De vez em quando Samuel era reconhecido na rua. Fora muito famoso décadas atrás, comandando um programa infantil. Aparecia na tevê vestido de palhaço, em um cenário de circo, apresentando desenhos animados. Às vezes tinha a companhia de crianças, geralmente filhos de funcionários ou visitantes da emissora levados pelas mães. Também foi o herói de uma revista em quadrinhos lançada para pegar carona em sua fama, mas que só durou dois números.
Geralmente eram antigos fãs que o reconheciam. Quase senhores, muitos já carecas ou barrigudos ou as duas coisas, que, acompanhados da mulher ou dos filhos, apontavam Samuel e diziam:
- Esse aqui é o Palhaço Soneca.
Porque esse era o nome de Samuel quando estava na tevê todas as manhãs, cinco dias por semana. Samuel lembrava dos velhos tempos todos os dias, sempre que olhava para o grande pôster que ocupava quase uma parede inteira da sala. Era do tamanho original, uma relíquia do filme no qual foi o ator principal. Em ¿O Palhaço Soneca contra os Invasores de Marte¿, Samuel combatia vilões marcianos de mentira cujas fantasias não passavam de macacões do exército decorados com papel laminado. Apesar da popularidade do Palhaço Soneca, era uma produção pobre. Não havia dinheiro para a maquiagem, então os alienígenas nunca mostravam seus rostos, sempre descritos como ¿horrendos¿ e ¿monstruosos¿ pelos personagens humanos, se escondendo por trás de capacetes que nada mais eram do que máscaras de soldador, sem nenhum adereço.
Mas aos fãs do Palhaço Soneca só importavam suas trapalhadas, o que havia de sobra no filme, que foi, então, um sucesso de bilheteria, levando aos céus o prestígio de Samuel. Todos os dias chegavam cartas de crianças de todo o país, tentas que não conseguia responder todas. Emprestava o nome e a imagem a duas dúzias de produtos, de macarrão instantâneo a um forticante infantil, além de bonecos de vários tamanhos e formas. O que lhe garantia a maior parte de sua renda, já que o salário da tevê era baixo.
Porém tudo que restava daqueles anos eram lembranças, o apartamento onde morava e uma aposentadoria pequena todos os meses. No início do ano seguinte, a audiência do programa começou a cair. Uma emissora concorrente lançou, cercada de intensa campanha publicitária, uma nova atração que roubava rapidamente o público do Palhaço Soneca. O Coronel Foguete era um astronauta que vivia aventuras espaciais e, assim como Samuel, apresentava desenhos animados.
Era outra produção tosca. As aventuras nunca eram filmadas, mas mostradas ao público em desenhos estáticos dos personagens, como numa história em quadrinho, enquanto o Coronel Foguete as narrava em off. As crianças, no entanto, gostavam mesmo assim e em pouco tempo o Coronel Foguete era o novo herói do pedaço, divulgando duas dúzias de produtos, de macarrão instantâneo a um forticante infantil, além de bonecos de vários tamanhos e formas.
E quanto ao Palhaço Soneca? O programa ainda durou até o final do ano, com Samuel e a produção tentando de tudo para recuperar o público perdido.
Redação Terra