Enquanto todos se adaptavam, o Departamento Oito voltou à rotina. Pouca gente notou que as persianas e portas continuaram fechadas, mesmo depois de a bebida ser liberada no resto da organização.
Semanas depois da liberação da bebida, a diretoria convocou uma reunião de emergência. Os diretores relataram mais casos de vandalismo e brigas.
"O departamento pessoal virou um bar. Toca música alta para os bêbados que fogem do trabalho", contou um deles. "E tem mais: os chefes estão ficando sentimentais. Aconteça o que acontecer, ninguém é demitido".
Um outro contou: o vigia do prédio à noite bebeu demais e, melancólico e tomado de remorso por nunca ter dito ao pai o quanto o amava, deixou uma família de mendigos dormir na recepção.
Mais uma história: Ramon, ex-funcionário exemplar do almoxarifado, uma tarde bebeu tanto que atirou um computador no chão durante um acesso de raiva.
Outra: Um grupo de funcionários fundou uma irmandade chamada Irmãos de Copo. Pôs um brasão da irmandade na porta do departamento de compras.
Na verdade, só um setor não foi abalado: o Departamento Oito. Ninguém notou, mas as persianas e portas do andar continuavam fechadas, mesmo depois de a bebida ser liberada no resto da organização.
Numa decisão rápida e constrangida, a diretoria decidiu proibir a bebida de novo.
O porteiro e Ramon foram perdoados, ninguém se atreveu a demiti-los, pois de certo modo fora responsável pelo seu comportamento ao liberar a bebida no trabalho. Aos poucos, a normalidade começou a voltar às salas. Sóbrios, de volta às suas mesas e computadores, os funcionários começaram a achar a rotina insuportável. Perderam a vontade de produzir. Os gráficos de desempenho, que tiveram uma queda generalizada com a bebida, continuaram descendo.
E ainda teve o prejuízo da empresa, que atingiu dezenas de milhões com a bebida. Gastos com programas contra alcoolismo, auxilio aos funcionários que não conseguiam largar a bebida, processos judiciais de alguns que alegavam problemas de saúde ou o fim do casamento ou acidentes de carro causados pelas bebedeiras no trabalho. A certa altura, se consumia álcool em qualquer escritório ou fábrica ou lavoura ou jornal ou canteiro de obras do grupo. A concorrência descobriu e, maliciosamente, contrabandeou a informação para a imprensa, que transformou a história na piada empresarial do ano.
Até então a organização fora uma força predadora. Seu nome original, aliás, lembrava isso. Quando comprou sua quarta empresa, uma fábrica de móveis, o fundador, João Manuel Madeira Rodrigues, batizou o grupo de Organizações Leopardo. Isso foi no final da década de cinqüenta, quando o nome pareceu uma boa idéia. Mas na década de oitenta os jovens diretores o procuraram e disseram que era um nome antiquado. Exibiram pesquisas e avaliações de especialistas até convencerem-no a fazer a mudança. O novo nome foi escolhido por uma empresa de design, que cobrou uma fortuna para aparecerer um mês depois com uma lista de desenhos e siglas escritos em apenas duas folhas de papel. João Manuel Madeira Rodrigues pensou que qualquer um podia fazer a mesma coisa - ficar sozinho por duas horas e fazer uma lista de nomes - e iria sair muito mais barato, porém a diretoria estava encantada. Logo o primeiro nome convenceu a todos os jovens diretores. LO EXPRESS.
João Manuel detestou o nome, mas ficou muito mais melancólico por ninguém na diretoria, nem mesmo seus filhos, saberem o que significava a letra O em LO EXPRESS. Um representante da empresa de design veio em auxílio de todos. Com a paciência esnobe dos jovens ao tratar com os velhos, explicou que o L era mesmo de Leopardo, uma deferência a João Manuel e aos anos de fundação. Já o "O" fora inserido para dar dinâmica e vigor à nova marca. Desde então João Manuel Madeira Rodrigues se desinteressou dos negócios.
