A grande reforma - 1ª parte

04 de junho de 2004 • 15h55 • atualizado às 15h55

O passado é o passado e agora que tudo se consumou, é possível revelar que a destruição quase completa da vida no planeta Terra está ligada ao misterioso desaparecimento do famoso megaconsultor internacional de motivação Rogério M.

Este sumiu sem nenhuma pista logo depois de deixar uma festa na qual, segundo os presentes, se embebedou além da conta e se prestou a várias situações e brincadeiras ridículas. Porém ainda assim achou estar em condições de dirigir sozinho até em casa. Na mesma noite, foi raptado por uma nave espacial para fazer parte da Grande Reforma de Vega-3, o primeiro planeta depois de seu sistema solar.

Aconteceu da seguinte forma: Rogério estava tão bêbado que mal percebeu o que acontecia, as luzes fortes, um solavanco e, por fim, o desfalecimento. Caiu sobre o banco do carona, deixando o volante à própria sorte. Mas o carro apenas manobrou suavemente e parou ao lado da estrada, onde foi encontrado na manhã seguinte com as portas abertas e sem o rádio (obra de alguns adolescentes, que, passando em seguida à abdução, perceberam o rádio ligado e ninguém à vista. Não resistiram à tentação de subtraí-lo).

Os jornais e revistas, não apenas os especializados em negócios, deram grande destaque ao desaparecimento. Além de um gênio de sua área, Rogério M. era uma celebridade internacional, muito popular, pois, na condição de megaconsultor, fora capaz salvar empresas e países arruinados mundo afora, tendo entre seus feitos o resgate quase impossível de uma antiga fábrica de automóveis na Rússia, que todos davam como perdida, lojas de tecidos e de eletrodomésticos no Brasil, uma usina de gás e carvão na Bielorússia e até mesmo uma exótica plantação de arroz na China e o governo de Burkina-Faso, país pouco importante até então e que apenas vinte anos depois, desfrutava da condição de importante potência econômica. Tudo graças à famosa técnica motivacional de Rogério M., pela qual, como era de se esperar, recebia quantias que garantiriam o conforto das próximas gerações, se elas tivessem vindo a existir.

Os registros dizem que Rogério M. foi colocado em animação suspensa e, assim, viajou pelo espaço durante trinta anos da Terra, mas graças à velocidade da nave e os conceitos da Física Negativa, ainda por ser descoberta pelos habitantes de seu planeta, para ele tinham se passado apenas alguns meses. Estava até um pouco mais jovem quando despertou a tempo de pousar em Vega-3 e receber uma grande recepção.

Durante toda a viagem, enquanto dormia, recebeu a visita de Lindon Baur, representante de Vega-3, que na verdade não estava de verdade ali, apenas na forma de um holograma. Na forma eletrônica, era capaz de adaptar a voz a uma freqüência captável pelo subconsciente de toda e qualquer criatura conhecida. Falava com Rogério, que, mesmo dormindo, era capaz de ouvi-lo e até vê-lo, formando imagens mentais. Lindon Baur era o encarregado de explicar ao famoso consultor o seu próximo trabalho.

- Você está sendo contratado - disse na primeira vez em que apareceu - para um trabalho em Vega-3, glorioso planeta da Terceira Galáxia Conhecida.

- Vega-3 - explicou ainda o holograma de Lindon Baur - é um planeta decadente.

Ninguém sabia explicar direito como ou por que tinha começado, mas seus habitantes estavam já há algum tempo tomados de tédio e melancolia. Uma sensação de tristeza pairava no ar, contaminando a todos aonde quer que estivessem no planeta. O estado de depressão geral havia se tornado tão imenso e sufocante que agora ameaçava o destino glorioso que antes parecia tão certo. Ninguém tinha mais vontade de fazer nada.

Rogério despertou com gosto de cabo de guarda-chuva na boca, ainda que nem ele e nem qualquer outro habitante de seu planeta soubesse dizer o que isso queria dizer.

Na chegada, assistiu a um desfile. Os habitantes de Vega-3 gostavam bastante de desfiles. Lotaram as largas ruas da cidade - que, fora a falta das árvores e do aspecto inusitado dos prédios, pareciam ruas do planeta de Rogério. Ainda que desde muito tempo não tivessem inimigos, mantinham o hábito de, nas datas comemorativas, reunir todas as suas naves e armas mais mortíferas e fazerem-nas desfilar. No fundo, todos sabiam, havia uma mensagem naquilo dirigida a eles mesmos: Vejam como somos fortes!

Também foi levado a visitar o mausoléu onde era guardado o corpo perfeitamente preservado de Lúmpen Xarm, o patriarca que transformara Vega-3 de um planeta perdido e arruinado naquilo que fora até pouco antes. Estava - o guia explicou a Rogério - morto há alguns milhares de anos, porém visitar seu túmulo, localizado, além de tudo, em um ponto distante da cidade, ainda era uma coqueluche planetária.

