Ou seja: vocês estão longe de ter filhos. Os primeiros devem sair daqui há uns seis, sete anos. Capaz, dez anos é mais provável. Os meus deixa pra daqui há uns quinze anos - vou curtir antes uma de Tio Emi, "aquele que me faz carinhos estranhos, Pai, não gosto dele". Serão três os pequerruchos: Laos, Manteiga e Prefácio Cicarelli Urbim.
Até que essas crianças possam limpar suas próprias bundas sem gastar meio rolo de papel higiênico estaremos já no segundo quarto do século XXI. É nele que essa prole formará sua personalidade adulta, ou, para usar um termo técnico, seu jeitão.
Os dias serão mais longos (aumentam 1,5 milissegundos a cada século) e a Lua menor no céu (ela se afasta 1cm por ano da Terra). Com parte dos polos derretidos, terão surgido milhares de novos balneários no mundo inteiro - perderemos Ipanema, mas as praias de Curitiba estarão lá. Será um mundo mais informatizado, mais urbano, mais poliglota, mais gordo, mais alto, mais quente e com menos mulheres chamadas Ermengardas. É descabelável, mas a julgar por estudos que prevêem queda na população de alguns países europeus, existirão menos italianas gostosas.
Nossos filhos... Essas crianças nunca irão revelar fotos, gravar fita K7, rebobinar fita VHS, ver o Romário em forma (ele não vai parar de jogar). Ou o William Bonner e a Fátima Bernardes dizendo "boa noite". Ou o Luciano Huck dizendo "loucura, loucura, loucura". Ou, que seja, o Galvão Bueno reclamando que o Brasil não joga "com alegria". Será que ainda vai ter medo da Aids? Drogas ilegais? Carteiras de identidades adulteradas? Que adolescência triste sem tudo isso. Mas, levando-se em conta que a década de oitenta hoje é cultuada, e qualquer análise séria indicará que ela foi entre ruim e regular, pode se supor que, passados vinte anos, nossos filhos se empenharão em achar os dias de hoje memoráveis.
Eles escutarão coisas como Tributo ao LS Jack, um best of da Kelly Key ou KLB e SNZ: Juntos. Verão coisas como uma edição de colecionador de O Clone, elogiarão O Chamado - Director's Cut e se encantarão com Harry Potter e a Fralda Geriátrica. Lerão ávidos A Normal, biografia não-autorizada da imortal da academia Fernanda Young, estudarão para o vestibular com uma edição comentada de Cidade de Deus ou e celebrarão a minissérie Anos Tucanos, de Gilberto Braga. Vestirão coisas como tênis sem cadarços, sapatos que parecem tênis, calças com bolsos laterais, calças que acabam na canela, camisetas para fora da calça com desenhos espertos e mochilas de uma alça só. Tudo carésimo, claro, pois retrô.
O pior vai ser agüentar os papos. "Cara, todo mundo tinha blog, todo mundo tinha piercing, todo mundo tomava ecstasy, todo mundo era bissexual - é só ver nas revistas da época. E Ratinho, cara, o que era o Ratinho, toda aquela estética. Marcos Mion, um gênio. A TV não era esse lixo que é hoje: tinha os reality shows, talk shows, programas de auditório, aqueles comerciais geniais das musas da cerveja - se investia em cultura.
Fica pior. "Brasil Pentacampeão, cara um time de craques, futebol arte! Hoje não se joga o verdadeiro futebol brasileiro, como naqueles tempos. Ah, que saudade do Santos: Diego, Robinho, Kaká... o Kaká não era do Santos? Era sim, o ataque dos sonhos!"
Cristo, que gente mala. "Sem contar que antes todas as manifestações bebiam na fonte dos Estados Unidos, e tal: hoje é esse imperialismo chinês escroto, tudo massificado, descartável. E havia muito mais conscientização política: o movimentos sociais, as ONGs, os protestos contra a Segunda Guerra do Golfo, Fórum Social Mundial. Lula presidente com 90% dos votos e tal. O Lula, um de barba que veio antes do Aécio. Não era como hoje, as pessoas apáticas, alienadas, sem querer nada com nada. Ai, porque que eu não vivi nos anos zero-zero! Por quê?"
Ou seja, eles vão ter a quem puxar.
Redação Terra