J. David Goodman
Estados Unidos
» EUA: caminhão com fezes tomba
» Loja vende café de fezes de gato
Ele viu uma mulher com um casaco preto comprido, levando um cachorrinho branco em uma coleira. Otibu, que foi policial em Gana e inspetor de paz das Nações Unidas na Bósnia, parou seu carro ao lado de uma minivan e a observou em silêncio pétreo pelo retrovisor.
Os indícios de negligência eram muitos: a expressão irritada no rosto da proprietária, o passo rápido, a falta de um saco plástico no bolso. "As pessoas que recolhem costumam ter tempo de sobra", ele havia dito anteriormente. "Mas há certas pessoas que basta olhar para saber que não pretendem recolher a sujeira de seus cachorros". A mulher ansiosa e seu cachorro percorriam a rua, e Otibu os acompanhava lentamente no carro. Mas apesar de cinco minutos de espreita silenciosa, o cachorro não fez nada.
"Não vamos apanhar nada aqui", ele disse, saindo com o carro. Trabalhando sem uniforme, ao volante de Toyotas híbridos brancos sem identificação, Otibu e seu 14 colegas na Força-Tarefa Canina do Departamento Sanitário se espalham pelos cinco distritos de Nova York a cada dia para fiscalizar o cumprimento da lei municipal que determina que proprietários recolham a sujeira de seus cachorros, adotada 30 anos atrás e que se tornou modelo para outras grandes cidades.
A linha municipal de denúncias recebeu cerca de três mil queixas sobre sujeita de cachorros no ano passado, ante 2,1 mil em 2004, e por isso o Departamento Sanitário elevou em sete agentes o efetivo da força-tarefa canina. Nos primeiros 11 meses do ano fiscal em curso, eles autuaram 869 infratores, cerca de 40% a mais do que no mesmo período um ano antes.
A multa máxima, US$ 100, que não mudou desde a aprovação da lei, deve subir em breve. Um projeto de lei que a elevará a US$ 250 está esperando a assinatura do governador David Paterson. Um porta-voz do governador disse na quarta-feira que ele está revisando o texto. (O departamento de parques, que impõe as multas nos parques municipais, tem autonomia para estipular valores de multa de entre US$ 50 e US$ 1 mil).
O maior número de autuações aconteceu no Bronx, com 335 no período, ante 215 em Brooklyn, 157 em Queens, 109 em Manhattan e 53 em Staten Island.
"Quanto mais pessoas em patrulha, mais autuações", disse John Doherty, o comissário municipal de saneamento, que escreveu sua primeira multa como agente municipal em 1973, para um casal que não havia levado seu cachorro ao meio-fio no momento em que ele estava fazendo suas necessidades.
Na época, a lei dispunha que os proprietários tinham de levar seus cachorros ao meio-fio, evitando sujar as calçadas. (A norma continua válida, mas é raramente aplicada). "Colocamos mais gente para fazer o trabalho, mas nem sempre é fácil apanhar alguém em flagrante".
Para autuar um infrator, o agente precisa testemunhar o cachorro no ato, e o abandono do local pelo proprietário sem limpeza. Já que existem cerca de 500 mil cachorros espalhados pelos 900 km da cidade, e a violação pode demorar apenas 30 segundos, não é muito provável que os agentes apanhem alguém em flagrante. A maioria dos agentes apanha apenas uma ou duas violações do código canino a cada dia. (A força-tarefa também impõe multas de US$ 200 a proprietários que não tenham cachorros na coleira, e multas para pessoas que joguem o lixo de suas casas nas cestas municipais).
"Tentamos fazer o melhor que podemos, mas coisas são difíceis por aqui", disse Otibu. A dificuldade da tarefa de Otibu indica em alguma medida até que ponto a lei foi acatada pelos proprietários de cachorros de Nova York, de 1978 para cá. Quando a medida entrou em vigor, as violações eram generalizadas, e mais conspícua". "Era muito irritante", conta Roberta Pliner, moradora do Upper West Side. "As pessoas se arrumavam para trabalhar, para sair, saíam de casa e logo pisavam em um monte".
Fran Lee Weiss, uma ativista dos direitos do consumidor, pressionou fortemente pela adoção da lei, dizendo que crianças estavam sendo infectadas por um verme canino, o Toxocara canis, ao entrar em contato com os excrementos. (O Departamento Sanitário determinou, na época, que a ameaça dos vermes era real, mas não tão grave como Weiss imaginava.)
Embora tenha despertado a ira de muitos proprietários de cachorros, Weiss conquistou o apoio de seus vizinhos. Ela agora tem 98 anos e vive na Califórnia. "As pessoas costumavam pará-la na rua para cumprimentá-la pelo trabalho", conta seu filho, Barry Weiss.
Por volta das nove da manhã, o horário preferido pelos proprietários para passear com seus cachorros já estava quase acabado, e Otibu não havia testemunhado nenhum delito. Ele estava ansioso. Dirigiu-se a um local em Bushwick pelo qual havia passado mais cedo e costuma atrair os proprietários de cachorros.
Subitamente, em sua segunda volta pelo quarteirão da Bushwick Avenue com a rua Seigel, ele viu um homem com dois cachorros, um dos quais estava sem coleira e agachado. "Bem, já posso multá-lo por o cachorro não estar de coleira", disse Otibu. "Mas primeiro vou esperar para ver se ele recolhe a sujeira". Ele observou enquanto o homem se afastava do local, sem recolher os detritos. Era o momento pelo qual Otibu estava esperando. Quando o homem se aproximou do carro, ele saiu e lhe aplicou uma multa de US$ 200.
Mais adiante, ele avistou outro cachorro agachado. O proprietário falava ao celular. Quando o homem se afastou sem recolher a sujeita, Otibu o abordou e pediu sua identidade. Porque os agentes não podem autuar pessoas que não apresentem documentos com foto, muita gente finge que esqueceu os documentos. E a sujeira dos cachorros não é delito passível de detenção. Por isso, quanto o homem se afastou depois de recolher as fezes com um papel encontrado na rua, prometendo voltar mais tarde com o documento, Otibu percebeu que não valeria a pena esperar. "Esse nós perdemos", ele disse.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times