Mas por quê? Guerra por guerra, sou mais a dos Farrapos de butique da Globo, que termina hoje. Mas por quê? Eu sou gaúcho, ué, e o pai e a mãe nasceram lá. Mas por quê? A mãe por causa de italianos e portugueses, o pai por causa de espanhóis (1). Mas por quê? O reis queriam poder, a burguesia ouro, a Igreja almas e as gentes terra. No caso da Espanha e Portugal, havia duas gentes: os cristãos, que haviam reconquistado a península Ibérica na (surpresa!) Reconquista, e os mouros, os reconquistados. Vieram cristãos e mouros. Mouros, árabes. Como os do Iraque.
Pronto, agora que por vias tortas transatlânticas de quinhentos anos atrás me dei parentes entre o Tigre e o Eufrates, está tudo em família e me sinto mais à vontade para não falar da guerra. Apesar dessa incessante coceira que vem não sei de onde. Véio, e o pior é que é um misto de obrigação de escrever com culpa de ainda não ter escrito. Obrigação infundada e culpa de autoria ignorada: eu, eu-mesmo, entendo que não tenho o dever de escrever sobre coisa nenhuma. Ainda mais sobre isso, isso sobre o que todo mundo em todo o mundo já escreveu. Ainda mais que isso já está em vias aéreas, rodoviárias e respiratórias de acabar. Vias de fato. Vai parecer oportunismo, Mano Baça _eu e meu baço estamos nos entendendo.
Fala, Baça. Ah, então tu é multifuncional, entre outras coisas destrói meus glóbulos vermelhos. Massa: baço, um órgão à frente de seu tempo. Pois, é Baça, lamento, até entendo o teu lado, mas, sobre esse conflito, não tenho nada de novo a acrescentar. Nem nada de velho (3). Não conheço nenhum iraquiano (curdo, xiita ou sunita) e a americana com que falei mais recentemente (abraço, Karen!) estava interessada mesmo em Kodak, não em Iraque. Não conheço Bagdá, não piloto avião, não dirijo tanque, nem arma nunca disparei. Se ainda tivesse alguma peça de roupa camuflada, como a calça do Daniel LaRusso (4) ou o maiô de uma amiga minha (abraço, Isa!), para poder dizer como a pessoa se sente, mas nem isso.
Claro, andei vendo e lendo minhas coisinhas. Para quem acha absurdo que eu coloque a culpa no baço, tem um carinha no Guardian (5) que coloca a culpa no Shakespeare. A tese: por ele fazer a guerra parecer tão bela em "Henrique V" e outras peças, os povos anglófonos são hoje tão belicosos. O cara vai de Hamlet a Houssein, do Mouro de Veneza para os mouros da Al-Jazeera. Nonsense, assim como a maioria da cobertura "tradicional", diga-se de passagem.
Aí a guriazinha das macegas, nesses dias tomando BBC com sucrilhos e misturando Fox News com CNN e arroz se empertiga na frente do computador. "Nossa, que pessoa mais alienada! Que falta de visão. Não tem nada mais importante acontecendo, cara, isso aí vai mudar o mundo." E aí, Baça, tu fica aonde? Legal, mitocôndrio esquerdo. Hipocôndrio, perdão. Mitocôndrio é um troço das células, né? Ah, não? Certo, aquilo é mitocôndria, feminino. Onde se produz o ATP, adenosina trifosfato (abraço, professora Flávia). Sim, sim, glóbulos vermelhos, tu já disse. Peraí, Baça, o jornal.
Saddam não morreu, jornalistas sim. Diz meu diploma que eu sou jornalista, sofro solidário. Queria ser como o Borges (6), me enfiar nos livros, dizer sincero: "Nada do que está acontecendo me interessa". Mas, na boa, afeta, acho tudo muito triste. Triste e distante. Tava escrevendo pruns amigos esses dias: é que nem ficar discutindo se o vô dos outros tem que ir pro asilo. Como disse o Pianista no Oscar, tomara que isso acabe logo. Tomara que haja menos mortos e feridos do que esperam, nos dois lados. Tomara ´que o bom senso prevaleça na reconstrução do Iraque. Tomara que isso não detone o estopim dentro de mais gente louca. Tomara que o Bushinho não se reeleja (o verbo está bem conjugado).
Como tudo isso me parece impossível, tomara eu vá ficando cada vez mais auto-centrado, cagando pras bombas que caem alhures, e assim não sofrendo por gente tão longe de mim. "Escapista!" É, Baça. É, guriazinha das macegas. É.
1. Bascos na verdade; e dá-lhe ETA e cuidado com a rima).
2. Ishalá!
3. Algum mal-humorado pensou: "não tem nada a acrescentar
sobre nada! não escreva nunca mais!". Te pego na saída.
4. O protagonista do filme Karatê Kid (1984), vivido por
Ralph Macchio. Quem não viu não viveu.
5. Jornal inglês, www.guardian.co.uk, tri.
6. Jorge Luis Borges, gurizada, escritor argentino, tri e
mais um pouco.
Redação Terra