Cidades proíbem calças que mostram cueca nos EUA

30 de agosto de 2007 • 15h45 • atualizado às 15h45
Miles Perkins, 20 anos, veste jeans True Religion em Nova York Foto: The New York Times
Miles Perkins, 20 anos, veste jeans True Religion em Nova York
30 de agosto de 2007
Foto: The New York Times

Niko Koppel

Estados Unidos


Jamarcus Marshall, 17 anos, aluno de segundo ano em uma escola de segundo grau em Mansfield, Louisiana, acredita que ninguém tenha direito a lhe dizer em que altura deve usar seus jeans. "Essa decisão cabe à pessoa que está vestindo as calças", disse. As calças caídas de Marshall, estilo popularizado no começo dos anos 90 por artistas de hip-hop, estão se tornando violação do código criminal em número crescente de comunidades americanas, entre as quais aquela em que ele vive.

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Começando na Louisiana, um esforço cada vez mais intenso das autoridades legislativas vêm impondo a norma de que calças usadas baixo a ponto de expor as roupas de baixo representam ameaça ao público, e leis locais estão sendo impostas para reprimir a prática. Desde 11 de junho, usar calças caídas é contra a lei em Delcambre, Louisiana, uma cidade de 2.231 habitantes cerca de 130 km a sudoeste da capital, Baton Rouge.

O estilo acarreta multa de US$ 500 ou mais, ou sentença de prisão de até seis meses. "No passado os moradores locais usavam cabelo comprido, mas nunca houve uma tendência tão ruim quanto a das calças baixas", disse a prefeita Carol Broussard.

Uma regra adotada pela cidade de Mansfield, de 5.496 habitantes, perto de Shreveport, sujeita os responsáveis pelo delito a uma multa (de até US$ 150 mais custas judiciais) ou a pena de prisão de até 15 dias. O chefe de polícia local, Don English, disse que a lei, que entrará em vigor em 15 de setembro, tem por objetivo estabelecer uma boa imagem cívica.

Por trás das leis de indecência, a verdadeira questão pode estar escondida ¿ trata-se do estilo hip-hop em si, que é visto pelos críticos como uma ostentação de delinqüência, por meio de um andar característico que combina ginga, ameaça e desrespeito às autoridades. Também em jogo está a questão mais ampla da liberdade de expressão e as dúvidas levantadas quando uma determinada moda deixa de ser simplesmente criticável e passa a ser ilegal.

O uso de calças caídas começou nas prisões, onde uniformes de tamanho grande demais eram fornecidos aos detentos, sem cintos que pudessem ser usados em suicídios ou como armas. O estilo se difundiu entre os artistas de rap e em vídeos de música, chegando dos guetos aos subúrbios, e se espalhando pelo mundo.

Os esforços para tornar o uso de calças baixas ilegal na Virgínia e na Louisiana como um todo fracassaram, em 2004, usualmente depois que oponentes das medidas legislativas propostas invocaram o direito à liberdade de expressão. Mas os mais recentes esforços legislativos adotaram tática diferente, procurando apoio nas leis de indecência, e o sucesso que eles vêm obtendo inspirou a legisladores de outros Estados.

No distrito leste da cidade de Trenton, Nova Jersey, a vereadora Annette Lartigue está redigindo uma lei municipal que imporia multa ou serviço comunitário obrigatório aos usuários de calças baixas, para responder ao que vê como um problema de exposição pública de partes privadas. "É uma moda como a das calças que deixam a tanga à mostra, para as mulheres, mas acredito que mostrar o traseiro vá além do aceitável", afirmou. "Não se pode legislar sobre a maneira de vestir das pessoas, mas se pode legislar quando pessoas se tornam indecentes e começam a expor partes de seus corpos".

A União Norte-Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) vem se opondo firmemente às leis de restrição a vestuário. Debbie Seagraves, diretora executiva da ACLU na Geórgia, disse que "não vejo qualquer maneira de redigir normas que respeitem a constituição, quando se trata de destacar e classificar um estilo de vestimenta que se originou da cultura negra jovem como forma inaceitável de expressão".

As autoridades escolares vêm adotando postura mais agressiva na imposição de códigos de vestuário, e os tribunais vêm oferecendo maior latitude a essas decisões. Foram adotadas restrições quanto a jeans, minissaias, cabelos compridos, piercings, logotipos que se refiram a drogas e roupas associadas a gangues, incluindo cores, chapéus e jóias características. Os códigos de vestuário estão sendo impostos em locais inesperados.

A National Basketball Association (NBA) agora determina que roupas esportivas, óculos de sol, adornos de cabeça, correntes ou medalhões expostos e outros itens não podem ser usados em qualquer evento patrocinado pela organização. Depois de uma briga que começou na quadra e se espalhou pelas arquibancadas, causando uma grande dor de cabeça publicitária, a organização vem tentando impor um código de vestuário mais formal, dizendo que as roupas ao estilo hip-hop projetavam uma imagem que aliena as audiências de classe média.

De acordo com Andrew Bolton, curador do Instituto de Vestuário do Museu Metropolitano de Arte de Nova York, a moda tende a ser alvo de protestos quando "desafia a moralidade conservadora de uma sociedade". Mas há muitas décadas um estilo não era recebido com tamanha desaprovação. Os ternos espaçosos, de paletós longos e calças de pernas estreitas, que se tornaram moda nos anos 30 eram um símbolo emblemático de uma subcultura de jovens minorias urbanas.

Os chamados zoot suits eram vistos como agressão ao patriotismo e como violação de uma ordem de economia de tecidos, durante a Segunda Guerra Mundial. Essa moda teve papel central em uma série de confrontos de origem racial em Los Angeles, quando marinheiros espancaram jovens hispânicos vestidos com ternos desse tipo. Os ternos das vítimas costumavam ser queimadas nas ruas.

Com base nas passadas tendências de proibições a determinadas modas, as restrições às calças caídas são vistas por muitos como uma questão de repressão racial, porque os usuários atuais dessa forma de vestimenta são homens jovens e em sua maioria negros.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
 
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