O tapete

17 de julho de 2003 • 23h52 • atualizado em 21 de julho de 2003 às 21h53

alex.rod@terra.com.br

Elvira gastou muito tempo diante do espelho, se penteando. Notou que os fios brancos já tomavam quase toda a cabeça. Só poucos anos antes se conformara com a visão do próprio rosto, vincado de rugas, como as faces das bruxas das histórias infantis. Perdera o viço de quando se sentia jovem e bonita. Se conformara também com o próprio destino. Era pobre, morava com Ailton em um apartamento apertado, com um quarto em que mal cabiam os dois, a cama e o armário. Não podiam estar juntos nele sem se encontrar no corredor apertado que se formava entre a cama e o guarda-roupas, de um lado, e a cama e a parede, do outro e na frente.

No início isso tinha graça. Eram jovens, nestes momentos ela roubava um beijo do marido e saía do quarto fazendo uma piada qualquer. Depois de anos se tornou um ato monótono, depois irritante. O apartamento foi tudo que conseguiram na vida.

Ailton não tinha mais esse tipo de pensamento. Não tinha mais nenhum pensamento. Por exemplo: não mais pensava que o coração humano pulsa em média a setenta e duas batidas por minuto. Ou qual a altura do Monte Kilimanjaro. Estava deitado em um esquife de madeira, embaixo da terra de um cemitério. Na última vez em que Elvira o viu, tinha a boca grotescamente aberta. A expressão que denuncia um morto. Foi antes do corpo ser levado pelo rabecão, antes do velório, ao qual ela não compareceu. No velório, a boca já estava endireitada graças ao serviço eficiente da funerária.

O sangue não mais circulava nas veias de Ailton. Suas células estavam morrendo rapidamente, em um processo conhecido como decomposição. Não fazia mais diferença, mas antes havia o sangue de dois homens viajando por seu corpo. Seis meses antes ele recebeu uma transfusão após uma complicação numa operação de apendicite. Levaria dentro de si, numa espécie de irmandade, o sangue de Messias. Não se conheciam. Messias foi ao hospital fazer a doação só para ganhar o resto do dia de folga no trabalho.

Mesmo depois de doar sangue, Messias ainda ficou com quantidade suficiente dentro do corpo para comer o lanche oferecido pelo hospital e ainda caminhar quase dois quilômetros embaixo do sol forte até o ponto de ônibus e chacoalhar durante uma hora e meia até chegar em casa. A mulher, Valdirene, estava no trabalho. Assim como Ailton e Elvira, os dois eram pobres. Mais pobres ainda, pois enquanto Ailton e Elvira ainda conseguiram juntar dinheiro para um apartamento próprio em um bairro de classe média, Messias e Valdirene só puderam comprar um terreno a mais de trinta quilômetros do centro. Nele, construíram uma casa modesta e mal-acabada. As paredes sem pintura e o chão coberto por cimento tingido de vermelho na sala e nos quartos e de azul na cozinha.

A idéia devia ser que cada um trabalhasse perto de casa, pois então ninguém desperdiçaria tempo indo e voltando do trabalho e todos teriam mais tempo para si. Mas pensamentos como esse não revoltavam Messias. Não achava ruim o próprio destino. Todas as noites, na hora de dormir, rezava e agradecia a Deus pela casa e pelo trabalho. Era operador de máquinas, manejava grandes tratores e guindastes em canteiros de obras. Brinquedos gigantes que tratava como se fossem seres com vida própria. Às vezes dava tapinhas de agradecimento na lataria ao terminar um serviço. Às vezes tinha vontade de agradecer a todas as máquinas. Achava-as a melhor invenção do mundo.

Mas também fora uma máquina a culpada pelo triste fim de Aílton. Chamava-se revólver e disparava seis projéteis antes de precisar ser recarregado. Bastou Elvira contrair a ponta do dedo indicador e uma carga de chumbo voou, mais rápida do que seus olhos e os de Aílton podiam ver.

