Parte I
Não é pretensão minha que tudo pareça verdade. Mas não posso negar a mim mesmo que os fatos realmente ocorreram da maneira como são narrados. Eu realmente entrei em um sebo e encontrei livros meus à venda. Livros realmente existem, árvores são derrubadas às milhares todos os anos para virarem uma pasta chamada celulose, que, por sua vez, é esmagada até ficar da fina espessura de uma folha, onde finalmente são estampadas letras imagens e símbolos. A este processo dão o nome de impressão. E, finalmente, existe de verdade uma casa enorme numa esquina do Menino Deus, bairro de Porto Alegre.
Tenho como testemunhas o dono do sebo, que me vendeu os livros, o taxista que me levou à casa, o policial que procurei quando comecei a me achar louco, o jornaleiro a quem perguntava as horas todos os dias e mais um sem número de pessoas com quem cruzei pela rua enquanto buscava meu intento, mas de quem nada sei, para elas, assim como para mim, sou um traço, um rosto impossível de se lembrar, tão importante quanto as nuvens acima das nossas cabeças.
Esta é a parte em que apresento. Angelo Marino. Desde que comecei a escrever, aos dezessete anos, produzi dezenas de romances, novelas e contos que nunca venderam nada. Criei centenas de personagens. Românticos, ingênuos, maliciosos, heróicos ou vilões. Bastiões morais para uma era conturbada. Produzo histórias sobre bons valores. A honestidade, a busca pela verdade, a perseverança, a compaixão. Mas nunca aconteceu nada. Tentei outros gêneros. Policial, drama, ficção científica, realismo fantástico, histórias eróticas e açucaradas e, em um momento de desespero, faroestes para os livretos vendidos em bancas de jornal. Por ironia, só os faroestes deram dinheiro. Pagam as contas da casa. Moro sozinho, recebi a casa de herança. Augusto, o dono da editora, às vezes me visita. Tem uma teoria sobre por que muita gente ainda gosta de ler faroestes.
Vocês, escritores ¿ ele diz ¿, são uns babacas. Não querem saber do que os leitores querem. Os leitores querem é aventura, mas vocês trancam as pessoas em casa, em tramas chatas e metidas a psicológicas. As pessoas querem crime, aventura e sexo. Qualquer um consegue ficar trancado em casa na hora que quiser, mas quem tem crime, aventura e sexo na vida?
Eu sempre dou a mesma sugestão: Você devia aproveitar isso e escrever. Ele ouve e repete sempre a mesma coisa: É, devia, devia.
Mas não é sobre as agruras da vida de escritor ou as pessoas que dão a sorte de ter crime, aventura e sexo nas vidas ou a natimorta carreira literária de Augusto que estou escrevendo. A minha história é a seguinte:
Meses atrás, eu recebi um telefonema de uma mulher.
É o senhor Marino? Meu nome é Angélica. Sou da editora ¿ ela disse.
O telefonema me pegou no trabalho, escrevendo O Destino dos Bravos, história sobre Azrael, um caubói branco que, por azar, se perde e vai parar numa aldeia de índios. Seu cavalo morre e ele é obrigado a procurar a pé a civilização. Os índios são bebedores de sangue e só atacam à noite, em cavalos negros. Azrael ainda não sabia da existência de índios vampiros, nem a ciência, que diz que vampiros não existem. Mas a Igreja Católica já pensou o contrário, antigamente os vampiros eram oficialmente considerados manifestações do Mal pelos católicos.
Um caubói chamado Azrael não causa estranheza, embora nada tenha a ver com o empoeirado Velho Oeste. Augusto nunca me pede para mudar os nomes dos personagens. Já tive caubóis como Kid Celeste e Almôndega Joe. Um dos vilões já se chamou Mick Jagger. O codinome do herói numa aventura de espionagem internacional era Buster Keaton. Como o cômico, nunca sorria. Havia uma horrível explicação para isso. Não sei se algum leitor notou a ironia.
Estamos ¿ continuou a mulher no telefone ¿ interessados em publicar uma coletânea das suas obras. O senhor sabe o que é uma coletânea?
Sei.
Então é isso. Queremos que o selecione algumas obras para uma coletânea de duzentas páginas que pretendemos lançar. Achamos que o senhor deve finalmente ser descoberto. É claro, o projeto envolve o pagamento de direitos.
A senhora já leu as minhas obras?
Mas é claro. Posso chamá-lo de Angelo? Ótimo. Angelo, li tudo seu que achei nas bancas. Uma vez, na sala de espera do dentista, me caiu nas mãos uma revista feminina. Tinha uma história sua, que achei ótima a ponto de anotar o nome do autor. Naquele mesmo dia, por coincidência, vi um livro seu à venda numa banca. Uma edição fuleira, com uma história de amor e uma ilustração água com açúcar na capa. Mas a sua história era sobre duas formigas lascivas.
Atração Animal, eu lembro. Duas formigas são modificadas geneticamente para sentirem prazer no sexo. Daí em diante seu comportamento aturde a comunidade das formigas.
Posso pôr esta no livro ¿ eu disse, e ela ficou satisfeito. Claro, claro.
Para uma boa coletânea, é preciso que as obras sejam curtas e de temas variados. Arrastei uma grande caixa preta de um canto até o meio da sala. A caixa estava pesada, lotada de papel. Duas ou três árvores morreram para enchê-la. As árvores dentro da caixa foram modificadas, depois de esmagadas, até virarem folhas. Máquinas cortaram as folhas em pedaços menores, do tamanho de livros. Puseram meu nome, Angelo Marino, nas capas destes livros. O autor.
Nunca coloquei meus livros na estante. Não saberia o que dizer se alguém os notasse ou folheasse. Guardei todos, junto com anotações e originais, nesta grande caixa preta. Isso me custou 7caro, pois as árvores, que já foram celulose e uma massa e depois folhas em branco e depois folhas impressas, viraram pó ao servir de alimento para os cupins. Exercendo a sua função na natureza, minúsculos insetos devoradores entraram na caixa e se alimentaram dos meus livros e papéis. Mais da metade deles foi inutilizada, varada de túneis dos cupins. Uma poeira parecida com serragem, a sobra do banquete, cobriu tudo, inclusive centenas de seres vivos que se mexiam no fundo da caixa.
Foi por isso que precisei ir a um sebo e mais tarde descobri um fã que comprava todos os meus livros e os carimbava com seu nome e endereço. Também percebi que a existência e a vida e as leis da física não são bem assim como se diz. Mas não tenho certeza de que Raul Seixas realmente apareceu sem crachá para fazer um show, treze anos depois de morto.
Continua.
- Redação Terra


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