O movimento das mãos

04 de novembro de 2003 • 13h19 • atualizado às 13h19

Primeira parte

alex.rod@terra.com.br

O tocador de piano movia as mãos de um jeito leve e seguro, os dedos saltitando pelas teclas, pulando das brancas para as pretas, das superiores para as inferiores e executando seqüências de bemóis e sustenidos. Durante alguns segundos, eu, como todo mundo na platéia, olhei hipnotizado, até que de repente ele passou a tocar mais devagar, mudando o andamento e ficando cada vez mais lento até simplesmente parar de vez. Tombou para a frente, caindo numa posição esdrúxula, sobre o teclado do piano. Não se mexeu mais.

Um garçom apareceu. Sem muita delicadeza, pegou por trás o corpo do pianista e o ajeitou até a posição correta ¿ sentado e com as mãos esticadas pouco acima de noventa graus. Abriu em seguida uma tampa pouco abaixo da sua nuca, começou a mexer em alguns fios que ficavam escondidos por trás de um pequeno alçapão. O tocador de piano de repente se mexeu de um jeito ¿ como se tivesse uma convulsão - mas parou novamente em seguida. Mais uma vez se mexeu e parou. E muitas outras vezes mais, até que se ouviu um pequeno estouro e os braços e pernas e a cabeça do tocador de piano se mexeram desconjuntados e pararam de vez. Começou a sair fumaça do buraco nas costas.

O garçom verificou o estrago, abrindo um pouco mais a roupa em volta do alçapão. Em alto-relevo, estava escrito na pele:

INSTRUMENTO DE EXECUÇÃO MUSICAL, NÚMERO DE SÉRIE NT-7426. INDÚSTRIAS NIMROD

Uma pausa: o nome das indústrias Nimrod fazia referência a um pequeno tentáculo de um grande conglomerado de empresas e atividades, produzindo desde leite pasteurizado a remédios ou extração de minério de ferro, petróleo e gás na China, negócio que, a propósito, vinha dando prejuízo, pois as máquinas comandadas por inteligência artificial inexplicavelmente não executavam direito o trabalho.

O problema todo era que os cérebros eletrônicos que comandavam as brocas e robôs extratores de minério tinham de funcionar autonomamente a qualquer decisão humana, pois todas as suas ações obedeciam a uma ordem estabelecida com fatores físicos e lógicos. Se alguma nova ordem fosse dada sem uma justificativa, era simplesmente rejeitada. Era a solução perfeita contra ações de sabotagem, porém tinha seu preço. No momento, uma grande equipe de programadores de diversas partes do mundo estava sendo obrigada a dialogar constantemente com estas imitações de seres humanos, tentando convencê-las a retomar o trabalho.

É claro, Roberta não tinha razão para saber isso. Eu esqueci do robô pifado sobre o piano logo depois que o garçom pegou o microfone e disse, constrangido:

- Queimou.

E começou então a tocar música antiga, de quarenta ou cinqüenta anos antes, no sistema de som. Eu me voltei para Roberta.

- Está gostando?

Ela não respondeu. Fiz a mesma pergunta e só depois me lembrei da trava, que estava virada na posição de ligar, impedindo Roberta de falar. Tão logo retornei a chave à posição normal, ela deu um sorriso, me olhou com carinho.

- Adorando ¿ respondeu.

A respeito de Roberta, o mundo podia se consumir na brancura de seus dentes perfeitos. Podia dormir na almofada que eu gostava de fazer com seus cabelos perfeitos. O nariz. Perfeito. Os olhos, até mesmo o coração, que batia, como um verdadeiro, à razão de sessenta e dois tic-tacs por minuto.

Segunda pausa: O coração humano era o que, dizia a arte, fazia com que cada um entendesse a beleza e a emoção dos sentimentos. Esta era a maior virtude e o maior defeito de Roberta.

Se emocionava demais. Podia achar graça e beleza onde não havia, caso enxergasse algum esforço meu em agradar. Seu sorriso permanente era uma espécie de calmante. Agora, por exemplo, eu me sentia bem na sua companhia. Fazia piadas sobre o ocorrido com robô pianista. Não tinham graça, eu era um péssimo piadista, mesmo assim, Roberta dava risadas frouxas e cheias de sinceridade. Batia palmas, me estimulando a contar outras. Não havia nunca um pingo sequer de maldade ou ironia nestes pedidos, apesar de toda a minha evidente falta de jeito com o humor.

Terceira pausa: Vênus, também chamada Afrodite, fora a deusa do amor, uma invenção dos gregos. Estes foram os primeiros a compreender o que me fazia, milhares de anos depois, estar ali, frente a frente com Roberta. Eu estava perdido de amor.

Sim, estava a ponto de me deixar levar por aquilo que os mais eruditos chamam de o Escopo da Perdição. Queria mergulhar nas águas da sandice. Estava desesperado, inconseqüente, irresponsável, sem nenhum domínio verdadeiro sobre as faculdades mentais. Tinha certeza de que meu coração então se contraía e relaxava a muito mais do que sessenta e dois tic-tacs por minuto sempre que eu estava próximo perto de Roberta.

Roberta não apenas gostava de ouvir as piadas, como sabia contá-las também. Bastava um leve apertão na sua bochecha esquerda e disparava a me fazer rir até a barriga doer. Além de ser mais engraçada, tinha uma memória muito mais privilegiada do que a minha, podendo lembrar de cor 2.783 piadas dos mais variados gêneros, de português, papagaio, racistas, machistas, feministas, de costumes, com personalidades mortas, recitando-as com o talento de um humorista profissional.

Podia também imitar suas vozes. Por exemplo: sabia falar igual ao Costinha, embora tivesse sido criada muito depois de sua morte. Fazia o mesmo com todos os grandes humoristas mortos. Não havia vozes de novos, pois o humorismo fora finalmente dado como morto por absoluta falta de graça, dando lugar ao piadismo, que, afinal de contas, nunca deixou de ser praticado por ninguém. Quem não gosta de uma piada?

Porém se eu apertasse a bochecha direita de Roberta, ela dava um grande sorriso e me ajudava a fazer os exercícios físicos necessários para me manter em forma. Era um recurso pouco usado, pelo que podia comprovar a capa de gordura avantajada em meu abdomen.

Apertava-se um ponto macio na cintura direita de Roberta e ela se derretia. Foi o que fiz naquele mesmo momento, aconchegando-a ao meu lado. Obedecendo a uma pressão mais firme, ela me enlaçou e, na minha orelha, me pediu:

- Me faça mulher hoje.

Eu usava este recurso sempre que estávamos sós.

Redação Terra
 
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