Alexandre Rodrigues: o poder da coincidência

03 de janeiro de 2003 • 12h14 • atualizado às 12h14

Parte I

Um gole de champagne, feliz ano novo, os fogos. Os dois festejaram juntos, olhando o céu pela janela. Os primeiros fogos surgiram no céu. Junto com réveillon, celebraram também as coincidências. Se conheceram no início da festa e não pararam de conversar e de encontrar pontos em comum. Ambos tinham o mesmo sobrenome, Monteiro, e também eram os únicos negros do grupo, reunido para o réveillon e para ver do apartamento a queima de fogos. Eram ainda os dois únicos solteiros. Marlon não tinha namorada, a de Mateus, Rita, teve que viajar a Brasília para assistir à posse do presidente, era assessora de um deputado. As duas famílias eram do Espírito Santo, na infância passavam férias distantes a apenas trinta quilômetros. Tinham quase as mesmas lembranças de banhos de rio, passeios a cavalo, pescarias e a vida no campo.

Numa roda, anunciaram aos outros, em tom de brincadeira, que, já que eram tão parecidos, estavam formando um grupo à parte, a Nação Zumbi. Entre risadas, começaram a se chamar de irmão, brother. Uma hora fizeram a saudação dos panteras negras um para o outro. Qualquer brincadeira e diziam que a comunidade negra opinava que... A brincadeira perdurou por toda a noite, depois no restaurante, para onde um grupo foi beber chope por volta das cinco da manhã depois que os anfitriões, exaustos e vendo que os convidados não iriam embora antes de enxugar toda a bebida, quase os enxotaram. Já dia claro, com as expressões esgotadas, os dois falsos irmãos se abraçaram e trocaram telefones.

Depois do feriado, no meio de uma reunião, Marlon recebeu uma mensagem pelo celular, "Um abraço, brother, Mateus". Na primeira oportunidade, intrigado pelo texto, Marlon telefonou para um amigo, pegou de novo o telefone de Mateus (estava anotado numa agenda, em casa). Mateus atendeu logo no primeiro toque. Deu uma risada e falou como se estivesse surpreso.

E aí, brother?

Opa. Você me ligou?

Liguei.

Por quê?

Nada. Só achei que dois irmãos não devem ficar muito tempo sem se falar.

Mais tarde, Marlon lembrou o telefonema, mas na hora deu uma risada sem graça, disse qualquer piada e encerrou a conversa. Por mais engraçada que tenha sido, para ele a brincadeira acabou na hora da despedida do réveillon. Primeiro perplexo, ficou depois irritado com a interrupção. Voltou ao trabalho com um resmungo, algo tipo "Tem gente que não sabe o limite". A mesma frase voltou à cabeça dias depois. A secretária avisou, telefone, seu Marlon, ele atendeu e era Mateus.

Marlon mal sabia o que Mateus fazia, um negócio com engenharia mecânica que ele não explicou direito, e duvidou que ele soubesse que era executivo júnior na administração de uma grande faculdade particular. Dificilmente saberia que naquela mesma reunião deu o voto decisivo para um corte de bolsas gratuitas, a faculdade precisava aumentar o faturamento e pagar dívidas, e que por isso Lavínia deixara a sala sem falar com ele. E com certeza não saberia que seu telefone o desconcentrara justo quando justificava o voto, explicando: alunos que não pagam a mensalidade não só estudam de graça como exigem cadeiras e espaços que poderiam ser ocupadas por alunos pagantes. Alguém sugeriu: os alunos bolsistas poderiam assistir às aulas de pé. Outro respondeu: Ia pegar mal, a imprensa podia saber.

Um telefonema, diz a ciência, é a transmissão de ondas sonoras, que se transformam em ondas magnéticas para chegar a algum lugar. Marlon era como quase todo mundo nascido e criado no mundo moderno, não apreciava tal milagre, só o considerava parte do cotidiano. O pai de Mateus era, porém, do tipo antigo. Uma vez ganhou um rádio grande de transístores e o desmontou no primeiro dia, olhando o que cada coisa fazia. Fez o mesmo com relógios despertadores, liquidificadores e batedeiras da mãe de Mateus. Nada nunca deixou de funcionar após ser desmontado e remontado. Por isso o pai de Mateus não gostava de telefones. Não podia desmontar um telefone e olhar o motor, pois não havia motor, só circuitos e cabos com funções misteriosas. Tudo se traduzia em um pequeno número de componentes fechados, que o intrigavam e depois irritavam por não poderem ser decifrados. A ojeriza por telefones o pai de Mateus passou ao filho. Mateus não podia ouvir o barulho do telefone. Cada toque era um degrau a mais numa escala de agonia. O toque do telefone o angustiava. Para serem atendidos mais rapidamente, telefones estavam ligados em todos os cômodos. Mesmo no banheiro, onde aparelhos foram colocados à altura da privada e dentro do boxe. Assim, Mateus atendeu, como sempre, no primeiro toque quando Rita ligou de Brasília e perguntou como estavam as coisas.

Enquanto Mateus falava com Rita, Marlon tentou inutilmente por vários minutos telefonar para Lavínia. O sinal de ocupado foi contínuo. Na quinta vez, xingou um palavrão. Lembrou que também se irritava com o antigo sinal de ocupado. Agora entrava uma voz de mulher dizendo: o telefone está ocupado, tente mais tarde, obrigado, e desligava a ligação. Quando a secretária passou o telefone, pensou que Lavínia estava na linha e nem perguntou quem era.

E aí, como está, irmão?

Tudo bem. Escuta, Mateus: tô esperando uma ligação.

Coisa importante?

Sim. Não. Uma mulher.

Entendi. Vou te deixar, de repente essa acaba sendo minha cunhada.

Quando fez as pazes com Lavínia, Marlon pensou várias vezes antes de contar o que o preocupava. Primeiro quis fazer sexo, sua maneira de descarregar as tensões. Dando puxões violentos na namorada, relaxava. Ela gostava e gemia. Os dois tinham uma relação às escondidas, Lavínia era assistente de compras e provocava comentários quando ele exagerava na noite anterior e deixava marcas indiscretas. Só quando ele estava saciado, nua, com uma perna jogada sobre Marlon, Lavínia ouviu toda a história. Na palavra cunhada, deu uma gargalhada.

Redação Terra
 
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