Mas eu falava do Cassino: como tinha sorte aquele sacripantas. Sempre ganhava! O pessoal dizia que o Agenor tinha combinação com o croupier, e era capaz de ter mesmo, mas eu ainda acho que era sorte. Mais sorte que juízo: tudo o que ganhava na mesa de jogo gastava na mesa do bar. E por culpa nossa. Eu e os outros rapazes saíamos rotos do Cassino, sem um tostão furado. E o Agenor, de bolsos forrados, era patrono do resto da noite. O Agenor era do barbalho.
Uma vez nós fizemos um cálculo, eu e o Alvarenga, que era muito bom nas matemáticas, de quanto o Agenor teria poupado se fosse para casa. Ou fosse beber sozinho, que seja. Cento e trinta mil cruzeiros! Você sabe o que eram cento e trinta mil cruzeiros? Bom, você é muito jovem para saber, mas eu Infelizmente também não lembro. Mas era dinheiro para dedéu, dinheiro para acertar a vida do sujeito, sustentar família.
Bom, com isso de família o Agenor nunca precisou se preocupar. Nunca casou, e a sua própria ele não conhecia: era órfão, tinha sido criado pelas freiras. Até um a certa idade, porque depois foi criado pelas putas. Essa não é é minha, é do Palhares, outro do nosso grupo.
Certa feita o Palhares quase foi às vias de fato com o Agenor por causa de mulher. Pôs o olho no broto primeiro, mas dali a pouco o outro já havia posto tudo, se é que você me entende. Teve de o Agenor ter com ele e contar-lhe tudo o que ele havia feito com a garota. Tim-tim por tim-tim, preto no branco. Palhares teve de admitir que o Agenor havia aproveitado a oportunidade muito melhor do que ele jamais aproveitaria. E fizeram as pazes.
Você veja só, o Palhares também me perdou, mas perdoar não quer dizer entender. Ele esteve aqui outro dia, sentou-se nesse banco em que você está, me olhou do fundo dos óculos e perguntou "por quê? Por quê?" Eu respondi. Ele não disse nada. Foi embora. Mas me deixou o seu cartão - que bom que você veio! E umas fotos daqueles tempos. Olha só nós de smoking branco no Reveillón.
Reveillón esse inclusive em que o Agenor lascou umas bitocas na Princesa de Mônaco! E acho que só não entrou para a dinastia porque teve de interromper os trabalhos para fazer o contagem regressiva. Imagina: seria um ano de azar se o Agenor não contasse de dez a zero. Mas eu estou exagerando, o Agenor não ia muito a festas. As festas é que iam até ele. Se corria o boato de que ele estava na praia, a turma ia toda para a praia. A mesma coisa se fosse no turfe, numa festinha de embalo, num coquetel, batizado de porta-aviões. Era um séquito de fanáticos. Lembro que quando mataram o Getúlio saiu em letras garrafais: "Getúlio morreu! Mas ainda temos Agenor!" Essa não é minha não, era a a capa dos jornais. Mas claro que é verdade, pode pesquisar, hoje em dia eles tem tudo em microfilme, não é?
Quando ia a restaurante, tinha um ritual. Olhava o menu com cara de pouco caso, chamava o garçom, que ele conhecia de nome, e perguntava: "E pra mim, tem o quê?" E você não pense que era só em restaurante. Era assim do alfaiate ao engraxate, do barbeiro ao cartório: o cliente que tivesse razão, pois a Agenor tinha preferência. Agenor era o fino da bossa, o gênio da raça. Agenor era uma sumidade.
Mas Agenor não entendeu quando eu lhe dei um beijo. Não entendeu que era amor. Você entende, não entende? Amor. Preciso que o senhor entenda para que possa me defender no tribunal. Toda a vida estive ao seu lado, nutrindo admiração, carinho, respeito. Ele veio com umas conversas de que ia viajar por um bom tempo. Para o interior ou para o exterior, não sabia. Foi ele dizer isso e começou a me dar saudade e desespero: o que eu ia fazer sem o Agenor? O que eu sempre quis ser - o que eu sempre quis. Pedi um beijo, ele riu, beijei-o a força. Não foi bebida, não foi ataque dos nervos. Não foi viadagem. Foi amor.
E foi tudo muito rápido. Quando vi, ele estava no chão da minha sala ensangüentando o carpete e eu com uma arma fumegante na mão e uma dor no maxilar. Mesmo sendo baleado ele ainda conseguiu me acertar um cruzado de direita. Como o Agenor, só o Agenor - essa é minha mesmo.
Redação Terra