Por fim, foi levado a um encontro com os maiores dirigentes de Vega-3. Lindon Baur havia lhe ensinado: o planeta inteiro era dirigido de um palácio onde ficava o conselho de dirigentes. Passou por corredores compridos e vazios até um grande salão, que parecia ficar embaixo de uma cúpula transparente. Os dirigentes estavam reunidos à sua espera. Notou que todos eram muito velhos e se pareciam incrivelmente, ainda que essa não fosse uma característica da população local. Cada um deles parecia usar uma máscara de sisudez e seriedade, não dando nunca um sorriso sequer.

Um dos dirigentes, no entanto, era bem mais novo, ainda que tivesse a aparência de um homem de meia idade de seu planeta. Se adiantou aos outros e lhe estendeu a mão.

- Olá, eu sou Landen Barth.

Era - descobriu logo em seguida - o dirigente máximo de Vega-3.

Não era afável e nem sorridente, muito menos simpático, porém também não era hostil, usando de uma polidez situada no ponto exato entre parecer ou não amistoso.

- Considere isso uma chance e uma oportunidade - ele disse em seguida.

Através da conversa com Landen Barth e, principalmente, das perguntas que fazia a todos, soube mais detalhes de seu trabalho e da situação geral. Devia, através de sua famosa técnica gerencial, levar o planeta de volta ao rumo.

Quanto à situação geral, era muito fácil de perceber. Logo na primeira manhã, notou que todos os habitantes se vestiam de modo bem parecido. Perguntou a razão.

Losen Torpe, seu guia, olhou-o de um jeito desconfiado:

- É porque são úteis e baratas. Servem para o frio e o calor.

Notou também que todos os prédios eram iguais, só diferindo de tamanho e cor. Então Losen Torpe respondeu:

- É porque são mesmo feitos iguais. Práticos e baratos.

E também que, nas ruas, havia veículos bastante parecidos com os automóveis de seu planeta, à exceção que não tinham rodas. Eram todos iguais também, variando apenas de cor.

- E estes também são mesmo todos iguais - acrescentou Losen Torpe.

As roupas, as habitações, os veículos de transporte e muitas outras coisas mais eram iguais porque apenas o governo os fabricava. As empresas, fábricas e lojas do governo eram os únicos fabricantes e vendedores do planeta. Cada um seguia a lógica de que seus produtos precisavam ser os mais baratos possíveis para que todos pudessem ter um.

A regra geral era de que cada morador de Vega-3 era parte de uma grande massa de habitantes, igual a todos os outros. Todos trabalhavam para o governo, tendo, em troca, direito a habitações, veículos de transporte, alimentação e um pouco de lazer. Tinham um padrão confortável para os padrões do planeta de Rogério. De vez em quando todos podiam viajar por uns tempos, sendo o destino turístico preferido a lua de Vega-3, onde não havia absolutamente nada, mas que ainda assim recebia levas de visitantes atraídos só pelo prazer de olhar o seu planeta de fora.

Mas havia uma regra de ouro: o que um tinha, todos precisavam ter também. Em nome da igualdade, havia todo um sistema baseado na economia de material, que deveria dar para todos.

- Assim - concluiu Losen Torpe - quando as costureiras do governo criam um novo modelo de roupa, usam o tecido mais disponível e até o mesmo número de botões em cada roupa. Se uma delas tivesse uma cor ou botão a mais, todas teriam também.

O mesmo para os veículos de transporte, habitações, arquitetura e tudo mais. Afetava a tudo e a todos. Engenheiros planejavam habitações exatamente iguais, obcecados por fazer com que tivessem até mesmo as mesmas medidas exatas, aliás, razoavelmente grandes, verificadas antes e depois da obra. Cada prédio era exatamente igual ao seguinte e ao próximo. Cada veículo de transporte era do mesmo modelo, cor e tamanho, sendo bastante reaproveitado no futuro. Todos podiam ir ao restaurante, mas o cardápio não era nada variado em nenhum deles, consistindo na mesma combinação de alimentos que podia ser facilmente colhido ou abatido e dividido entre todos. Ocasionalmente, em datas especiais, distribuía-se mais alguma iguaria, como a famosa pabrigash (farinha de clanévia torrada e temperada), muito apreciada por todos, mas impossível de se conseguir fora de época.

- Mas é óbvio - acrescentou Losen Torpe - que nem todos gostamos de nossas habitações ou roupas ou veículos de transporte. Mas as aceitamos em nome do bem geral.

- Só isso? - perguntou Rogério.

- Só.

Redação Terra
 
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