Cátia era a funcionária nova da contabilidade. José ouviu os colegas comentando sobre ela, mas não se interessou. Bastou um olhar, porém, e sentiu o suor frio descer da testa, lhe umedecer as mãos. No trabalho, perguntou a um colega o nome dela. Mais tarde, estragou várias faturas rabiscando: Cátia, Cátia, Cátia.
Virou uma obsessão, mas também um problema. Se achava feio, o José. Não só feio, se achava horrível, um monstro. Isso explicava seu desinteresse pelo sexo feminino. Não se importava com as mulheres porque nenhuma se importava com ele. Nunca uma mulher o olhou na rua, nunca houve flertes ou cantadas. Só não era virgem porque foi a um puteiro com os amigos quando adolescente. Não criaria coragem se não fosse a frase da TV. Em um programa destes do meio da tarde, mulheres discutiam sobre o homem ideal até que uma disse: não precisa ser bonito. Quem ama o feio, bonito lhe parece. José passou o resto do dia e os dias seguintes pensando na frase. Uma semana depois, seu humor mudara. Se sentiu mais confiante. Sou um dos poucos aqui que fez faculdade, um bom partido, como diziam. Entrou na contabilidade e foi até a mesa de Cátia. Ela o olhou e sorriu. Ele quase desistiu, sentiu as pernas tremerem, mas fez a pergunta: aceita sair comigo? Cátia respondeu: Sim.
Ficou grávida com seis meses de namoro e deu a notícia justo quando José terminava de completar uma palavra cruzada que perguntava: Quem casa quer.... Ele pediu a mão de Cátia ali mesmo, no banco do shopping center. Como não tinham dinheiro para a champagne, os dois brindaram com fanta uva.
Redação Terra