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 O Departamento Oito - Terceira parte
18 de junho de 2003 20h35 atualizado em 23 de junho de 2003 às 11h43

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Magnólia teve tempo de pensar numa resposta. Ao contrário da vez anterior, tinha certeza de ser chamada de novo à diretoria. Raciocinou que os superiores, desconfiados, podiam rejeitar sua nova explicação, então calculou uma que provocasse confusão. Cuja eficácia não pudesse ser confirmada sem ser aplicada. E que não pudesse ser aplicada de jeito nenhum.

"Nós tomamos drogas".

Aplicadas a algumas áreas da vida empresarial, drogas já se mostraram um grande estimulante para o trabalho. A febre da cocaína dos anos oitenta é um exemplo. Encheu narizes e bolsos pelo mundo afora e deu origem a uma casta de jovens gênios arrogantes movidos a pó branco. Todo mundo conhece a história de um destes gênios, publicitário de uma agência importante de São Paulo. Depois de ler sobre como a cocaína destrói a cartilagem do nariz, o publicitário passou a aplicar, com uma seringa, doses diárias de uma mistura de pó e água destilada na grande veia do pênis. Aprendeu o método lendo um oficial do exército contar na Veja como fazia para esconder seu hábito dos colegas e superiores.

No espírito do publicitário, a cocaína provocava um surto incansável de criatividade e ousadia. Graças a esse estado permanente, e, claro, a um talento natural, produziu cinco ou seis anúncios memoráveis e foi indicado pela primeira vez para um prêmio importante do ramo. Na noite da entrega do prêmio, entrou em estado de ansiedade. Estava tão nervoso que antes de sair de casa decidiu injetar uma dose extra para se acalmar. Seu pênis dormitava cheio de furinhos de agulha quando ele se acomodou numa poltrona do Teatro Municipal, onde era realizada a festa. Havia dias seu pênis entrara em estado letárgico, mas a situação ainda não o incomodava.

Os prêmios começaram a ser entregues. No meio da festa o gênio publicitário ouviu seu nome ser chamado e subiu ao palco sob aplausos entusiasmados. Reconheceu, entre centenas de rostos, pessoas famosas batendo palmas em sua honra, as mulheres lindas que iria comer em breve por causa de seu novo status.

Teve uma ereção.

Cada furinho feito pelas agulhas se dilatou enquanto uma carga extra de sangue invadia a grande veia do pênis, fazendo músculos e nervos se retesarem. Um homem adulto tem uma média de doze ereções por dia, algumas inesperadas, outras sem um verdadeiro estímulo sexual. Era o caso do pênis do publicitário, cujo pênis se erguia graças à súbita sensação de poder. Enquanto a pele se esticava, pequenos derrames surgiram nos lugares das picadas de agulha. O gênio publicitário sentiu uma pontada de dor. Os furinhos começaram a vazar sangue.

"Eu...", a dor ficou mais forte e interrompeu o seu agradecimento.

Foi sua única palavra. De repente o sangue jorrou em golfadas do pênis, tornando a dor insuportável. Em câmera lenta, o homenageado da noite caiu de joelhos no palco diante da apresentadora, uma atriz famosa da TV, que, confusa, olhava a cena e não sabia o que fazer. Chorando e se contorcendo, o gênio publicitário percebeu os rostos espantados da primeira fila. Uma mancha vermelha crescia entre suas pernas.

"Drogas. Usamos de tudo", repetiu Magnólia a Antonio. "Maconha, cocaína, crack, heroína... Até LSD, uma vez. Temos fornecedores próprios e discretos. Ninguém sabe que é para a empresa".

"Usamos drogas livremente. Ampliamos a nossa percepção. E isso nem é novo, os hippies fizeram a mesma coisa. Castañeda fez a mesma coisa".

"As drogas geraram um espírito de equipe irrestrito. Todos se sentem companheiros, ficaram mais amigos. Afinal, infringem a lei juntos todos os dias".

O verdadeiro segredo do Departamento Oito.

Uma tarde, Magnólia e Felipe, assistente de operações, conversavam na sala de reuniões. Os dois desfrutavam de razoável intimidade. Trabalhavam juntos havia mais de dois anos. Ambos eram casados, Felipe com Valéria, uma colega de trabalho, Magnólia com um sociólogo constantemente entrevistado em programas de televisão. Os dois estavam mais alegres e falantes do que em geral.

No meio da conversa, Felipe olhou em silêncio por um tempo para Magnólia.

