingredientes não eram nada demais, banana, água, açúcar, sal e um pouco de noz moscada, mas, para surpresa do cozinheiro, combinados, deram vida a um prato de sabor delicioso, com um efeito inesperado. Ao pôr a primeira colherada na boca, o cozinheiro experimentou uma sensação de euforia profunda. Mesmo sem perceber, de repente estava às lágrimas de tão feliz. Mas o efeito passou de uma vez logo em seguida, fazendo a felicidade abandonar o cozinheiro tão rápido que ele mergulhou numa tristeza que nunca sentira. De tão abalado pela tristeza, comeu com pressa pela segunda vez. A cada nova colherada sem tiu a mesma sensação, que sempre ssó durava alguns segundos. Para mantê-la, foi preciso comer toda a sopa que havia preparado. No final, o cozinheiro quase não conseguiu resistir à tentação de correr para o fogão e preparar tudo de novo.

O cozinheiro batizou o prato de Euforia!, fazendo questão do ponto de exclamação, e, recorrendo às economias no banco, pôs um grande anúncio nos jornais.

EUFORIA! - A ÚNICA COMIDA QUE TE DEIXA REALMENTE FELIZ. STRESS, VIOLÊNCIA, CRISE, ESQUEÇA TUDO ISSO COM APENAS UMA REFEIÇÃO, A DELICIOSA EUFORIA! UMA IGUARIA DOS DEUSES CUJA RECEITA FOI TRAZIDA DA ANTIGA PÉRSIA. A ÚNICA COISA QUE REALMENTE LHE DARÁ FELICIDADE INSTANTÂNEA.

A mentira sobre a Pérsia não incomodou o cozinheiro, ainda mais que Euforia! foi um sucesso gastronômico. O cozinheiro trabalhava em um restaurante modesto, produzindo la minutas e pratos do dia repetitivos. Graças ao anúncio, apareceram os primeiros curiosos. De repente, críticos culinários foram ao restaurante para chegar às lágrimas com a sopa de banana. Depois o cozinheiro recebeu a proposta de preparar Euforia! para um restaurante da moda. O restaurante só vendia pratos com nomes sofisticados, na verdade pequenas porções decorativas de comida que nunca matavam a fome dos clientes. Euforia! fez sucesso para um novo tipo de público. Oferecida por um preço caro, a sobremesa rapidamente ganhou fama também naquele ambiente. Filas se formavam dia e noite do lado de fora do restaurante.

O outro restaurante, onde o cozinheiro trabalhara, continuou produzindo a sua própria versão de Euforia!, mas era só uma sopa de banana com gengibre, feita sem as doses certas ensinadas na receita do cozinheiro, sem o poder de transmitir felicidade às pessoas, de modo que ninguém mais falou nela.

Uma multinacional de alimentos propôs uma versão em lata de Euforia! ao cozinheiro. Ele apareceu na capa da Caras e da Veja, em fotos parecidas, vestindo a caráter, na cozinha, segurando um prato ou uma lata de sopa de banana.

A multinacional percebeu o ouro que tinha nas mãos, gastou milhões em publicidade e Euforia! tornou-se uma febre mundial. Ganhou o apelido de "comida da felicidade". Algumas pessoas pararam de beber, preferiam uma colherada de Euforia!

Tudo isso se passou menos de um ano. De repente, começaram também os relatos de abusos com Euforia! Algumas pessoas engordaram rapidamente ao se alimentar só de sopa de banana enlatada. Outros entravam em depressão mesmo se ficavam só alguns segundos sem Euforia! A tristeza, diziam, dói mais do que uma dor de verdade. Queriam a felicidade permanente, se empanturrando sem parar. Os governos dos países onde a comida se tornou uma febre começaram a se preocupar e discutir se Euforia! era ou não uma droga. Mas não tiveram muito o que fazer, pois os testes feitos em laboratório provaram que Euforia! tinha mesmo apenas os ingredientes que anunciava em sua fórmula e não recorria a nenhum psicotrópico secreto.

Na terceira página de A sopa celestial, havia uma inscrição sobre o dono. Pertence a Diomedes, rua...

O nome do cozinheiro era Diomedes. O endereço, o mesmo que estava no livro cujo dono se dizia Arnaldo Surdo.

Um leitor e com senso de humor, afinal! Devia ser o telefonema da mulher, mas me veio o impulso de encontrar este leitor. Mesmo sem ser perguntado, dizer que, como autor, apreciei o sarcasmo.

Enquanto eu refletia sobre o sarcasmo alheio, Milanês, um dos seguranças, foi a vários cantos, procurando pela produtora do show. Apesar de ter mais de trinta anos, ela usava um visual infantilizado que rejuvenescia sua idade aparente. Tranças, pedrinhas coloridas nos cabelos, uma camiseta com um personagem da Disney.

Continua

Redação Terra