Eu não tenho sonhos. Não, não estou falando que não quero ter filhos, viver em um mundo sem guerras, completar o álbum do Brasileirão, conhecer a Índia, nada disso. No sentindo martinlutherkinguiano de sonhar, sonho. Mas esses que a gente tem, ou que pelo menos vocês tem, dormindo, desses nem sombra.
Para não dizer que não há nada, o que seria uma injustiça com meu pobre inconsciente, existem as "proteções de tela". Eu as chamo assim porque elas se parecem com os screen savers dos computadores, uns fundos fixos com uma imagem se deslocando pra lá e pra cá, um padrão que se repete. É triste, eu sei. Um amigo meu tem um sonho recorrente de que seus dentes estão caindo. Meu sonho recorrente? Um círculo azul atravessa um fundo amarelo, tipo um sol no céu, mas com as cores invertidas. Ele surge na esquerda, vai devagarzinho para a direita, some, e aí eu acordo.
Não chega nem a ser o efeito de uma viagem de ácido. Na verdade, acho até que ter a visão nublada por pressão baixa ou só girar um caleidoscópio são espetáculos mais emocionantes. Por favor, não sintam pena.
Tá tudo tri. Uma vida inteira de sonhos que passariam por rascunhos do Hans Donner nunca me causou problema. Talvez, se eu tivesse feito análise, porque os caras adoram interpretar sonhos. Com meu repertório limitado de cores e imagens acho que o diagnóstico não seria dos mais positivos. Sem divã para divagar, o máximo que meus sonhos chochos me causaram foi um desânimo ao acordar de manhã, um abatimento que, se não evapora com a primeira espreguiçada, sai na urina.
"Aaaaaahm, saco!, onde eu pus meus chinelos?, será que ter sonhos com peças de Lego voando sobre uma aquarela me faz um retardado completo ou só um pouco mongo?, hoje está frio!, cadê a pasta de dente?" Nada grave. Já havia me aceitado enquanto sonhador abstrato. Se uns eram Van Gogh e outros Renoir, eu era Mondrian (pra quem boiou, uma busca de imagens no Google vai esclarecer tudo).
E assim iam as cousas. Mas eis que o destino me pregou uma peça - e pregou mal, descascou a parede toda, espalhou reboco pelo chão e não varreu, um inferno. Vim morar e depois namorar uma moça que tem Os Sonhos. A comparação não era nem mais entre pintores, mas entre diretores de cinema. As noites da guria são superproduções, com muitas locações, figurantes, grande elenco, efeitos especiais, reviravoltas, finais arrebatadores, quando não surpreendentes. São uma coisa Hitchcock, Fellini, Godard, Spielberg, Almodóvar, enquanto que os meus são... são.... quem quer que seja responsável por aquelas barras coloridas no começo das fitas VHS.
Já estava abalando o relacionamento, entendem? De manhã, ela queria saber o que eu havia sonhado. "Ah, conta o teu antes", eu dizia. Aí vinha uma história em três épocas diferentes com muita ação e aventura, uma mistura de As Horas com 48 Horas. Então eu tinha que contar o meu. "Era um fundo amarelo, aí uma bola azul aparecia num canto e..." ou algo assim. "Só?", ela dizia, e nesse "só?" vinha embutido, querendo ou não, todo o desprezo por meus delírios geométricos com cores primárias.
"Como estou com alguém que tem sonhos tão simplórios?" ela pensava, tenho certeza. Sedentário, egocêntrico, não-presenteador e implicante com a família dela tudo bem, agora, sonhos simples? Nenhuma mulher quer um cara com sonhos simples. Tive de tomar uma atitude. Se eu tinha sonhos tão desinteressantes que causavam desprezo, era preciso inverter o jogo: eles seriam tão desprezíveis que não interessariam a ninguém.
"Como foi teu sonho ontem?", ela perguntou, como de praxe.
"Foi bem diferente, tu sabe? Tinha o Diabo, e ele vinha falar comigo com uma voz grossa, dizia: 'Emiliano, você é meu escolhido', aqueles papos de sempre. 'Faça correr o sangue de quem está próximo de você em meu nome'. Umas coisas assim, pra dizer a verdade eu ainda estou um pouco perturbado. Me alcança a faca?"
"Melhor não."
"Bom aí, tinha o jantar em que eram servidos fetos, mas eles estavam vivos."
"Não sei se eu quero saber o resto."
"Ah, aí tinha uma parte em que a gente estava andando na rua e vinha um mendigo muito sujo dizendo que estava morrendo e queria te dar um beijo de língua e..."
"Deu pra ter uma idéia, já."
"Mas tu quis saber, agora eu vou contar. Depois do beijo tinha a parte da tortura, em que enfiavam alfinetes embaixo das nossas unhas."
"Pára."
"Parei. Tu ouviu isso?"
"Isso o quê?"
"Uma voz, grossa, sussurando alguma coisa sobre sacrifício. Ouve."
"Amor, quem sabe a gente não fala mais sobre sonhos, pelo menos não de manhã, você parece que anda tendo uns pesadelos bem pesados."
"Tri."
Desde então, sonho, lá em casa, só da padaria. E do rádio. Do rádio? Sim! Sonho de Verão, de Luan e Vanessa, su-su-sucesso, eu sei que vocês sabem a letra, vamos terminar o texto em alto astral, são vocês que fazem isso aqui acontecer. Todo mundo: "Foi um sonho de verão / Numa praia / Quatro semanas de amor / E noites de luar..."
PÊ-ESSES
Outras músicas legais sobre sonho: Sonhei que Tu Estavas Tão Linda, Sonho Meu, Dream (All I Have to Do) e Quase um Segundo ("Eu tive um sonho ruim e acordei chorando", lembram?).
Meu sincero obrigado aos que, contra toda a lógica, seguiram entrando no link atrás de uma crônica nova. Elas serão mais seguidas, juro pela minha irmã mortinha. OK, foi um golpe baixo, eu nunca tive irmã.
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Redação Terra