Telemarketing*

20 de outubro de 2003 • 12h10 • atualizado às 12h10

alex.rod@terra.com.br

* Baseado em fatos reais e numa piada de David Letterman

- Bom dia, senhor Alexandre, eu sou do banco. Estou ligando para comunicar que o senhor, como um de nossos clientes VIP, agora ganhará de nosso banco um cartão de crédito por apenas R$ 1,32 ao mês e...

- A TV? Eu ganhei a TV do anúncio? Puxa, que sorte! Logo eu, que não ganho nada.

- Hehe. O senhor me desculpe, mas está havendo um mal- entendido. O banco realmente tem uma promoção que dá uma TV, mas...

- E é daquelas de 29 polegadas mesmo? Puxa vida! Crianças, corram aqui. É o moço do banco no telefone. Nós ganhamos uma TV grande! Ele está aqui bem agora, me contando. O senhor pode falar com elas? Mas fala alto que é para todo mundo ouvir.

- Eu prefiro falar só com o senhor. Está havendo um engano. Eu não estou dizendo nada a respeito...

- E quando é que vocês fazem a entrega? É que a TV aqui de casa já está nas últimas. Coitada, tantos anos na batalha. Mas agora vai ser bem substituída. Uma TV de 29 polegadas. Sabe como é bom ouvir isso?

- Eu compreendo, mas o senhor tem que me deixar falar. O banco realmente tem essa promoção que sorteia uma TV por dia, porém...

- O senhor não sabe quando me entregam?

- Eu? N-não. O que estou tentando dizer é que...

- Pois então me ligue depois e diga. Não me incomode se não é para falar da TV.

No dia seguinte:

- Alô?

- Bom dia, senhor Alexandre. Sou eu de novo, do banco. Eu estou com uma boa notícia. O banco aceitou... Veja bem, essa promoção é só para o seu caso, o senhor é um ótimo cliente, antigo... então o banco vai lhe dar uma TV 29 polegadas caso o senhor aceite fazer o cartão de crédito.

- É? Bom.

- O que foi? O senhor ganhou de verdade a TV. Não está entusiasmado?

- Mais ou menos.

- Pois o que houve?

- É que eu soube que o banco também sorteia carros. De que adianta uma TV se o melhor prêmio é o carro? TV eu já tenho uma. Carro não.

- Nós do banco entendemos, mas o senhor deve saber que, assim como a TV, o carro também só é dado mediante sorteio.

- Quer saber? Eu quero o carro. Muito obrigado pela TV e pelo telefonema, mas eu não falo no assunto se não vir o carro junto.

- O senhor só pode estar brincando. O banco não pode...

- Pode, não pode... O senhor não me ligou para dizer que ia me dar a TV?

- Liguei.

- E a TV não é dada por sorteio?

- É.

- E o banco não é rico?

- É.

- Então se ele é rico e ia me dar a TV, pode me dar também um carro. Eu quero da cor vermelha.

- Mas...

- Já disse. E me faça um favor: se não for para falar do carro, não me venha de conversa.

Dias depois:

- Senhor Alexandre, eu lhe trago ótimas notícias!

- Espero que seja sobre o apartamento. Estou chateadíssimo.

- Apartamento?

- Por que você não me disse que o banco também dá um apartamento por semana?

- É verdade, mas... o senhor por favor queira me escutar. É importante. O banco vai lhe dar o carro. Como eu lhe disse, o senhor é um cliente antigo e fiel.

- Um carro? Quem disse que eu quero um carro? Eu nem sei dirigir.

- O senhor disse.

- Mas isso é porque eu não sabia do apartamento. Veja bem, eu tenho dois filhos pequenos, um casal, e moro num apartamento de dois quartos. Logo, logo, o menino vai ter que ir dormir na sala. Agora o senhor vem com essa conversa de carro, que... Ah, entendi. Você tá insinuando que eu deva botar meu menino para dormir no carro?

- Em absoluto. O senhor é que não está entendendo que o banco realmente presenteia seus clientes com essas coisas, carros, TVs, apartamentos, mas é feito um sorteio. O senhor sabe o que é um sorteio? Cada cliente tem um número e aí o banco escolhe os números de alguns deles para o prêmio.

- Eu não sou burro. Eu sei o que é um sorteio.

- Pois deve saber também que o prêmio SÓ é dado a quem é sorteado. Pelo que consta em seu cadastro, o senhor não ganhou nenhum sorteio. Eu mesmo verifiquei.

- Eu não disse que ganhei, disse?

- Não.

- Escuta, ô...

- Sérgio.

-Sérgio. Você é um rapaz atencioso e educado. Com certeza sabe fazer o seu trabalho, mas, me desculpe, só podemos falar se for sobre o apartamento. Passar bem!

Um mês depois:

- Sou eu de novo, senhor Alexandre. Fizemos tudo que o senhor pediu. Eu não agüento mais. O meu chefe, eu, todo mundo virou motivo de piada no banco. Corremos o risco de ser despedidos, mas conseguimos tudo o que o senhor exige. Estou aqui com a lista: um apartamento, uma TV 29 polegadas, um DVD, microcomputador, carro, uma casa de praia, uma lancha, um título da Marina, um implante de cabelos e uma viagem para Punta del Este. Tudo já deve estar chegando no seu endereço. Podemos finalmente falar a respeito do seu novo cartão de crédito?

- Claro. Pode continuar.

- Obrigado. Talvez o senhor não saiba, mas o cartão de crédito de seu banco tem um mundo de vantagens. É uma promoção apenas para clientes especiais, como o senhor. E custa só R$ 1,32 por mês, o preço de um cafezinho. O senhor pode verificar seu saldo pela Internet e, mais, pode também...

Redação Terra
 
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