No oitavo andar de um prédio ultra-moderno funciona o Departamento Oito. O Departamento Oito é conhecido pelos seus brilhantes resultados dentro da organização. Tem a melhor produtividade, a maior lucratividade e por cinco anos seguidos destacou-se também por cortar seus custos, mesmo quando não exigido. Com o tempo, o bom desempenho o fez acumular tarefas. Atualmente é responsável por cinco ou seis setores importantes da organização, surgida de um simples ferro-velho, mas que décadas depois se tornou complexa e domina mercados que vão da informática à construção civil e entretenimento. O sucesso do Departamento Oito não deriva do feng-shui ou outras técnicas usadas para criar bons ambientes no local de trabalho. Ninguém espalha qualquer tipo de essência no ar, acende incensos ou coloca música new age para criar um ambiente agradável. Na verdade, no Departamento Oito trabalha-se aos gritos. Em plena era da informática, os funcionários preferem se comunicar usando a voz.
"Por favor, precisamos fazer uma reunião agora", Magnólia, a chefe, berra para todos uma vez por dia, em vez de enviar um e-mail coletivo com a convocação.
As reuniões são o segredo do Departamento Oito. Delas, participam todos os empregados, sem distinção de cargo. Ocorrem diariamente. A tradição das reuniões saiu do Departamento Oito e se espalhou pela organização. Outros departamentos, até outras empresas da organização, o imitam. Perdem tempo discutindo o nada, pois, participando de reuniões, quase todos trabalham menos e têm menos o que contar. Em vez do sucesso almejado, os resultados das reuniões generalizadas ficaram abaixo das expectativas em todos os outros lugares.
Uma das coisas diferentes nas reuniões do Departamento Oito. São secretas. Grossas persianas, instaladas em todas as janelas, escondem o andar dos olhos dos prédios vizinhos. Quando acionadas, nenhuma luz escapa ou entra. Só então começam as reuniões. Os escritórios dos prédios vizinhos notam a cortina hermeticamente fechada, fazem especulações sobre os segredos industriais escondidos por trás dela.
Um formulário-padrão para se trabalhar no Departamento Oito.
Eu ......... (o nome do funcionário) me comprometo a não divulgar, de maneira alguma, a quem quer que seja, informação, seja qual for, a respeito do meu local de trabalho e da organização . Estou ciente de que desobedecer a este acordo é motivo suficiente para que sejam acionadas todas as punições cabíveis.
Nunca ocorreu um vazamento de informação do Departamento Oito. As punições cabíveis nunca foram acionadas, para que se saiba do que se trata. Mesmo a diretoria da organização e os outros departamentos não sabem o segredo do Departamento Oito. Em determinada época, quando o sucesso do Departamento Oito tornou-se óbvio, Magnólia foi chamada para uma conversa com a diretoria. Os bons resultados chamaram a atenção da organização. Antonio, o vice-presidente, lhe prometeu uma promoção. Então um diretor perguntou: E qual é esse segredo tão bem guardado, afinal?, e Magnólia respondeu com palavras da moda, corte de custos, adaptação, liderança, visão do mercado, bom atendimento, sem dizer a verdade.
As palavras da moda eram as mesmas para todos, inclusive a diretoria. Magnólia, todos raciocinaram, só as aplicava com mais sucesso. Neide, a única diretora da organização, a felicitou com um abraço.
"Logo, logo, vamos ter outra mulher aqui conosco".
Mas os resultados do Departamento Oito continuaram muito além do esperado, muito mais altos do que os do resto da organização, que seguia as mesmas palavras da moda e continuava com resultados inferiores. Por ironia, o novo sucesso não trouxe mais satisfação à organização, que desconfiou: estava sendo enganada.
No fundo, todos estavam acostumados a pensar através de gráficos e demonstrativos, dando um jeito de usar palavras como liderança, satisfação e experiência para motivar os funcionários, que só tinham as palavras para se motivar, pois não podiam ganhar bem como os chefes e diretores que os queriam motivados. Mas o sucesso do Departamento Oito estava acima do que os gráficos e desmonstrativos e palavras como motivação, liderança e experiência poderiam conseguir.