Ele era mesmo um apaixonado por animais da África. João Manuel sonhava em visitar o continente africano, ver os mais rápidos caçadores da Terra, mas nunca cumpriu a promessa feita a si mesmo ainda jovem. Morreu aos sessenta e sete anos, de ataque cardíaco, com a mesma mania de menino, colecionar figurinhas de animais. Em um armário, guardava mais de duzentos ábuns, colecionados desde criança, alguns trazidos do exterior. João Manuel Madeira Rodrigues entendia de animais africanos, mas também de negócios. Começou com um ferro-velho e logo percebeu que podia comprar carros batidos nos leilões de seguradoras. Passou a comprar os carros com duas finalidades: os mais danificados eram destruídos e suas peças vendidas no ferro-velho. Os menos danificados, consertava e punha à venda. Já com mais de sessenta, decidiu fazer faculdade e se matriculou em um curso de economia, para não ser enganado pelas palavras das gerações mais novas, palavras que não entendia direito, como reengenharia e downsizing.
Se não era bom em novas palavras, João Manuel Madeira Rodrigues entendia de negócios a ponto de ter se transformado em um homem rico ainda em vida, mas, morto onze anos antes, já tinha pouco a ver com a organização atual.
Naquele momento, João Manuel Madeira Rodrigues sequer pensava mais no mundo empresarial. Na última vez em que o fez, pensou: "Que a organização se foda!" Em sua vida no além-mundo, faz a mesma coisa quase todos os dias. Mal desperta, vai observar os animais africanos mortos que vivem ali perto. No dia em que se lembrou da organização, observava um leopardo perseguir um antílope e depois cravar suas garras e dentes na sua pele. O antílope gritou de agonia e terror, mas continuou correndo. No além-mundo, não há dor, nem morte. Perplexos, caçador e vítima entenderam em seguida que tinha algo de errado. O antílope foi ao chão, mas em seguida se levantou e recomeçou a correr, até se distanciar do leopardo, que, já sem fôlego, ficou para trás, olhando a caça fugir. O leopardo já não sentia mais fome, porém continuava caçando e seguindo o instinto de predador. Assim também fazia o antílope, que longe começou a comer um arbusto.
Se João Manuel preferia olhar os animais, o sobrenome Madeira Rodrigues ainda mandava na organização, representado por Antonio e Celso, filhos do fundador, o vice e o atual presidente. Antes de uma reunião a sós com Magnólia, Celso procurou o irmão.
"Você é mesmo burro", ele disse, sem dar tempo a Antonio de responder. "Por causa desta história de bebida, os acionistas querem a tua cabeça".
Antonio sentiu vontade de usar com Magnólia a truculência dos empresários de antigamente. Chamou-a para uma reunião determinado a saber de vez a verdade. Os patrões de antigamente não deixariam barato uma traição como a dela. No tempo deles, se um funcionário fizesse algo desabonador, levava um bofetão. Assim agia seu avô, Guilherme, que possuía uma mercearia e um ferro-velho, deixando, quando morreu, a mercearia para um filho, José, e o ferro-velho para outro, João, mas não o hábito de bater nos rostos dos negros que trabalhavam na mercearia e dos portugueses que levavam coisas para vender no ferro-velho. Antonio nunca usou a agressão física como recurso. Foi educado para ser um homem civilizado e moderno, consciente de que o verdadeiro poder não está nos nos músculos, mas no medo do desemprego.
Era dono das vidas de empregados com contas e dívidas, de pais de família preocupados com a mensalidade dos filhos, de pessoas temerosas de perder o emprego por causa da idade. Com tal poder, se sentia um super-homem, mas seria capaz de extrair a verdade de Magnólia?
"Vou ser rápido e claro", ele começou. "Quero que você também seja rápida e clara. Você vai ser rápida e clara?"
"Vou".
"Eu te acho uma egoísta, Magnólia. Não se importa com o destino dos colegas, com quem vai para a rua se a empresa for mal. Não se importa com a empresa".
Magnólia continuou em silêncio.
"Por mim te mandava embora. Você sabe bem no que deu essa mentira sobre a bebida, o tamanho do prejuízo. Ninguém bebe no teu departamento, mas você deixou a organização perder dinheiro assim mesmo. Então não vou ser teu amigo também. Se você não me disser a verdade ou eu não acreditar no que diz, te demito e depois chamo cada funcionário seu aqui. Um por um, até alguém me dizer".
"Antonio, você não vai querer saber..."
"Quero. Que merda de segredo é esse?"
- Redação Terra


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