O nome se diz Uélcome, como bem-vindo em inglês. Mania do pai, que quis ter filhos para botar neles nomes estranhos. Ele corre a mais de 110 por hora no trânsito veloz do fim da manhã para entregar um envelope no outro lado da cidade.
Marcelo sai de casa, joga a pasta no banco de trás, entra no carro, mas não dá a partida. Dentro do carro se sente melhor do que em qualquer outro lugar. O frio do ar condicionado, em contraponto ao calor e o sol do lado de fora, a música do CD em vez da reunião da manhã e a voz do chefe o animam a esperar mais um pouco. Um vizinho sai de casa, vê Marcelo sentado e o cumprimenta. Marcelo, no entanto, mostra o dedo médio em resposta. Odeia o vizinho, mas normalmente não deixa transparecer. Como todo mundo, sabe fazer o jogo de aparências que impede a todos de saírem se matando nas ruas. O vizinho é um fanático por O Senhor dos Anéis, tem livros, bonecos, mapas e maquetes por todos os cantos da casa, as exibe por qualquer motivo, sempre dá um jeito de tornar seu hobby o assunto principal das conversas com os outros vizinhos.
Marcelo mostra o dedo médio para o vizinho porque dentro do carro não precisa participar do patética encenação da boa convivência. Com os lábios, diz para o vizinho, tomando cuidado de que as sílabas sejam bem entendidas: VAI TOMAR NO CU.
Cruzando rapidamente sete ou oito avenidas, Uelcome mal tem tempo de prestar atenção à paisagem. O mundo é um borrão no visor do capacete, ele só consegue ver os outdoors, em um deles está escrito A Salvação todas às sextas à noite. Sessões de exorcismo. Uelcome nunca viu a Salvação, nem sessões de exorcismo de verdade, mas viu muitos filmes de exorcismo no cinema. Neles, geralmente o padre recita expressões em latim para expulsar o Demônio, que está dentro de alguém e dá sinal de vida emitindo bravatas, grunhidos e impropérios. Em outro filme, uma mulher anda de quatro, mas com a barriga para cima. No final, ela morre. No final, sempre morre alguém.
Marcelo não gosta dos filmes de terror. Prefere os filmes de ação. Mas dentro do carro não pensa em cinema. Por precaução, tranca as portas, o que acaba se revelando uma precaução importante quando Mariana sai de casa, o vê parado e tenta perguntar o que está havendo. O vizinho que foi xingado ainda está por perto, se aproxima cauteloso, esgueirando-se pelo muro. Vê que a situação pouco mudou, mas se anima com a presença de Mariana. Não consegue distinguir as palavras. Percebe que ela diz algo para Marcelo, ainda imóvel no banco do motorista.
Enquanto Mariana tenta falar com Marcelo, Uelcome tem que se virar para equilibrar a moto e evitar o choque com um ônibus que fez uma barbeiragem à sua frente. Ao mesmo tempo em que domina de novo o guidão, ele xinga um palavrão. Depois põem a culpa nos motoboys quando tem acidente, resmunga.
A avenida onde está Uelcome fica perto da casa de Marcelo. Meses atrás, Marcelo pôs no vidro traseiro do carro um adesivo escrito Welcome. Quis fazer uma ironia, uma espécie de convite para as pessoas se sentirem melhor entrando no carro. Uelcome baterá a cabeça justo no lugar do adesivo, arrebentando o vidro. Há outro adesivo, Brown, que quer dizer marrom em inglês, e mais outro, Crash, batida, e ainda Crazy man, malucão, mas nenhum tem qualquer sentido, como tem Welcome. O acidente com Uelcome será conseqüência da pequena multidão que se aglomera em volta do carro. Todos tentam de alguma maneira falar com o motorista, que os ignora, agarrando o volante com as mãos firmes. Alguém nota que ele está tremendo, outros, que começou a chorar.
Quatro, três, dois, um. Uelcome conta as ruas, entra na que parece ser a certa. Procura pelo número, não encontra, um velho diz Não é essa aqui, é outra.
Outra qual?
Aquela lá.
Alguém conseguiu um martelo e entregou a Mariana, que o vibra, ameaçando arrebentar o pára-brisa para tirar Marcelo do carro. Tal gesto estilhaçaria o vidro, jogando pedacinhos quadrados sobre o motorista, que poderia até se cortar. Marcelo, contudo, olha para Mariana e para o martelo. Depois os olhos se desviam e ele se volta para o outro lado. Uma vez Marcelo viu um carro acidentado e o pára-brisa, rachado mas ainda preso no lugar, parecia um jogo de xadrez. Marcelo nunca se acidentou, sobreviverá ao choque da moto de Uelcome com seu carro.
Uelcome é obrigado a dar uma grande volta só para chegar à direção contrária na avenida e entrar na rua certa. Não há placa na esquina. Duas ruas lado a lado são parecidas e estão na mesma direção para onde olhou quando o velho indicou qual era a certa. Ele entra na primeira, procura devagar o número. Duas crianças descem de um prédio. Uma delas cai, começa a chorar e volta para dentro. O número certo é o 75. Uelcome vai até o fim da rua e volta olhando de novo. Xinga um palavrão e acelera e vai para a próxima rua, a certa.
Marcelo não sabe por que entrou no carro, por que está imóvel diante do volante e por que se recusa a falar com Mariana. Mostrar o dedo para o vizinho foi seu único gesto consciente. O fez porque detesta o vizinho. Mas o vizinho não entende esse gesto, indignado, o relata a outros vizinhos, também espalhados em volta do carro.
Veja se eu mereço isso. Eu sou um bom homem - ele diz - eu não sou um bom homem?
É - responde uma mulher que se mudou para a rua há pouco tempo e está achando tudo divertido. Na verdade, ela não conhece o vizinho que diz ser um bom homem, nunca o viu até ser abordada com a pergunta.
Um monte de gente na rua. Uelcome tenta encontrar o número certo, mas não deixa de prestar atenção às pesssoas paradas adiante, em volta do carro de Marcelo.
Marcelo de repente olha para Mariana e sorri. Em seguida abre a porta do carro. Alguns vizinhos aplaudem quando Mariana o abraça e o traz para a calçada. Não entenderam o porquê de toda a cena, acham que Marcelo participava de alguma espécie de desafio sobre fica mais tempo dentro do carro. Um pensamento sem sentido ganha as tintas de verdade quando chegam mais vizinhos que não sabem de nada, ouvem a história e os aplausos e começam a bater palmas também. Os vizinhos que sabem do que se trata aplaudem junto, pensando que a cena emocionara os outros. Um deles pensa: Nessas horas a gente não se sente tão só.
As palmas são a distração final para Uelcome. Motos são máquinas difíceis de se controlar, mais ainda em alta velocidade, mais ainda com o piloto distraído, mais ainda numa rua que há mais de seis meses precisa de reforma. Um buraco pouco antes da calçada da casa de Marcelo começou com menos de um palmo, mas aos poucos o asfalto cedeu e já tem quase meio metro. Os moradores pensam em comprar um bolo e chamar a imprensa se o buraco completar um ano aberto.
Se a rua estivesse vazia, Uelcome teria visto o buraco, mas, sem reduzir a velocidade, tentando chegar mais perto, deixa a roda dianteira entrar no buraco. A moto bate no meio-fio e o infeliz motoqueiro, jogado longe, bate no vidro.
Em meio ao choque, gritos e choro, Marcelo olha para o vidro estilhaçado e finalmente se lembra porque entrou no carro e não quis mais se mexer ou falar. Acordou pensando que há muito tempo nada acontecia na sua vida.
Redação Terra