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 Síndrome
21 de fevereiro de 2003 23h47

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A primeira vez em que ouvi falar no assunto ainda morava em Viamão, isso em mil novecentos e Menudo. Na real não ouvi, vi: era a capa de uma IstoÉ com quatro tubos de ensaio e uma letra em cada um deles. Eu não sabia ler ainda, então pedi que o pai me dissesse o que estava escrito. "Aids", ele disse.

Perguntei o que era, ele disse que era uma doença muito ruim, perguntei se tinha perigo de eu pegar, ele falou rindo que não. Aliviado, fui atazanar meu irmão menor.

Na escola, aprendi com os guris que Aids "era coisa de viado" e, preconceituoso e ignorante, nunca mais me preocupei com o assunto. Até que ali pela décima mão-sob-a-saia ouvi meu primeiro sem-camisinha-não-rola. Rolou, e eu não vou ser hipócrita de omitir que até hoje eu torço para que role, mas, bem, é uma necessidade da qual quase sempre sou convencido.

Mas eu não tô aqui para falar de meu dilemas sexuais. O ponto é que, se Aids é um troço presente na vida de quase todo mundo, e sexo na de mais gente ainda, as campanhas de prevenção deveriam ir direto ao ponto G, que fosse.

O Gapa fica debatendo se a Kelly Key é ou não a melhor pessoa para uma campanha contra a Aids. Véio, se alguém trepa nesse Brasil é a Kelly Key! Já prestou atenção nas letras das músicas? Mais, a guria deu pro Latino quando tinha 13 anos. Tem experiência no assunto. Aí vem os chatos das ONGs, os ongolões: ah, mas ela engravidou adolescente, ele não é exemplo. É uma torta de gostosa e é exemplo sim, porque se não engravidou outras vezes é porque alguma prevenção ela usa. Dá-lhe Kelly! Chave da cidade para Key!

Apóio a escolha da moça, mas na real acho pouco. A campanha atual do Ministério da Saúde, como todas as outras, é , tateia, não caga nem desocupa o vaso. Vocês já devem ter visto nos spots, outdoors, busdoors, front lights, back lights _saudades do Deee-Lit. A mensagem é basicamente de que sem camisinha só nos resta babar, baby, babar.

No comercial da TV tem uma historinha: a Kelly Key entra na farmácia e os vendedores ficam pensando se ela vai comprar perfume, xampu alguma outra coisa cosmética. Não, ela foi comprar camisinha, consciente que é. Para alegria dos engatinhantes e das vós, no final a faxineira da farmácia ainda passa o espanador na cara de um dos vendedores - saudades dos Trapalhões.

(Parêntese Primeiro: e lá a Kelly Key é mulher de comprar perfume e xampu em farmácia? Ora, faça-me o favor, foi a mulher que mais vendeu CD no Brasil ano passado, gente de nível.) (Parêntese Segundo: e lá a Kelly Key vai em farmácia? Manda ir!) (Parêntese Terceiro: e lá vendedor de farmácia fica babando? Se eu sou vendedor de farmácia e vejo a Kelly Key entrar eu já vou fofocar com o meu colega. "Que que essa mulher tá fazendo aqui, rapá?" "Tu não sabe? É seca por uns tarja preta! Descon, Hipofagin, Valium." "Meeeuuu..." Só de maldade, que se eu fosse vendedor eu ia ser muito revoltado.)

Como eu ia dizendo: que palhaçada é essa? E as guriazinhas das macegas não sabem que tem que usar camisinha? Claro que sabem! As guriazinhas da taiga, das charnecas, da tundra, das estepes e da mata dos cocais sabem. Mas muitas não usam. Em grande parte por causa de campanhas com subterfúgios, engraçadinhas e vagas como a atual. Tinha que ser uma coisa incisiva, canina, molar se possível.

Queria ver uma coisa depoimento, falo-e-tu-me-escuta. A Kelly Key com um fundo preto, sem trilha, créditos brancos, de TV educativa: "Kelly Key - cantora". Ela fala para a câmera: "Aê. Vamos falar sério, aê. Carnaval tá aí. E Carnaval é aquela história: o pessoal bebe, o pessoal bebe mais, o pessoal bebe de novo e outra vez. Eu sei que você vai dar pro primeiro que aparecer. E pro segundo, e pro terceiro. Você pode esquecer o nome de todos os eles na Quarta-feira de Cinzas, mas não esqueça uma coisa: use camisinha. Eu sei, camisinha é foda, mas Aids é muito mais." E pronto! Que farmacinha, que diálogo, que espanador, que nada. Ali, na bucha.

Cara, agora que eu me lembrei: tem outra campanha de prevenção no ar, estrelada pelo irmão da Sandy, o Júnior. O Júnior pedindo para o povo usar camisinha. Com uma pessoa especial. Sei. Tá bom. Arrã. Bem mais eficiente seria o Chororó, pai dele, com a mão no ombro do guri dizendo: "O Júnior é um exemplo do que pode acontecer quando você não usa camisinha. Previna-se".

Redação Terra