Era sobre isso que o repórter queria fazer perguntas. Pacientemente, esperava Elvira terminar o penteado diante do espelho oval, na sala do apartamento. Antes, por mais de uma hora, aguardara ela concluir uma série de tarefas domésticas.

No chão, à frente deles, estava o tapete. Originalmente era da cor bege e felpudo, mas estava sujo, com marcas de sapatos e um pouco de sangue. Fora desprezado como prova pela polícia, apesar dos protestos de Elvira e de sua advogada. Margarida, a advogada, a livrou da prisão, mas não estava disposta a insistir na história. Como todos, não acreditava na cliente. Assim, se deu por satisfeita quando a polícia se recusou a levar em consideração o que dizia Elvira.

Mas não o repórter. Na verdade, se deliciava secretamente com o texto que produziria. Só tinha um medo: que Elvira fosse louca demais. Não apenas uma mulher que perdeu momentaneamente o juízo, mas uma idosa triste e solitária que pudesse comover os leitores. Temia que as pessoas tivessem pena de Elvira e achassem o jornal cruel por debochar de sua história.

- A senhora diz que a culpa foi desse tapete? - apontou para o chão.

- Digo, não. Foi - Elvira respondeu.

- Me desculpe. Mas o que ele dizia?

- Eu já disse à polícia. O senhor não leu tudo lá?

- Li, mas queria ouvir da senhora também.

Só então ela olhou para o homenzinho. Era pequeno com a cor acinzentada. Fugia do sol para manter aquela palidez que, acreditava, lhe conferia um ar boêmio. Chamava-se Nelson. Certa época tivera um grande bigode, cujas pontas gostava de retorcer nos momentos de nervosismo. Tinha constantes explosões de raiva, que lhe valeram um apelido: Feijão Mexicano.

Os feijões mexicanos são também chamados de feijões saltadores por serem capazes de dar pequenos saltos. Servem não só de alimento, como de diversão. Feijão Mexicano detestava o apelido. Tinha-se na conta de um grande repórter.

- Então - ele continuou - quer dizer que este tapete falou com a senhora?

- O tempo todo.

- Como assim?

- Eu não podia entrar no banheiro que ele começava a falar. No início, só umas palavras, mas depois começou a conversar comigo. Nós conversávamos muito.

Feijão Mexicano deu um sorriso.

- E sobre o que conversavam?

- Sobre eu matar o meu marido.

Desta vez foi ela quem sorriu.

- O espírito de um santo mora nesse tapete.

- Foi na última vez - Elvira acrescentou. - Ele falou comigo, disse que eu era uma mulher sem fé. Mas eu tenho fé em Deus. O senhor tem fé em Deus?

- Eu? Ahn... Tenho.

- Então? Quando ele me disse o que fazer, eu fiz. Me disse que era um santo.

- Qual?

- São Marrom. Procurei a história, mas ainda não encontrei. O padre aqui do bairro ficou de achar.

- E o que disse esse... São Marrom?

- Que se eu tinha fé mesmo, devia matar o Aílton. Eu tenho fé - sorria com a expressão do dever cumprido.

Uma irmã de Elvira não suportou mais a história e deu autorização para Margarida interná-la em um sanatório. A polícia também ficou satisfeita com isso. O delegado disse a Margarida o que achava de Elvira.

- Louca. Completamente maluca.

A irmã de Elvira achava a mesma coisa. Jogou o tapete fora. Sem cerimônia, atirou-o pela janela. O tapete caiu no galho mais alto de uma árvore, onde ficou pendurado até a primeira chuva. Depois, encharcado e mais pesado, levou vários dias até despencar e dos galhos e cair na calçada. Um mendigo o encontrou. Achou que o tapete serviria como apoio para os pés na hora de dormir.

Naquela noite matou pela primeira vez na vida.

Redação Terra
 
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