"Você está muito bonita hoje".

Depois se aproximou dela.

"Esse seu perfume..."

Os detalhes são apenas detalhes, o que importa é que apenas um minuto e quarenta e sete segundos depois Felipe e Magnólia fizeram o que mudaria tudo dali em diante. Se beijaram.

Ele colocou a mão entre as pernas de Magnólia. Sentiu a calcinha e sua boceta. Masturbou-a, arrancando gemidos da chefe a cada toque no clitóris. Com um gesto brusco, abriu sua blusa e o sutiã, deixou os seios pularem para fora. Quando ela gozou, Felipe ainda manteve um pouco a mão no lugar, sentindo o calor e a umidade.

Se alguém tivesse cronometrado todo o ato, o relógio pararia em oito minutos e treze segundos.

Mal acabaram, os dois evitaram se olhar. A culpa e o constrangimento os atacaram, como sempre atacam nestas situações. Pelo resto do dia Felipe e Magnólia se evitaram. Ela deu uma desculpa qualquer para ir embora mais cedo. Porém logo ao chegar, na manhã seguinte, se encontraram no elevador, um sorriso sem graça em cada rosto. No meio da tarde, fazendo um cálculo complicado, ele ouviu a voz de Magnólia chamá-lo para uma reunião. Onze minutos e trinta e nove segundos depois, gozava nos seios dela, Magnólia, ajoelhada no banheiro dos homens do terceiro andar, que estava vazio para ser reformado.

Os encontros entre os dois continuaram. Combinaram: a relação seria só por sexo. De início foram cuidadosos, esperando os outros irem embora e fazendo uma verificação criteriosa dos lugares antes de se atracarem. Com o tempo, entretanto, a vigilância relaxou. Foram assaltados pela vontade de correr perigo. Começaram a se arriscar. Ela o masturbou em um almoço de fim de ano da empresa, por baixo da toalha do restaurante. Treparam à noite no terraço do último andar, olhando as poucas luzes acesas nos prédios em volta.

Numa tarde, ela escrevia uma avaliação quando entrou uma mensagem de Felipe no computador: Te quero agora.

Foram para a sala de reuniões e fecharam as janelas. Valéria, a mulher de Felipe, o viu se levantar e entrar na sala. Andava desconfiada. Felipe, que antes reclamava de Magnólia pelas costas quase diariamente, estava tomado de devoção cega à chefe. Defendeu-a quando Valéria reclamou de vê-lo trabalhar três finais de semana seguidos (na verdade, maratonas de sexo na sala de reuniões). Tanta atenção a Magnólia o enfraquecera para satisfazer Valéria. Dava desculpas para não ir para a cama, outras para fugir do sexo. Na noite anterior, com Felipe dormindo ao lado, Valéria respondeu ao teste de uma revista feminina e depois começou a chorar.

O teste se chamava "O seu marido é fiel?" Consistia de doze perguntas, com quatro respostas cada. Cada resposta recebia determinado valor, que variava de zero a três. A soma dos valores dava um resultado, depois comparado a uma tabela sobre o nível de atenção que Valéria andava recebendo.

Uma das perguntas era: Disfarçadamente, apalpe a bolsa de testículos do seu marido. Ela está...

a) Abarrotada, explodindo de cheia
b) Só cheia
c) Meio cheia
d) Vazia

Oito horas e dezessete minutos depois de Felipe gozar, pela terceira vez no dia, na boceta de Magnólia, Valéria o esperou dormir e depois enfiou a mão em sua calça. Com cuidado, foi até os testículos e apertou a bolsa levemente. Felipe soltou um longo suspiro e começou a ter uma ereção. Valéria marcou D na resposta.

Somou as notas de todas as respostas e chegou ao número quatro. Cinqüenta e seis segundos depois, comparando a nota com uma tabela, começou a chorar. A resposta da soma dos resultados foi:

SINTO MUITO, SEU MARIDO É INFIEL.

Mas também não conseguia arrancar nenhum outro sinal de infidelidade dele. Naquela tarde, ao vê-lo entrar na sala de reuniões, decidiu conversar sobre o relacionamento. Não queria esperar até chegar em casa, daria tempo a Felipe de arranjar uma desculpa. Valéria não percebeu que Magnólia entrara primeiro. Planejava uma desculpa qualquer para falar sobre como se sentia.

