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 Como desenhar um homem feliz - Parte 2
23 de abril de 2004 15h38 atualizado às 15h38

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O homem feliz é gordo e disforme. Japão acredita que só um homem gordo pode ser feliz. Felicidade não combina com fome. É disforme porque nesse ponto já se sabe bastante sobre sua falta de habilidade em desenhar. O homem não tem nariz, nem boca ou orelhas, mas na cara lisa um grande sorriso estampa a sua felicidade. Japão arremata o desenho pondo, na sua mão esquerda (ou seria a direita?) uma maleta executiva tipo 007, modelo de couro, que na verdade não passava de um retângulo desenhado. Um homem só pode ser feliz de verdade se tiver um emprego.

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Quando acaba o desenho, Japão bate na porta. O Homem do Recrutamento e Seleção, aparece. Apanha o desenho e, sem nenhuma cerimônia, começa a marcá-lo com uma caneta vermelha. Japão espera que diga alguma coisa, porém ele simplesmente guarda o papel numa pasta e de dentro desta, apanha duas folhas grampeadas, que põe em cima da mesa.

- O senhor preencha esse teste. Trouxe o currículo?
- Não. Para quê?
- O senhor quer procurar emprego sem um currículo? Em que o mundo o senhor... Claudemir...
- É Japão. Meu nome é Japão.
. - Que seja, senhor ... Japão. O senhor precisa de um currículo.
- Pra quê?
- Para eu analisar o seu histórico.
Apanha outra folha de papel, esta em branco. Empurra na direção de Japão.
- Faça aqui mesmo um currículo. Ponha aqui as suas experiências.
- Experiências?
- Escreva os trabalhos que o senhor já teve.
Japão não tem coragem de perguntar nada. O Homem do Recrutamento e Seleção deixa de novo a sala, e Japão começa a escrever:
- Matias. Esse eu matei com um tiro só. Pendurei com uma corda na trave de um campinho e atirei na testa. Deve ter ficado balançando durante horas.
- Mateus. Era irmão do Matias. Matei assim, assado... - E por aí vai.

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Da outra vez em que trabalhou para o Turco Louco, Japão participou da guerra do bicho dos anos oitenta. Os banqueiros estavam todos velhos, tinham sobrado o Turco Louco e mais quatro ou cinco. Os outros ou tinham morrido ou se aposentado, como o Velho Deixa-Disso, que ganhou o apelido por jamais ter se envolvido numa briga. A vida inteira teve os mesmos pontos, não mais do que o canto mais pobre do centro, mas ainda assim o olho nunca cresceu para o que era dos outros.

Quando estourou a guerra do bicho dos anos oitenta, o Velho Deixa-Disso fez como sempre, tentou pôr panos quentes. Procurou o Turco Gordo e os outros. Estes, na maioria, eram mais jovens do que o Turco Gordo, filhos dos banqueiros mortos ou aposentados. Tinham crescido na fartura e na violência, eram espalhafatosos, namorando modelos e dando festas que depois apareciam nas colunas sociais. Um deles, Paulinho de Sá, filho do famoso Paulão de Sá, patrono de escola de samba e de time de futebol, tinha aparecido numa revista, numa matéria sobre implante de cabelos. Gastou cinqüenta mil para pôr um a cabeleira toda nova no alto da cabeça.

Um estilo que o Turco Gordo e os outros velhos desaprovavam. Mas tudo ficaria assim, só na desaprovação, se os jovens não tivessem tomado um ponto do Turco Gordo.

Nem valia muita coisa, eram só um pedaço com oito quarteirões, só dois apontadores trabalhando. Só que o Turco Gordo sabia que aquilo era um desafio e se não agisse, viria mais. O Velho Deixa-Disso soube o que o Turco Gordo estava planejando e o procurou. Pediu um tempo para conversar com os mais novos e também os outros velhos, que também tinham que ser ouvidos. O Turco Gordo, que gostava do Velho Deixa-Disso como um pai, aceitou dar um tempo no planejamento e esperar. Mas tão logo o Velho Deixa-Disso saiu, mandou Japão e mais alguns irem atrás dele. Japão e os outros descobriram que o Velho Deixa-Disso fora se encontrar com os mais jovens num restaurante da zona sul. Avisou o Turco Gordo, que deu a ordem:

- Bota pra quebrar.

