Alexandre Rodrigues: o presente de Natal

26 de dezembro de 2002 • 16h00 • atualizado às 16h18

Marina passava de táxi pelo centro quando viu Roberto parado diante da vitrine. Mandou o carro parar, pagou e atravessou correndo o trânsito parado no sinal vermelho. Gostava de brincadeiras, então quis assustar o marido, que, de tão concentrado, não a percebeu se aproximando. Ela pôde tranquilamente se ajeitar às suas costas. Mas antes de qualquer coisa, por curiosidade, quis ver o que o distraía.

A vitrine era de uma loja de brinquedos. A loja foi montada no estilo daquelas daquelas que aparecem nos filmes americanos sobre o Natal. Estava lotada de crianças e papais e mamães. Um moderno trem importado corria na vitrine em volta de bonecas, casinhas, personagens de desenhos animados. Roberto, porém, não olhava para nada no chão ou para as pessoas do lado de dentro. Seu olhar estava parado à altura da cabeça, fixo em um cordão esticado entre as duas paredes laterais. Encaixado numa ponta do cordão, um boneco de Mickey Mouse sentado em um monociclo. Estava preso, mas se fosse solto, Marina deduziu, correria de uma ponta a outra.

Marina finalmente gritou, e Roberto deu um pulo, assustado. Ela começou a rir, e ele se virou, mas o rosto não era apenas de surpresa. A expressão era mais de tristeza e perplexidade. Estava a ponto de chorar. Então Marina também se assustou.

O que foi?

O Mickey Equilibrista - ele apontou, a voz chorosa, e deixou as lágrimas caírem. Os dois entraram em um café e só depois de duas xícaras, chorando e chamando atenção dos outros freqüentadores, conseguiu se dominar e continuar.

Quando eu era pequeno - ele disse -, um dia os colegas de trabalho da minha mãe fizeram uma vaquinha para comprar um presente para o filho de uma secretária. O garoto tinha a mesma idade do que eu e fazia aniversário perto do Natal. Minha mãe foi encarregada de comprar alguma coisa e escolheu um Mickey Equilibrista. Mas, chegando em casa, não guardou direito e eu achei a caixa. Estava sozinho, pensei que era meu presente de Natal. Tirei da caixa, estiquei na parede e comecei a brincar. Só então minha mãe chegou e explicou que não era meu. Naquele ano os meus pais mal tinham se separado e o dinheiro não deu para os presentes. Eu ganhei mesmo foram uns carrinhos ordinários de plástico.

Recomeçou a chorar.

Uma semana depois, passando pela mesma calçada, ela viu de novo Roberto parado em frente à loja. Como no outro dia, estava absorto na vitrine, olhando para o Mickey. Desta vez, com medo de nova cena, passou para o outro lado da rua e seguiu adiante. Estava a caminho do ginecologista, ali perto. Esperou quase uma hora para ser atendida. Quando finalmente saiu, pensou em fazer sinal para um táxi, mas automaticamente se pôs a caminhar na direção da loja de brinquedos. Avançou quatro ou cinco quarteirões até chegar à esquina. Do outro lado, Roberto ainda estava parado. Justo nessa hora um policial fardado apareceu e o abordou. Os funcionários da loja provavelmente estranharam o homem vigiando do lado de fora. Roberto mostrou uma carteira, disse alguma coisa e o policial foi embora.

Quando, três dias depois, teve que ir ao centro, foi imediatamente atraída à rua. Lá estava Roberto de novo. Marina ficou alarmada. Em casa, o marido não falava sobre a loja, não falava sobre nada, quase não respondia às suas perguntas. Comiam e viam televisão calados. Não faziam sexo desde o dia em que se encontraram na rua. Seu olhar quase sempre estava no infinito.

A sogra morrera anos antes, então Marina ligou para a própria mãe, que ouviu a história em silêncio e depois disse, Isso é uma besteira, ele deve é ter outra, para ela tudo sempre era uma questão de infidelidade. Marina esperou o marido dormir à noite e pôs o despertador para as cinco da manhã. Em um bilhete, explicou, Fui ao médico, tinha esquecido da consulta. Na rua, ainda estava escuro e frio. O ônibus demorou a passar, mas chegou rápido ao ponto final. Em ruas quase vazias, um ou outro mendigo atrasado desmontando a cama, os bares e bancas de jornais já abertos, mas também vazios, a loja de brinquedos ainda fechada. Uma porta de ferro escondia a vitrine e os brinquedos. Esperou, de pé e imóvel como Roberto, o primeiro funcionário chegar. Ele olhou desconfiado para a mulher. Antes era só aquele homem parado, agora mais uma.

Eu preciso comprar um brinquedo - Marina disse.

Entrou atrás do funcionário, mas esperou as luzes serem acesas e a porta de ferro se levantar da vitrine antes de ser atendida.

Aquele Mickey ali - ela apontou.

O equilibrista?

É.

Desculpe, não está à venda. É só para exposição. É um brinquedo raro, foi feito há mais de trinta anos.

Mas...

Sinto muito. Não posso vender.

E o dono?

Bem, o Mickey é dele.

Mal viu o homem chegar (o vendedor avisou quem era), Marina o abordou.

Eu preciso que o senhor me venda aquele Mickey. Meu casamento depende disso.

Contou toda a história.

O dono da loja fez um preço, bem alto. Com valor sentimental ou não, é uma raridade, acrescentou. Marina sorriu ao sair com a caixa. Do lado de fora, olhou o relógio, pouco depois das nove. Telefonou para o apartamento, Roberto não atendeu, já devia ter saído. Ao chegar, tirou o Mickey da caixa, esticou o fio entre duas paredes e colocou o boneco com o monociclo na posição certa. Com um impulso, o Mickey pedalou pelo fio de um lado ao outro.

Roberto só saía do trabalho à noite, mas não tinha certeza se ele estava indo trabalhar. Para ser distrair, pegou um livro, dois grandes dicionários e começou a traduzir uma página. Fazia traduções de encomenda para uma editora de livros médicos. O boneco custou quase a tradução de um livro inteiro.

Já tinha traduzido quase metade da página quando largou tudo e fechou o livro. Para se distrair, cozinhou, tomou banho, fez uma faxina no apartamento, retomou a tradução e a abandonou de novo, fumou um cigarro (não fumava havia mais de dois meses) e foi várias vezes à janela olhar o trânsito. Quando não achou mais o que fazer, foi para a rua, pegou um táxi e seguiu para a loja. Como de hábito, desceu um quarteirão distante e foi espreitar. Não viu o marido. A vitrine quebrada, um carro de polícia na porta. O vendedor da loja a reconheceu, disse, Um homem veio aqui, perdeu o controle quando eu disse que o Mickey foi vendido, quebrou tudo, é, o mesmo homem que ficava do lado de fora, só tem louco nesse mundo...

O motorista do táxi disse, Pode deixar, quando mandou ir mais rápido, mas o trânsito estava trancado. A pé, a aflição a dominou enquanto chegava ao prédio. Dentro do apartamento, encontrou o Mickey ainda esticado, no mesmo lugar onde parou quando o fez passear pelo cordão. Nem naquela noite e nem nas outras voltou a ver Roberto.

Redação Terra
 
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