Abriu a porta e viu Felipe e Magnólia. Os dois, nus da cintura para baixo, se mexiam furiosamente, fazendo balançar a mesa de reuniões. De costas para ela, não a viam. Os seios de Magnólia eram grandes, balançavam de um jeito engraçado. Estava de pé, curvada à frente de Felipe. Durante um tempo, Valéria os observou em silêncio, notando detalhes de cada corpo. Meio sem perceber, começou a tirar a roupa também.

O triângulo amoroso existiu por um tempo sem provocar desconfianças. Valéria, Felipe e Magnólia se reuniam quase todos os dias depois do trabalho. Se um por algum motivo não podia ir, encontravam-se os outros dois, fossem Valéria e Magnólia ou Valéria e Felipe ou Felipe e Magnólia. O sexo transformou-se numa maneira de descarregar as tensões do trabalho, lhes dava vigor redobrado em suas funções.

Nesta época, o Departamento Oito ainda não era um portento dentro da organização. Magnólia reclamava das cobranças no trabalho. Achava a organização machista e antiquada, que era visada além da conta por ser mulher. Além do mais, sabia de alguns colegas homens em funções menos importantes que recebiam salários melhores. Queria trocar de emprego. Também pensavam assim outros funcionários do Departamento Oito, igualmente insatisfeitos.

Isso mudou no dia em que Felipe acidentalmente não trancou direito a porta. Nus, ele, Magnólia e Valéria, estavam de costas e não perceberam quando o trinco se soltou, fazendo a porta se abrir devagar. Não viram também quando Aída, uma estagiária, ouvindo gemidos ao passar pelo corredor, enfiou o olho pela fresta. Por trás dela, Rafaela, outra estagiária, ouvindo os mesmos gemidos, repetiu seu gesto. Aída continuou olhando, hipnotizada pela cena, mas Rafaela correu para as mesas e, pedindo silêncio com o dedo indicador sobre dos lábios, chamou os colegas. Felipe, Valéria e Magnólia só se deram conta ao notar o grupo aglomerado no corredor, a porta já escancarada. Tentaram se vestir atrapalhadamente, ouvindo as primeiras risadas.

Mas então Magnólia parou e olhou desafiadora para os outros do lado de fora. Em seguida, tirou as roupas das mãos de Valéria e Felipe, que ainda tentavam se vestir, e jogou-as no chão. Agarrou seus pulsos em seguida e, sem tirar os olhos dos colegas, beijou-os.

Cientistas dizem que mulheres, em estado de excitação, liberam feromônios, pequenas substâncias que flutuam no ar e são captadas pelo sexo oposto. O ciclo sexual também é sensorial. Os feromônios de Valéria e Magnólia só precisaram viajar alguns metros para atingir o grupo do lado de fora da sala. Instigados, por Magnólia, Valéria e Felipe recomeçaram a se acariciar. Valéria, a mais tímida dos três, fazia tudo com os olhos fechados.

Então Daniel, um dos funcionários, notou que Rafaela acariciava os próprios seios com uma das mãos e os seios de Aída com a outra. As mãos de Daniel se enfiaram pela roupa de Rafaela. Outras mãos pelas roupas de Aída. Mais outras pelas roupas das outras mulheres e homens. Depois foram os outros colegas que estavam fora da sala e, ao chegar, ouviram os gemidos e entraram na festa.

A orgia durou uma hora e sete minutos. Não houve quem não participasse. Mesmo Messias, que não tomava banho todos os dias e era alvo de piadas dos outros pelas costas por cheirar mal. Comeu duas colegas naquela tarde. Em menos de duas semanas comeu todas as outras do departamento. Teve mais prazer com Magnólia, por quem tinha uma atração reprimida.

Alguém mais previdente lembrara de trancar as portas. Estavam todos na sala de reuniões, a única protegida por persianas. No resto do andar, as janelas, sem paredes, foram colocadas para exibi-los feito bichos no zoológico aos escritórios vizinhos. Os prédios em volta também exibem os seus ocupantes. Uma praga da arquitetura moderna.

Magnólia se preparou para uma hecatombe que nunca veio. Para sua surpresa, o segredo não vazou. Cada funcionário do Departamento Oito se adaptou imediatamente à nova situação. As orgias se repetiram e aumentaram a produtividade de todos. O sexo os fez trabalhar com vontade, esquecendo as dificuldades e a competição.

Magnólia tem uma teoria para isso: Não tem problema que uma chupada não resolva. Diz e repete a frase quase todos os dias, explicando ser a fórmula da satisfação universal.

