A grande reforma - parte 2

18 de agosto de 2004 • 14h03 • atualizado às 14h03

- Vega-3 - explicou ainda o holograma de Lindon Baur - é um planeta decadente.

Ninguém sabia explicar direito como ou por que tinha começado, mas seus habitantes estavam já há algum tempo tomados de tédio e melancolia. Uma sensação de tristeza pairava no ar, afetando a todos. O estado de depressão geral havia se tornado tão intenso e sufocante que já ameaçava o destino glorioso que antes parecia tão certo. Ninguém tinha mais vontade de fazer nada.

Rogério despertou com um gosto ruim na boca. Na chegada, assistiu a um desfile. Os habitantes de Vega-3 gostavam bastante de desfiles. Lotaram as largas ruas da cidade - que, fora a falta das árvores e do aspecto inusitado dos prédios, pareciam ruas do planeta de Rogério. Ainda que desde muito tempo não tivessem inimigos, mantinham o hábito de, nas datas comemorativas, reunir todas as suas naves e armas mais mortíferas e fazerem-nas desfilar. Era um hábito planetário e não adiantava lembrá-los que aquelas armas podiam destruir todo o planeta várias vezes. Havia um orgulho coletivo que fossem tão bons em se defender, ainda que não tivessem um motivo.

Também foi levado a visitar o mausoléu onde era exibido o corpo perfeitamente preservado de Lúmpen Xarm, o patriarca que transformara Vega-3 de um planeta atrasado naquilo que fora até pouco tempo. Estava - o guia explicou ao grupo de visitantes do qual Rogério fazia parte - morto há alguns milhares de anos, porém ainda era reverenciado. Visitar seu túmulo, localizado, além de tudo, em um ponto distante da cidade, era uma coqueluche planetária.

Por fim, foi levado a um encontro com os maiores dirigentes de Vega-3. Lindon Baur havia lhe ensinado: o planeta inteiro era dirigido de um palácio, onde vivia e se reunia o conselho de dirigentes.

Passou por corredores compridos e vazios até um grande salão. Os dirigentes estavam reunidos à sua espera. Eram todos muito velhos e se pareciam incrivelmente uns com os outros, ainda que essa não fosse uma característica da população local. Não sabia, é claro, que os dirigentes realmente tinham que se parecer uns com os outros, então quando era escolhido para o cargo cada um passava por várias cirurgias e alterações físicas de modo a ter uma aparência sábia e que devia inspirar confiança, como os outros.

Um dos dirigentes, no entanto, era bem mais novo, ainda que tivesse a aparência de um homem de meia idade de seu planeta. Se adiantou aos outros e lhe estendeu a mão.

- Olá, eu sou Landen Barth.

Era - descobriu logo em seguida - o dirigente máximo de Vega-3.

Não era afável e nem sorridente, muito menos simpático, porém de maneira alguma era hostil, valendo-se de uma polidez situada no ponto exato entre ser ou não amistoso.

Através da conversa com Landen Barth e, principalmente, das perguntas que fazia a todos, soube mais detalhes de seu trabalho e da situação geral. Devia, através de sua famosa técnica gerencial, levar o planeta de volta ao rumo.

Quanto à situação geral, era muito fácil de perceber. Logo na primeira manhã, notou que todos os habitantes se vestiam da mesma maneira. Todos usavam uma espécie de conjunto simples de camisa e calça cinzentos, com botões de cima abaixo. Perguntou a razão.

Losen Torpe, seu guia na cidade, olhou-o de um jeito desconfiado:

- É porque são úteis e baratas. Servem para o frio e o calor.

Notou também que todos os prédios eram iguais, construídos sem muita imaginação, quase só diferindo pelo tamanho e pela cor com que tinham sido pintados. Então Losen Torpe respondeu:

- É porque há poucos materiais. São feitos iguais por economia.

E também notou que nas ruas havia veículos bastante parecidos com os automóveis de seu planeta, exceto pela falta de rodas. Flutuavam e voavam, como os carros que seu planeta sonhava em ter no futuro. Eram também todos iguais.

- E estes também são práticos e baratos - acrescentou Losen Torpe, que explicou em seguida: como havia muitos habitantes, era preciso que as roupas, as habitações, os veículos de transporte e muitas outras coisas fossem iguais. A regra geral era de que cada morador do planeta tinha direito às mesmas coisas do que qualquer outro, fossem roupas, habitações, veículos de transporte e muitas outras coisas.

Todos tinham também direito a pelo menos uma vez na vida viajar até a lua de Vega-3, onde não havia absolutamente nada, mas que ainda assim recebia levas de visitantes atraídos só pelo prazer de olhar o seu planeta de fora.

Em nome da igualdade, havia todo um sistema baseado na economia de material, que deveria dar o conforto a todos.

- Assim - concluiu Losen Torpe - quando as costureiras do governo criam um novo modelo de roupa, usam o tecido mais barato e até o mesmo número de botões em cada roupa. Se uma delas vier com uma cor ou botão a mais, todas também virão.

- Mas é óbvio - continuou Losen Torpe - que não gostamos muito de nossas habitações ou roupas ou veículos de transporte. São feios e muitas vezes desconfortáveis, mas as aceitamos em nome do bem geral.

- Só isso? - perguntou Rogério.

- Só.

Foi então que Rogério concluiu ter descoberto o que havia de errado no planeta.

Redação Terra
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »