A idéia

27 de março de 2003 • 16h04 • atualizado às 16h04

Se a asa morena aliviava a dor da Zizi Possi (1), a lista de mails que mantenho com amigos de Porto Alegre alivia a minha. Sim, a citação da Zizi foi absolutamente gratuita, ainda que se justifique para lembrar que Luiza Possi (2) existe, mas a saudade da cidade natal não é. A convivência virtual diária diminui a distância entre a capital dos gaúchos e a dos paulistas, ainda que em boa parte das mensagens seja sobre gurias que não conheço, gols que não vi e festas a que não irei.

Outrossim (3), em meio a essa pululação de hormônios pós-adolescentes por vezes se discutem grandes temas. Um dos debates palpitantes dos últimos dias foi: que idéia capitalista um de nós teria de por em prática para ganhar uma fortuna rapidamente e viver de renda o resto de sua existência? Nunca mais trabalhar. Era só ter A Idéia.

Não é um tema novo na filosofia ocidental. No filme "Coquetel" (4), de 1988, em algum canto da Jamaica o garçom Brian Flanagan (Tom Cruise) diz à turista Jordan Mooney (Elisabeth Shue) que os dois estão "cercados de milionários", referindo-se aos inventores dos bens que eles tem à mão. Com certeza, argumenta Brian, os carinhas que bolaram os guardanapos, os guarda-sóis e até guarda-chuvinhas que ornam seus drinques estão hoje riquíssimos e tudo o que precisaram fazer foi ter uma idéia. A Idéia _sim, está ficando repetitivo, mas é para vocês pegarem a... idéia da coisa.

Na lista, alguém lembrou que um amigo nosso abriu um bar na praia e que após dois anos de prejuízo espera ter lucro no verão de 2004. Quanto será o investimento inicial. Dane-se, três anos para começar a lucrar é muito tempo, precisamos estar todos muito ricos até 2006, quando veremos a Copa da Alemanha. Lá, claro.

Quadras de futebol com grama sintética, escreveu outro. Do jeito que esses rebentos-de-meretrizes cobram caro, deve dar muito dinheiro. A manutenção é mínima (com o quê eles gastam, ora? bolas?). Era só achar o bairro certo, um paraíso intocado com muita demanda e pouca oferta e logo o World's Asshole Sports Arena seria uma coqueluche. Com o plus a mais de que eles não precisariam mais pagar para jogar (5).

Mas antes que alguém refletisse mais sobre nossa empreitada empresarial esportiva, outro dos futuros afortunados lembrou que existe uma praia perto de Torres (6), chamada Estrela do Mar (7), prometo que é a última nota de rodapé), inexplorada e com água limpa. Ali empataríamos capital em um condomínio fechad, se é fechado não importa onde é, não é? E então, um restaurante que venderia camarão como pão-quente e água-de-coco como água. Seríamos os astros-reis de Estrela do Mar. Esse sonho morreu na praia porque ninguém tem capital nem para uma kitchenette em um condomínio aberto, quanto mais para um condomínio fechado.

Algum desavisado propôs que, já que alguns de nós somos jornalistas, fundássemos um jornal. Sim, e que jornal dá dinheiro hoje em dia? Esquece. Ainda no ramo das palavras impressas, um dos incautos sugeriu que confeccionássemos camisetas com dizeres reflexivos. Exemplo: "Até quando?" em várias línguas. É, a reação é geralmente essa que você teve.

Nem investimentos, nem imóveis, nem imprensa. Restava o irracional. "Sabem capelletti? O da sopa de capelletti. Uma bolinha de queijo recheada com... tipo, lá em casa sempre chamaram pragmaticamente só de recheio mesmo. Pois é. Quanto você não pagaria para ter um capelletti que durasse para sempre? Sempre que batesse aquela fominha, você tirava ele do bolso ou da bolsa e, como num passe de mágica, estava lá tomando aquele suquinho saboroso. Depois, era só guardar para outra hora. Capelletti Permanente® - isso é que é massa."

Por pior que seja trabalhar, nossas idéias para não ter que trabalhar são ainda piores.
1. "Me faz pequena, asa morena / Me alivia a dor / Aliviando a dor que mata / Me faz ser teu amor" - Asa Morena, de Zé Caradípia, hit de qualquer FM de flashback
2. Luíza Possi (www.luizapossi.com.br), 19, filha de Zizi, é também cantora, porém loira. Já teve sua voz elogiada por Chico Buarque e outros atributos elogiados por outrem. Desde 9 de fevereiro deixa meu domingo mais alegre como uma das apresentadoras do programa "Jovens Tardes", da Rede Globo.
3. Sempre quis começar um parágrafo com "outrossim" que, aliás, significa igualmente.
4. Nunca tinha me dado conta até agora que "cocktail" em inglês nada mais é que "rabo de galo", que nesses trópicos, subtrópicos e equatoriais é aquele drink que leva meio copo de vermute e meio copo de pinga igualmente vagabundos _dá uma baita ressaca.
5. Nem jogo mais, desde que vim para o exílio. Querendo ler como era, tentem achar nesse emaranhado de links sob o site que nos protege o texto "Toda Terça", deste que vos digita.
6. Torres até onde eu sei é a praia mais ao norte do litoral gaúcho (225km de Porto Alegre). Muitos vão lembrar de Torres dos livros de geografia do 1º e 2º, que mostram suas fabulosas falésias, paredões de pedra à beira-mar. Dista uns 100km da megalópole litorânea Quin-Pão, que vai de Quintão até Capão.
7. Cês conhecem a musiquinha que começa com "Um pequenino grão de areia / Que era um pobre sonhador" e termina com "O que há de verdade é que depois, muito depois / Apareceu a estrela-do-mar". Muuuito tri.

Redação Terra
 
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