A organização desconfiou: Magnólia aplicava alguma nova técnica de gerenciamento. Técnicas de gerenciamento são mágicas ensinadas nas faculdades e nos cursos para executivos, sempre com a promessa de fazer milagres e dinheiro para quem as compra. Geralmente quando aplicadas, muitas pessoas perdem os empregos, em nome de uma coisa chamada corte de custos, usada em nome de outra coisa chamada lucro. São aplicadas por técnicos, homens tratados como mágicos no ramo quando conseguem tirar alguma empresa do buraco ou acertar alguma previsão.
Magnólia, todos acharam, sabia de uma técnica ainda desconhecida. Superior às outras, conseguia fazer uma equipe produzir cinco, seis vezes mais sem perder a motivação. A organização desconfiou mais: ela escondia a técnica porque queria todos os louros para si.
David, analista-sênior: "Ela está escondendo o jogo".
Rubem, diretor financeiro: "Ela deve querer o crédito de ser a primeira".
Maciel, diretor de operações: "Depois vai sair daqui e escrever um livro. Vira consultora e fica rica. Nós ficamos com o papel de laboratório dessa experiência, sem nem saber como funciona".
Rubem: "Mas alguém já ouviu falar de alguma técnica nova?"
Maciel: "Não. Já faz seis meses que não aparece nada".
Rubem: "Então o que vamos fazer?"
David: "Apertar ela".
Magnólia chegou para a reunião com a diretoria. Encontrou os rostos fechados e alguns poucos sorrisos cínicos, ansiosos por sua derrocada. Fora convocada por Antonio, o vice-presidente da organização. Antonio cobrou sem rodeios.
"Dona Magnólia, por favor, me diga sem enrolação, o que há de diferente no seu departamento?"
"Nós bebemos no trabalho".
Magnólia não planejou a mentira, inventando na hora o que lhe veio à cabeça. Não inventou a mentira porque não sabia o que estava sendo tramado. Não sabia o que estava sendo tramado porque não tinha amigos fora do Departamento Oito para avisá-la.
Outra coisa diferente no Departamento Oito. Quando acontece uma reunião todo o andar é trancado. As duas portas que dão acesso às outras salas são fechadas a chave. Ninguém de outro setor, mesmo a diretoria, pode entrar durante as reuniões. É um hábito que provocou comentários na empresa, mas a argumentação de Magnólia foi a mesma das persianas. Foi até a diretoria e disse "Precisamos manter a privacidade e a concentração", e, diante do anúncio de que um grande contrato de fornecimento de peças para celulares estava sendo fechado, a diretoria não viu nada demais no pedido.
Isso foi antes. Durante esta reunião da diretoria, quase ninguém se lembrava da história das portas. Uma grande gargalhada coletiva explodiu na sala, contaminando um a um até chegar em Antonio. Ele também começou a rir. Um clima de anarquia se instalou por instantes, diretores davam tapas nas mesas e abriam os colarinhos de tanto rir. Só Magnólia continuou séria. Estava apavorada pela possibilidade de ninguém acreditar e também pela idéia de todo mundo acreditar no que disse. Ignorando as risadas, calculou as conseqüências. Os subordinados passariam a ouvir brincadeiras sobre bebida. Talvez o Departamento Oito ganhasse um apelido tipo Cachaçaria.
"Com a bebida", continuou, mais empolgada, "as pessoas ficam mais falantes. Dão mais idéias. Meus funcionários ficaram uns falastrões. Dão vazão à criatividade e a empresa sai ganhando".
Mais gargalhadas. Antonio ainda estava rindo. Como os outros, demorou a conter o riso e conseguir falar. Magnólia esperou com paciência o fim da confusão.
"Genial", finalmente disse Antonio. Começou a repetir: "Genial"


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