Relações pessoais

08 de agosto de 2003 • 21h11 • atualizado em 21 de agosto de 2003 às 14h47

O círculo de relações pessoais de Domingos incluía Madalena, que estava dirigindo pela Rodovia Presidente Dutra à procura do amor, Macedo, que sonhava em entrar para o Itamaraty, e Benvindo, que acreditava ter o segredo da massa de pão perfeita.

Outro círculo incluía Tadeu, jornalista que no momento viajava pelo sul do país atrás de um esquema de contrabando, Sérgio, um fotógrafo de moda que era enrabado no estúdio por Dirceu, seu namorado e assistente, e Marília, que certa vez se fantasiou de Estátua da Liberdade em um baile de carnaval, cobrindo o corpo com tinta prateada que levou duas semanas para sair completamente.

E o de Darlene, que treinava doze horas por dia, sete dias por semana, para entrar para a equipe nacional do atletismo e, assim, escapar da vida de pobreza e de ter de viajar no ônibus lotado todas as manhãs, Márcio, que cochilava com a pistola nas mãos, sem saber que no dia seguinte seria colocado em um caixão, depois numa cova e coberto de terra. E Denise, que enquanto isso estaria extraindo um dente em seu consultório com vista para o mar.

O dente extraído por Denise era de Macedo, que meses antes fora assaltado por Márcio e obrigado a uma romaria por caixas eletrônicos, tendo de zerar três contas bancárias, depois colocado para fora do carro com brutalidade numa avenida movimentada. Em um dos bancos trabalhava Domingos, cujo hobby era estudar a história do país nos tempos de colônia.

Domingos gostava de pamonhas e quindins. Marília gostava mais de pamonhas enquanto Darlene, mais de quindins. E as duas gostavam da companhia uma da outra. Eram irmãs e moravam juntas numa casa sem reboco em frente à rodovia por onde Madalena passava em busca do amor. Pois atrás do amor também estava Dirceu, que andava confuso a respeito dos sentimentos por Sérgio. Mas Sérgio sabia o que sentia por Dirceu, assim como sabia o que sentira por Tadeu quando os dois dividiram o trabalho e a cama.

Madalena continuava dirigindo à procura do amor. Que não era Tadeu, apaixonado por Desirée, que trabalhava no jornal e não sabia de seu passado e de seu desejo reprimido por outros homens. Tampouco o sabia Márcio, que naquele mesmo dia teria um encontro inesperado com a polícia. E também não Benvindo, que não conhecia Tadeu ou Sérgio ou Dirceu e, assim, não tinha nada a dizer sobre o assunto.

Assim como não o tinha Macedo, que estudava feito um louco para passar no Itamaraty, sem tempo para a diversão e até para atender o telefone, o que irritava Domingos, ligando para lembrá-lo do almoço dominical com a mãe, ao qual Macedo não compareceria. E nem Dirceu, que inventara uma falsa viagem para não ter de apresentar Sérgio aos irmãos e à mãe. O que deixaria Sérgio aliviado, pois também tinha medo da família de Dirceu.

Tadeu fora criado em um orfanato e não tinha família. Assim, não tinha quem temesse por ele quando envolvia nas reportagens mais perigosas. Como quando voltou de viagem e disse ao chefe que a história dos contrabandistas tinha furado. O chefe ficou puto da vida e ameaçou com a demissão. E Tadeu, com medo de perder o emprego, aceitou outra, sobre jovens mortos pela polícia. Precisava investigar a vida de Márcio, então foi ao enterro e ficou junto de Marília e Darlene, amigas da família, que não conhecia. E também estava lá Benvindo, que, em um gesto de cortesia, preparou pães e levou-os ainda quentes para o velório.

Benvindo iria viver até os 64, quando morreria de ataque cardíaco no mesmo hospital onde morreriam Darlene e Marília, aos 71 e 72, de câncer. Enquanto Macedo morreria aos 98 como membro da Academia Brasileira de Letras, Tadeu deixaria o mundo precocemente, aos 27, naquela semana, quando traficantes o descobrissem numa favela fazendo perguntas aos moradores.

Desirée morreria aos 78 sem nunca ter esquecido Tadeu. Da mesma maneira lembraria Sérgio, que não ficaria com Dirceu, que, como certo dia fez Tadeu, voltaria a procurar o sexo oposto e a ter recaídas. O que um dia o levaria aos braços de Denise.

Madalena morreria aos 90. Antes, conheceria quase todos. Às vezes, mesmo na idade mais avançada, continuaria indo de cima para baixo na Via Dutra, dirigindo à procura do amor. Nunca o encontraria.

Redação Terra
 
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