O fato de ele estar na cidade há pouco tempo possibilitou a troca do caderno de cultura para o suplemento de turismo. Ibirapuera, Paulista, Vila Madalena, Benedito Calixto. Se detiveram no roteiro de museus, de onde ele lutou para sair até que ela falou em Pinacoteca do Estado de São Paulo. Ele tinha uma história na Pinacoteca. História boa para conversas de sofá inflável em festas de amigos e/ou conhecidos em apartamentos semi-iluminados, com peças semimobiliadas, cerveja semigelada e, com sorte, mulheres seminuas.
"Agora que tu falou em Pinacoteca, me lembrei de um troço legal que eu fiquei sabendo sobre o Almeida Júnior... tá, ligada, Almeida Júnior?"
"Não sei, ele é daqui?"
"Um pintor. De Itu. Ele é do acervo permanente do museu, no segundo andar tem uma sala só pra ele. Os quadros mais famosos dele são uns que mostram vida no interior, caipiras, bem Jeca Tatu, coisa que na época ninguém fazia."
"Sei." Ela se entediava. "Que época?", perguntou e bocejou. A história da facada, rápido!
"Mil e oitocentos e tanto. Mas o que eu queria contar, é que ele morreu em 1899. Assassinado." Ela franziu o cenho. "Por um marido traído." Endireitou o corpo. "Que era primo dele." Bebeu um gole da latinha. "Em Piracicaba." Não reagiu. "Com uma facada" Ela arregalou os olhos, ele esfaqueou com gana um Almeida Júnior imaginário na sua frente.
"Pois o lance é que ele tava pegando a mulher do primo dele, que tinha sido noiva dele. Era o grande amor dele. Pintava mulheres parecidas com ela nos quadros, escrevia cartas para ela. Chegava ao cúmulo de fazer quadros com mulheres parecidas com ela lendo cartas."
"Muita bandeira.", ela disse sorrindo, reagindo bem à piada.
"Tava pedindo, né? Pois é, e eu vi no site do Tribunal de Justiça, um tiozinho lá comentando o caso - foi um caso comentado, tu sabe? - que o corno encontrou uma das cartas, ficou possesso e no dia em que encontrou o Almeida Júnior meteu-lhe uma facada no bucho. E tu nem sabe..."
"O quê?"
"O cara foi absolvido pelo júri. Defesa da honra, sei lá o que alegavam naquele tempo, mas o matador escapou."
"Nossa."
"E tem mais. Agora vem a parte esotérica da coisa." Ele respirou fundo e prosseguiu, excitado. "Isso que eu te contei não tem lá na Pinacoteca, só fui saber depois, pesquisando. Quando eu fui lá, me abri prum quadro que nem é dos mais famosos dele. Chama Saudade."
Os olhos dele brilhavam. Ele desenhava a moldura com as mãos, era como se a pintura tivesse se materializado na frente dos dois e ele ressaltasse os detalhes para a ouvinte/observadora.
"Ele fez esse quadro no ano em que ele morreu. Tem uma mulher vestida de preto (que eu já achei que fosse de luto) uma morena bem branca de nariz fino (que eu já achei a cara da Marisa Monte), debruçada na janela, com uma carta na mão. Caem pelo rosto dela duas lágrimas (não lembro de qual olho). Em segundo plano, um baú aberto, pra tu entender que ela buscou a carta porque tava com saudade de alguém (que eu já achei que era do próprio Almeida Ramos)..."
"Júnior."
"Isso. Almeida Júnior. E eu fiquei besta com aquele quadro, já disse, né?, e reparei que ele era do ano em que o cara morreu, 1899. E daí eu vou para a Internet e descubro que ele foi morto por um marido traído que encontrou uma carta dele para a esposa. Tu tá ligada no que esse quadro representa? Tá ligada no que ele fez em Saudade?"
Ele esperou para ver se ela dizia algo, mas o fato é que ele viajava desacompanhado.
"Ele pintou o futuro."
Ela fez cara de "Como assim?" e disse: "Hein?".
"Antes de morrer, ele teve uma visão, e fez esse quadro Saudade, que é a EX-NOIVA DELE, mulher do CORNO ASSASSINO, lendo uma carta DELE, mas DEPOIS que ele morreu. Ele pintou o futuro."
A satisfação com seu argumento para um episódio de Além da Imaginação baseado em fatos reais, porém, não durou. Ela logo perguntou:
"Você faria algo parecido?"
"Pintar o futuro?"
"Dar uma facada em alguém por amor."
Pode-se ouvir o guri desmoronar, peça por peça. Ela, séria, interrogava.
"Nunca te aconteceu nada parecido?"
Ele fez cara de "Que papinho..." e disse: "Como assim?".
"Você nunca foi traído?"
Não tem como ela saber disso.
"Já foi, não foi?"
Teve uma guria com quem ele ficava, a última de quem gostou de verdade, que numa noite aproveitou uma ida dele ao banheiro para ficar com outro cara. Escancarado assim, beijando outro na frente dele, como quem passa manteiga no pão. Foi a única vez em que poderíamos classificá-lo como traído. Mas não tem como ela saber disso. A guria ficando com o outro cara, na frente dele, o mundo girando, ele saindo do bar sem pagar.
"E nessa hora, não deu vontade de dar uma facada?"
Sozinho, na chuva, chorando pela avenida madrugada adentro.
"Você teve vontade de fazer o quê?"
Ele queria se matar.
"Não sei."
Ele sorriu amarelo, disfarçando a dor da ferida aberta pela lâmina da memória.
"Talvez uma facada."
"É isso aí! Periga até ser absolvido! Quer mais cerveja?, eu vou buscar."
"Quero, claro", ele murmurou.
Não quis mais pegar a guria, nem falar de quadros. Jazia esfaqueado numa poça de saudade.



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