No início, vinte e dois homens e mulheres se comiam apertados na sala de reunião, geralmente de pé. Terminavam quase todos suados do esforço e do calor. Messias começou a feder insuportavelmente. Por isso, houve um aplauso geral quando Magnólia anunciou que conseguira da diretoria a colocação de persianas em todo o andar. Mais aplausos quando disse que as portas podiam ficar fechadas. Ninguém mais se apertou na sala de reuniões. Mesas e cadeiras de trabalho, mais próximas e cômodas, davam boas camas.

Uma vez todos levaram frutas e se enrolaram em lençóis e coroas de louros. Encenaram um bacanal na Roma Antiga. Messias, gordo e pálido, era Nero. Lambuzou Aída com pedaços de melancia. Todos comeram e se sujaram, mas ninguém vomitou.

Nos verdadeiros bacanais da Roma Antiga, contudo, haveria vômitos. O vômito era necessário. Os convidados comiam tudo o que agüentavam e depois iam ao vomitório abrir espaço em suas entranhas para, então, recomeçar a glutonice. O importante era a comida, não o sexo.

Eis o segredo do Departamento Oito, que revolucionou o mundo empresarial. O importante é o sexo, nada mais. Magnólia, porém, falou a Antonio sobre sessões com heroína e ópio afegão. De corte de custos imaginado depois de uma distribuição de adesivos de ácido com a estampa de Mickey Mouse e ou Super-Homem, de pausas diárias no trabalho para a cocaína. Tirou da bolsa um bonequinho muito popular, com cara de feliz e cabelo laranja arrepiado.

"Esse boneco", ela disse, "também foi criado assim. Li que o desenhista teve a visão de um duende numa viagem de ácido".

O Departamento Oito continua produzindo bons resultados. Recentemente, suas funções incorporaram a contabilidade e os recursos humanos. Funcionários destes setores foram absorvidos pelo Departamento Oito, mas só depois de uma longa entrevista com Magnólia. Uns poucos acabaram dispensados. Os demais elevaram a produção ao nível dos novos colegas. Mesmo os incompetentes e desmotivados melhoraram de repente.

Enquanto o Departamento Oito continuar dando lucro, Antonio vai manter a palavra. Ele não gosta do arranjo, mas o aceitou pelo bem da empresa. Pelo mesmo motivo, deu mais atribuições a Magnólia. Recentemente a organização teve de se desfazer de empresas importantes para cobrir prejuízos. Executivos foram contratados para salvar o que resta do império, mas com ordens expressas de manter distância do Departamento Oito.

Um apelido dado pelos novos executivos ao Departamento Oito: fábrica de mistérios. Outro apelido: lavanderia.

Imaginam que ali dentro se movam os negócios sujos da empresa. Um deles diz no café: Já vi lugar igual em outra empresa. Uma vez entrei escondido e lá dentro estavam descarregando armas.

Outro apelido, este público e oficial, repetido abertamente: fábrica de lucros.

Uma jornalista da TV recebe a dica sobre uma técnica de gerenciamento que faz mágicas. Liga para o Departamento Oito e pergunta o segredo. Magnólia desliga e promete ligar de volta. Pensa durante dois segundos. Telefona e responde:

"Fazer o que se gosta. Aqui todo mundo gosta muito do que faz".

A repórter agradece e desliga com um sorriso. "Conversa mole", pensa. Em outras condições Antonio Manuel Madeira Rodrigues pensaria a mesma coisa. Como a jornalista, tudo o que sabe é uma resposta falsa, porém acredita na sua. Por isso, há pouco teve a estranha conversa de dois minutos e cinqüenta e sete segundos pelo telefone. Em nome do bom gerenciamento empresarial, ele é capaz de perdoar Magnólia dos prejuízos com a história da bebida e da história das drogas, desde que o segredo seja mantido e o Departamento Oito continue com os bons resultados.

Ele põe o fone no gancho, porém suas mãos ainda tremem. Um arrepio de medo lhe atravessa o corpo. Em pensamento, repete sem parar o diálogo ao telefone. Quis agradar os funcionários do Departamento Oito. Fazer uma surpresa e mostrar que também tem a mente aberta. Por isso, ligou para o celular de um traficante e encomendou:

"Isso. Eu quero comprar uma tonelada de maconha".

Fale com o colunista: alex.rod@terra.com.br

Redação Terra