Togas em voga

23 de dezembro de 2002 • 11h42 • atualizado em 26 de dezembro de 2002 às 12h57

Éramos dez: três casais na ativa, um casal recém-desfeito e dois guris solteiros, eu e o Santi (jornalista e guitarrista). Todos gaúchos e jornalistas ou publicitários passando o carnaval de 2001 em um casão no alto de um morro na Praia do Rosa, Garobapa, Santa Catarina, Brasil.

Pois o Santi (é uma noiva: duas horas para jantar, tomar banho e sair de casa) levou para distrair-se o livro César, de capa vermelha, do escocês Allan Massie. Entre uma cerveja e outra (sou uma esponja), dei lá umas folheadas e fiquei com vontade de lê-lo um dia, principalmente porque vi que era cheio de diálogos, letra grande, páginas em branco, um Canaã do leitor preguiçoso. Ainda assim acho que o Santi (vai ser meu anfitrião nesse ano-novo) passou um ano lendo o escrito cujo.

Já eu, que sou eu, fui comprar e ler César no inverno daquele ano, quando deveria estar fazendo minha monografia. (Isso provocou um de tantos atrasos no trabalho de conclusão de curso que lhe valeram o codinome de "48 Horas III". Mas essa é outra história).

Bah, e era tri aquela porcaria. Tinha o fato de o livro ter uma linguagem bem contemporânea, a saber a já clássica passagem que tanto riso provocou no Gallas (jornalista e tecladista, mas pedindo ele toca Wish You Were Here no violão), em que Bruto, ou melhor, Ratinho Bruto (é sério) diz: "Ditador, cônsul, rei. Esse César é foda!". Outro lance bacana, maneiro e guloseimoso era que as páginas passavam voando, sem nem sentir. Era um ruim, mas um autêntico, como me ensinaria o tautológico Solón (jornalista e baterista), "page turner".

Me entusiasmei tanto que fui para a livraria de shopping mais perto de casa e investi considerável parte do meu salário de então editor de uma guia de cultura e lazer no resto da série. Senhores de Roma, todos do mesmo autor, todos ruins e todos com suas capas coloridas: Marco Antônio (azul), Augusto (amarelo), Tibério (azul), Os herdeiros de Nero (laranja). Não, não tem Calígula. A idéia era ler tudo seguidaço, véinho, dê-lhe que dê-lhe.

Todavia, premido por leituras de importância maior (a bibliografia da monografia, que eu nunca cheguei a ler) ou de qualidade maior (praticamente tudo já publicado sobre a face da Terra), um emprego estressante (a revista podia fechar a qualquer momento), para não falar em duas mudanças de domicílio em menos de um ano, acabei deixando meu projeto de conhecer a história romana através de best-sellers podres ficou em enésimo plano. Assim iam as cousas. Até a noite de ontem.

Vitimados pelo sono da única pessoa motorizada de nossas relações mais imediatas, eu e os outros dois residentes pedrestes da Chácara do Caralho (nosso apartamento, um pedaço de Saigon) tivemos de passar a noite em casa.

Ao mesmo tempo em que eu jogava xadrez (quatro acirradas e distraídas disputas: ganhei as duas primeiras, aí fiquei com sono e perdi as duas últimas, muito ratão, de perder rainha pra bispo e pior) com a Amarílis (jornalista e estrategista), assistia de revesgueio na TV uma minissérie sobre a vida da Cleópatra.

A atriz que fazia a rainha do Egito era uma morena bem gatucha, com um quê de Nelly Furtado. O César era o Timothy Dalton e o Marco Antônio era o Billy Zane (o O Fantasma e o corno de Titanic).

Pois bem, o Ricardo (jornalista e... o importante é que nasceu com saúde, não é?), ignorava ainda mais que eu a história de Roma, de forma que eu prontamente fui esclarecendo suas dúvidas sobre patrícios e plebeus ao passo que perdia peões e cavalos. Excitei-me deveras. O episódio da minissérie terminava com a morte de César, e o Ricardo (gosta de Belle&Sebastian e Gilliard) a me perguntar: "o que acontece agora? o que acontece agora?" "Não sei, não sei, não sei! Ah... desfaleço. Vou me retirar aos meus aposentos." E fui. Me retirei. Aos meus aposentos. Sou muito previsível.

Já "tucked in", como dizem os anglo-saxões da pessoa que se encontra sob as cobertas, dei com o canto-d'olho nele: o livro de lombada azul, Marco Antônio. Seria o destino? Um ano e meio depois, quando orbitam minha mente dúvidas atrozes sobre césares e outros pesares, meu olhar se emparelha justamente com o capítulo seguinte do projeto, iniciado graças ao Santi (já pintou o cabelo de laranja para disputar um campeonato de futebol) e abandonado há tanto tempo?

Era o destino, havia de ser. Num átimo eu já estava de novo naquele mundo de termas e tronos, rindo das falas estúpidas ("Ouvi dizer que meu amo o estuprou. O que há de verdade nisso?") e aprendendo mais sobre o maior império que o mundo conheceu.

Mas eu não queria falar de Roma. Tudo o que precisa ser dito é que TRABALHAR DOMINGO É UMA BOSTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Redação Terra
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »