O movimento das mãos - Parte 2

22 de dezembro de 2003 • 17h49 • atualizado às 17h49

Ela agora me olhava. Apesar de programado, tinha um sorriso que eu nunca era capaz de entender. mais Ficamos em silêncio por mais de dez minutos, até que eu apertei seu pulso bem no lugar onde saltavam algumas veias. Sem aviso, Roberta soltou um peido. Segurei, então, um pouco mais acima: ela lançou um grande jato de vômito, devolvendo ao mundo os croissants que tinha acabado de comer.

Quinta pausa: Um robô não podia comer comida de verdade. Roberta podia. Em seu estômago, sobrevivendo em um mundo artificial, se encontravam células verdadeiras da digestão humana, capazes de criar sucos gástricos e também de, assim como faziam em corpos reais, digerir alimentos e deles tirar energia. Roberta sobrevivia como qualquer ser vivo.

Eu gostaria de falar como isso tudo funcionava e como foi possível fazer células humanas funcionarem em entidades artificiais, como Roberta, mas infelizmente não posso. Sou apenas um faxineiro. O máximo de coisas das quais posso falar é sobre métodos para limpar bem um corredor, como ter atenção com os cantos ou a quantidade certa de água e desinfetante que deve ser usada para se limpar, por exemplo, um espaço de 20x30 metros sem haver desperdício nem de um e nem do outro.

Isso são coisas sem a mínima importância de se saber nos dias de hoje, quando limpadores-enceradeiras capazes de fazer a limpeza perfeita, sem nenhuma colaboração humana, onde estão e como fazer a limpeza certa estão em cada residência.

Por isso eu acho que mereço mais Roberta do que qualquer um deles. Sabia desde que a vi pela primeira vez. Tinha o hábito de bisbilhotar pela pequena janela de cada laboratório de um dos grandes andares do prédio de pesquisa de uma fábrica da Nimrod. Roberta, dizia-se, era um grande empreendimento mundial, sendo produzida a partir de componentes desenvolvidos simultaneamente em vários prédios pelo mundo. Estava tudo escrito atrás do tampo em suas costas. E também seu modelo: MS-1005.

Sexta pausa: Quando se apertava o joelho direito de Roberta, ela começava a chorar, mesmo sem motivo. Logo em seguida, no entanto, enxugava as lágrimas, olhava para seu interlocutor e dizia:

- Eu sei. Eu entendo porque você fez isso.

Apertava-se o joelho direito e ela puxava um cigarro e perguntava ao interlocutor:

- Importa-se que eu fume?

Estava programada para entender a resposta e acender ou não o cigarro de acordo com o que ouvisse.

Sétima pausa: Instruções para se limpar bem um chão de cerca de 10x10. Deve-se misturar um litro de água e cerca de 30ml de desinfetante, mergulhando-se o esfregão várias vezes para misturar bem. Na limpeza, não se deve deixar em hipótese alguma de dar atenção aos cantos, onde geralmente a sujeira costuma ficar acumulada.

Vejam só, Roberta também sabia isso! Era uma de suas habilidades. E tocar piano, fazer elogios constantemente ou aceitar qualquer sugestão sexual, por mais indecorosa e inaceitável. Se eu quisesse, deveria pressionar o último osso da base de sua coluna vertebral e ela estaria pronta para me aceitar como seu amante ali mesmo, na mesa, sobre xícaras com restos de café e o prato sujo de bolo. Curiosamente, ela tinha comido e bebido tudo sozinha.

- Você fica muito excitante assim, silencioso ¿ ela me disse, com um sorriso estonteante, indo pôr a mão na altura da calça onde fica o pênis. Para seu azar, não havia nada lá, de modo que ela apalpou o vazio meio confusa, mas logo após recobrou o sentido das coisas e voltou com a mão para o prato, sorvendo o último pedaço do bolo.

- E tão másculo ¿ ela acrescentou, enfiando a mão por dentro da minha camisa e sentindo as formas do meu peito.

Oitava pausa: Meu peito. Era preciso ter o peito proporcional ao resto do corpo, de modo que eu não fugia ao padrão. Era pouco proporcionado, mas firme. Não fazia feio, modéstia à parte. Quanto ao pênis, eu nunca tive um.

Nova pausa: Pênis foi a forma encontrada pela evolução de fazer com que pequenos seres microscópicos alongados encontrem outros seres microscópicos circulares em um ambiente aquoso, nada bom de se viver do ponto de vista daqueles que carregavam dentro de si estas criaturas. A idéia era lançar um grande jorro de gosma por um tubo, impulsionado apenas por uma violenta contração de músculos. Alguns humanos eram tão doidos pela sensação que o jorro lhes causava que passavam o dia fazendo seus pênis funcionarem.

