Capitalizada graças a seu trabalho na campanha de TV do governador gaúcho eleito em 1994, minha mãe bancou a viagem dela e do restante de seu núcleo familiar imediato _meu pai, eu, e meu irmão menor_ para Nova York, ainda com torres gêmeas incluídas. Fomos no final de dezembro daquele ano, o Primeiro Natal do Real, tempos de paridade cambial. Sim, crianças, houve uma época em que nossa moeda valia um dólar inteiro.
Era a primeira vez dos quatro na cidade, de forma que a pagação de vale (de mico, para os não porto-alegrenses) rolou solta. Fomos roubados por falsos cambistas, comemos uma feijoada caríssima na "Rua Brasileira", compramos todos belas toucas de lã com os dizeres "NYPD", "Brooklin" e (a do meu irmão) "Chicago Bulls" (???).
Houve dramas individuais também. A mãe torceu o pé nas escadas da Estátua da Liberdade. O pai tinha crises de abstinência de nicotina, por não poder fumar em qualquer lugar. Meu irmão tinha fome a cada esquina. Era fome de comida, de consumo, de viver, de aventura, era uma peste aos 12 anos (eu tinha 15, praticamente o dobro). E eu fui passear com meus tênis Redley e meia de algodão na primeira neve que vi na vida, o que resultou na supracitada gripe.
Resultou não é bem a palavra, a coisa foi se resultando aos pouquinhos. Meu passeio foi na manhã de 31 de dezembro. Na noite do Ano Novo eu estava mal, mas não ia perder por nada o reveillón com chinelões de todas as nações no meio da rua. De volta pro hotel (pouco antes de 1h, festa chocha bragarai!) comecei o que pode ser interpretado como uma homenagem à performance de Linda Blair em "O Exorcista". Febrão, tosse, frases sem sentido, catarro, vômito _se tem alguém lendo na pausa para o almoço, desculpe.
Nessas horas geralmente é bom ter os pais perto. Geralmente. "Tu tá forçando a barra! Tu tá te fazendo de doente para não ver teus parentes amanhã!", dizia a Mãe. "Cacete, eu tô mal mes... BLERGH!" "Tu vai de qualquer jeito." Ou algo assim, porque eu passei de um estado de mal-estar para um de não-estar. Quando abri os olhos novamente eu havia sido sequestrado: estava dentro de uma van com três mulheres falando inglês entre si e português conosco, enquanto casinhas passavam dos dois lados da estrada. Estrada não, Infinita Highway, que faz tempo que eu não cito Engenheiros.
Pois é, dentro do Grande Esquema das Coisas estava planejada desde épocas imemoriais uma visita dos Urbim aos Viana, a família do padrasto do meu pai, que tinha migrado de Sant'Ana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, para Porto Alegre e posteriormente emigrado para Newark, Nova Jersey, no final dos anos 60.
Os homens já eram operários aqui, e foram ser operários lá, em uma época de incentivo americano à imigração. As mulheres, que eram donas de casa, lá pegaram uns "part-time-jobs", sendo caixas de mercadinhos ou "limpando patente de guri cagão" em colégios, segundo o meu pai. Patente é gauchismo para vaso sanitário, de origem certa e vexaminosa.
Bom, essas três (Clarisse e Cecília ou Lúcia quiça Cristina talvez Valkíria, o pai não soube precisar), nos levaram por túneis, pontes e pedágios do centro de Nova York até a cidade-dormitório vizinha da metrópole. Era um subúrbio hollywoodiano, com casas de madeira de dois andares, cerca baixa, os tiozinhos cortando grama, crianças andando de bicicleta. Não, isso é delírio meu, porque tava nevando e chovendo ou os dois e ninguém botava um polegar na rua. Mas as casas estavam lá, inclusive uma dela era a deles.
Uma casa grande o suficiente para abrigar ao redor da mesa, comendo os vestígios da noite, toda a parentada, que nos recebeu com alvoroçadas saudações bilíngües. Uns três tios, aquelas mulheres todas, um marido americano (loiro, de colete de lenhador e mullet, eu juro), outro ítalo-americano e também um afro-americano, mais umas cinco, seis ou trezentas guriazinhas, todas chamadas Ashley e Michelle e que vinham me mostrar seus brinquedos, sorrindo animadas:
"Look, brazilian cousin, my Barbie!" "... eu quero que tu morra agora empalada num saca-rolha, guria do inferno...", eu resmungava. "Hey, do you wanna be my friend?" "... saaaaaaaaaaaaaaaaaai..." Mais alguém? Ah, sim: tinha um marido brasileiro, um mineiro, possivelmente de Governador Valadares, que ostentava com orgulho uma garrafa de vinho Marcus James, legítimo de Palomas, não muito longe de Livramento. Ele era o mais falante e desenvolto de todos, e dizia "made in Brazil!" e outras bossas para a câmera de vídeo que a mãe segurava _um vídeo que, como todos os filmes de viagens familiares, nunca foi assistido mais de meia vez. Esse mineiro era pai de um guri que queria ser artista plástico.
Usava um penteado muito de época (raspado nos lados e muito gel em cima), estava tentando uma bolsa em alguma faculdade e se trancou no quarto com a namorada loira meio rechoncha depois de nos cumprimentar em um português meio ruim. Reza a lenda que houve um passeio do qual eu não lembro absolutamente nada, para a da prima casada com o marido americano, que era metalúrgico ou mecânico ou lenhador. Era uma casa nova, grande, tinindo de nova, que eles mostravam com orgulho. Lembro de uma mesa de sinuca no subsolo e a maior TV que eu já tinha visto na sala. Era o sonho americano dos Viana se concretizando.
No fim do dia, quando ficou claro que eu não estava só de manha, mobilizou-se toda a farmácia do núcleo imigrante para salvar minha vida. Lembro de tomar muita aspirina e Tilenol, que eles chamavam de "tailenol" e que minha mãe, muito influenciável, ficou chamando até a Páscoa, pelo menos. Pois deu certo. Não morri. Na volta as primas nos deixaram no hotel de van, cagadas de medo de estarem em Nova York, metrópole violenta e cheia de perigos e nossa casa por duas semanas.
Hoje, quando eu me recorda daquela viagem (sempre quis começar um parágrafo assim), não penso na febre, na neve, nas alcatéias de Ashleys. Nem no Mr. Marcus James. Nem em como era bom quando a Mãe fazia campanhas políticas. Penso em como eu invejava aquele guri que queria ser artista plástico! Enquanto eu, de acordo com os costumes arcaicos da civilização luso-brasileira, era seqüestrado de meu leito num estado de convalescência para ver meus pseudo-parentes, ele, de acordo com as pragmáticas e individualistas normas de conduta anglo-saxãs, podia ficar comendo a namorada em seu quarto depois de nos dar um breve "hola, parentos de Port Alegreen".
E é por isso, entre outras coisas, que eles invadem o Iraque sem pedir licença, enquanto a gente só assiste e agradece por não sermos nós.



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