Mas não estava só. De vez em quando, vinha lhe fazer companhia outro pregador, que, sem saber o nome, chamava de Papai Smurf. Barbudo e baixinho, usava uma túnica azul clara de monge. Ninguém continha o riso quando fazia coro, com uma vozinha parecida com a da Aracy de Almeida, de que é pecado fumar, beber, jogar e falar palavrão. Um dia apareceu no jornal, numa foto ao lado de uma sandália de dois metros de altura, que tinha feito com as próprias mãos. Colocava a sandália no carro, carregava até o lugar da pregação e depois tinha um trabalhão para subir naquele colosso de couro. Tudo porque a sandália era onde passou a pregar. Depois da foto, nunca mais apareceu no trem.
Além dos dois, tinha o Enfezado. Esse era um gigante de mais de dois metros, com um corpo de lutador de boxe. Andava pelo meio dos bancos sem segurar em nada e gritando que todos que íamos parar no inferno. Que quase tinha se queimado no fogo do inferno, mas sobrevivera. Que tinha enfrentado o diabo no tapa, uma batalha que fazia todo mundo ter pena do capeta, obrigado a encarar aquela massa de músculos a serviço da fé. Não dizia o que tinha passado, mas repetiu sempre "tomei de tudo, de tudo".
Tinha ainda dois ou três pregadores que só apareciam nos finais de semana, mas esses não chamavam atenção, como o Enfezado, o Papai Smurf e o Homem de Papelão. Como a viagem durava uns 40 minutos e às vezes o livro estava chato, comecei a organizar um campeonato entre todos os pregadores de trem. A cada dia imaginava uma disputa: "E agora respeitáááável público (a apresentação era no estilo dos lutadores de boxe). Neste vagão se enfrentam o Enfezado e o cantor da Igreja Batista". Ganhava quem convertesse mais passageiros. O Enfezado ganhou todas as provas por fazer conversões na marra, os perdidos da vida, sob a ameaça de passar pelo mesmo que o diabo, não resistiam nadinha. Mas o Homem de Papelão não ficava longe. Falava sem parar até o pobre coitado aceitar parar de beber, jogar... Só o Papai Smurf não se dava bem. Quando finalmente conseguia subir na sandália, o público já tinha ido embora.
Redação Terra