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O Homem do Recrutamento e Seleção lê o currículo com ar aborrecido. Japão nunca vai saber, mas o Homem do Recrutamento e Seleção nos últimos tempos está sempre enfastiado. Há poucos dias, bebeu demais na festa de fim de ano da empresa e de repente deu de gritar:
- Eu sou mesmo um chato!
Muitos dos presentes concordaram.
- O senhor tem referências? - ele pergunta.
- Referências?
- O senhor anotou aqui que fez alguns... serviços. Tem alguém ou alguma coisa que prove isso? Pode ser um número de telefone. Ou um recorte de jornal.
- Bem, você pode falar com o Turco Gordo.
- O senhor queira me desculpar, mas o doutor Elias é um homem importante. Nós não podemos incomodá-lo com qualquer coisa. Além do mais, como o senhor também pode não ter referências? Sem currículo e referências? Aí já é demais.

Japão está a ponto de explodir, vai dizer alguma coisa, mas o Homem do Recrutamento e Seleção já está sentado à sua frente. Apanha a folha e começa a ler.

- Isto é um pequeno questionário - ele diz. - Para saber de suas habilidades organizacionais.
- Minhas o quê?
- Habilidades organizacionais. Com o quê o senhor pode contribuir para a organização.
- Eu posso fazer serviços. Do jeito que to ficando, posso até fazer um serviço em você. E de graça.
- Certamente que pode, mas não é por isso que o senhor está aqui, não é? Está aqui pelo emprego. O senhor quer o emprego ou não?
- Quero.
- Então precisa fazer todo o processo de recrutamento e seleção. Posso começar?
- Pode.
- Quais as suas metas para trabalhar na organização?
- Ter um trabalho. Ando precisando ¿ Japão dá um sorriso em busca de simpatia, contudo mais uma vez o Homem do Recrutamento e Seleção se esquiva com uma máscara de seriedade.
- Sei... E o que mais?

- O senhor até que foi bem no teste - o Homem do Recrutamento e Seleção diz muito tempo depois. - Mas tem um problema no seu desenho.
- O que foi?
- O seu Homem Feliz não está no chão. Veja bem (aponta o papel) ele está andando, está feliz, pode-se ver pelo sorriso, mas não há chão. Nem uma linha.
- Isso é ruim?
- Ruim? É péssimo. Significa que o senhor é doido.
Nessa hora, Japão finalmente perde a calma. Vai arrancar a arma, furioso, e encher o Homem do Recrutamento e Seleção de balas, porém o desejo se apaga completamente quando percebe que o Homem do Recrutamento e Seleção nem o observa, age completamente indiferente. Entre os dois, estabelece-se um contato pela primeira vez. Então o Homem do Recrutamento e Seleção volta ao papel, faz novas anotações com a caneta vermelha e então diz:

- Sinto muito, mas não podemos dar ao senhor o emprego. O seu perfil psicológico não é nem um pouco adequado. Mas tenho uma outra ocupação...
- De quê?
- Serviços gerais. Topa?

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Japão apura a vista e tenta perceber se aquilo à frente é um gato ou outra coisa. O corredor, todas as salas, o sobrado todo está vazio. Japão se move, arrastando os pés e a vassoura. Então pára e apura a vista de novo, instintivamente levando a mão ao revólver, mas então se lembra que não há revólver, não o deixam trabalhar armado.

Então esquece a sombra e deixa varrer, não sem antes pensar no Homem do Recrutamento e Seleção e na vida e, principalmente, que na próxima vez não esquecerá o sorriso no homem feliz e, principalmente, o chão.

Redação Terra