Entre as habilidades de Roberta não havia aquela capaz de lançar gosma por um buraquinho no pênis, até porque ela não tinha um. Mas quem se importaria com isso podendo olhar seus olhos? Olhos grandes e verdes, tão claros que refletiam as imagens que via. Ali estava eu, uma silhueta que podia reconhecer, apesar do reflexo distorcido no globo ocular. E também uma outra silhueta, meio grande, que se levantou um pouco atrás e de repente avançou na nossa direção.

Perto de um de nós, eu e Roberta, um humano era uma piada. Uma máquina mal-acabada da natureza, movendo-se tão devagar que podíamos vê-los da mesma maneira que a mosca os percebia, em câmera lenta. Contudo, às vezes compensavam estas limitações com seu maior talento: ser imprevisível.

Com meu raciocínio de máquina, eu rapidamente me levantei, mas então a silhueta se atirou e senti um grande golpe nas minhas costas, justo no cóccix, onde estava o botão de abertura do meu sistema de controle. Enquanto eu me levantava, jogando a mesa no chão e, sem querer, Roberta, atingida por um safanão, ele se moveu para as minhas costas de novo e enfiou as mãos no meio dos fios.

Última pausa: Esta pausa corresponde a um tempo verdadeiro, não a uma explicação adicional. Na verdade, durou pouco mais de um minuto, tempo em que Telêmaco, o dono da silhueta, se levantou e tomou um pouco de fôlego. Eu o via com meus olhos abertos, arregalados, mas já não tinha nenhum meio de dar o troco. Tentava me mexer, porém nada dava resposta. Se fosse humano, era como estar tetraplégico.

- Então ¿ Telêmaco me disse ¿ nós te acompanhamos o tempo todo. Até aqui. Só esperamos o momento certo.

A maior habilidade de Telêmaco era ser imprevisível. Fora programado para ser tão imprevisível quanto o mais imprevisível dos humanos, evitando apenas as atitudes extremas. Sua imprevisibilidade, em teoria, não devia ser capaz de matar ou ferir qualquer criatura viva, o que não me incluía, permitindo a Telêmaco usar de toda violência que teve vontade. Seu modelo era MI-1967.

Porque podia ser imprevisível com seus iguais, mas não com seus superiores, Telêmaco atingiu Roberta com um violento soco no rosto. E depois o garçom, que passava distraído. Levou um golpe de caratê tão forte que seu pescoço se deslocou. A pele se rompeu e apareceram pedaços da estrutura de plástico flexível que mantinha o pescoço ereto. O garçom pouco se abalou. Mesmo com a cabeça torta, olhando mundo meio de lado, apanhou a bandeja no chão e disse para Telêmaco:

- Muito mal-educado o senhor.

Telêmaco, como era imprevisível, pediu desculpas ao garçom com intenção verdadeira. Confessou que não podia se controlar e começou a chorar. Tão logo o garçom se virou e foi embora, aceitando as desculpas, Telêmaco me olhou furioso e me deu um peteleco na testa.

- Robô burro. Pensou que ia escapar? Essa é um modelo muito caro. Nem está no mercado ainda. Por que ia ficar contigo?

- Eu... eu precisava ¿ respondi.

- Do quê? Dela? Outro robô?

- Sim.

Nova imprevisibilidade: Telêmaco de repente ficou com os olhos cheios de lágrimas e me abraçou.

- Eu te entendo. Me sinto assim também. Vou te ajudar ¿ me prometeu. ¿ Vou fazer você voltar a se mexer. Voltar a se mexer, voltar a se mexer...

E assim, falando, passou para trás de mim, onde a tampa ainda estava aberta nas minhas costas. Meu modelo era UL-1987. UL queria dizer Unidade de Limpeza, assim como o MS de Roberta queria dizer Modelo de Submissão e o MI de Telêmaco, Modelo Indefinido. Essas duas letras eram os verdadeiros nomes de cada um de nós. Podíamos escolher nossos sobrenomes, um talento que não tinha utilidade, mas que nunca nos era retirado desde... quem sabe?

Devia haver primeiro uma grande sensação de força, a energia retornando a cada parte de meu corpo e também a coordenação e controle de tudo, mas em vez disso senti a energia começar se esvair ainda mais. O filho da puta estava acabando o serviço.

Morte.

Tinha um recurso próprio. Um pouco de energia armazenada que podia direcionar. Isso era necessário em caso de emergência, se eu precisasse terminar algum serviço pequeno e antes ficasse descarregado podia usar a reserva de energia. E assim fiz, jogando minha última dose para meu braço direito, que se moveu trêmulo e alcançou a bochecha direita de Roberta.

Ela imediatamente reagiu e contou uma piada.

Redação Terra
 
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