"O senhor tem novidades?"
"Não", respondo.
Não devo ser o primeiro a dizer isso, porque, em resposta, ela começa a chorar, escondendo o rosto entre as mãos.
Nessa hora o embaixador aparece e a abraça, gritando para alguém dentro da casa. Então me cumprimenta e me leva pela lateral da casa, enquanto duas empregadas aparecem correndo, pegam a mulher pelo braço e a levam.
"Perdoe a minha mulher. Os dias estão difíceis para Helena. Todo esse drama. O senhor compreende, não?"
"Claro", respondo.
"Me disseram para procurá-lo por sua eficiência e discrição. Essa história não pode vazar. Seria uma tragédia...
Algumas pessoas nascem para ser uma coisa na vida. Moreira nasceu para ser embaixador. Se veste, anda e fala de um jeito afetado feito certa linhagem de diplomatas. Antes de encontrá-lo, falei com um jornalista amigo, que deu três telefonemas e depois me ligou de volta, dizendo que Moreira já era assim mesmo antes do Itamaraty.
O embaixador Moreira não é gordo e nem magro. Não tem bigode, barba ou qualquer sinal característico. Seu rosto inexpressivo serve bem ao trabalho. É incapaz de provocar qualquer emoção no interlocutor.
Me leva numa caminhada pelo jardim. Uma variedade de plantas coloridas está reunida em um círculo no meio de um gramado. Há também rosas e crisântemos.
"O seqüestro", ele diz, "foi há uma semana. Me disseram... Posso confiar mesmo no senhor?"
"É necessário".
"Bem, nós não temos notícias desde o dia do crime".
"E o que pediram?"
"Nada. Nós desconfiamos de uma empregada. Sônia, como o senhor deve saber. Pediu demissão dois dias antes. Ela é, era, muito ligada à família, mas simplesmente veio até mim dias atrás e disse que queria ir embora, sem nenhuma outra explicação".
Chegamos a um recanto com plantas que parecem uma penugem verde. Estão numa sombra, em vasos pequenos. "São carnívoras", ele explica.
"O meu papel nisso..."
"É o que eu queria dizer. O senhor me foi indicado como um ótimo negociador. Este caso, veja bem, tem aspectos peculiares".
Depois de me dar uma foto de Sônia, na qual também aparece, junto com a mulher, e um dos vasos de presente, escreve algumas instruções sobre como cuidar de plantas carnívoras e se despede com um aperto frouxo na mão.
A mulher se chama Helena e é arquiteta. Tem um site na Internet, com uma lista de clientes. Gente de dinheiro. Banqueiros, artistas, políticos. Era socialite até ter um filho, cinco ou seis anos atrás.
A criança sofre de insuficiência hepática. De vez em quando é obrigada a passar longos períodos internada. Desde a doença, as aparições não profissionais da mãe são cada vez mais raras. Isso eu leio numa matéria de jornal sobre mães dedicadas. Helena não deu entrevista, mas foi definida como "uma mãe completa, que concentra todas as energias no filho". Mas meia hora diante do computador e tenho uma biografia completa dela e do embaixador Moreira.
Por exemplo, o casal já morou na Dinamarca, Suíça e mais uma penca de países asiáticos, africanos e latino-americanos, me diz um texto do Itamaraty. Helena é bem mais jovem do que o marido. Deve ter uns 35, enquanto ele parece ter quase sessenta anos. Está bonita nas fotos, muito mais do que o rosto transtornado que me agarrou o braço.
Depois de meia hora de carro, Porto Alegre começa a acabar, siga-se na direção que for. Quando eu paro o carro, não tenho mais certeza do bairro. Metade das ruas são de terra e não há placas com seus nomes. Eu paro e pergunto a um homem que passa carregando redes e tocando a campainha das casas. Não é a rua certa, mas ele me indica qual é. Me oferece uma rede, que recuso.
A mãe da empregada se chama Idalina.
"Não, ela não está, não aparece há vários dias", Idalina diz.
"Eu quero ajudar", digo. "Ninguém vai entregar ela à polícia. Eles só querem a criança de volta. Dou minha palavra sobre isso. O embaixador inclusive está disposto a pagar uma compensação. Mandou dizer que entende".
Minto todas as vezes, enquanto ela demonstra dúvida a cada nova frase. Digo o valor da falsa recompensa. Idalina me deixa sozinho, parado do lado de fora, e vai para dentro da casa. Logo depois volta.
"Ela está indo para a casa do patrão neste momento. Vai devolver a criança".
Começa a chorar.
"Ela não quer dinheiro, não foi por dinheiro", Idalina ainda diz.
"Sônia esteve aqui", o embaixador me abre a porta. Não há sinal dos empregados. "Veio logo depois que o senhor saiu. Trouxe o menino".
Vamos até um quarto. O menino está dormindo. À primeira vista não ficou nenhuma seqüela dos últimos dias. Quando saímos, o embaixador se serve de um grande copo de uísque e prepara outro, com a metade da quantidade, para mim.
"Sônia continua irredutível. Não aceitou dinheiro. Ameaçou matar o outro e se matar?"
"Outro?" "Não lhe disseram? Isso é imperdoável. Estamos perdendo tempo".
"Quem é o outro? O senhor só tem um filho".
"É verdade, mas adotamos outro recentemente. Achamos importante uma companhia para o nosso filho. De repente assim ele fica mais feliz e com mais vontade de viver. Não quisemos fazer alarde porque não foi uma adoção oficial. A mãe nos deu porque não podia criar".
Com uma careta, a mãe de Sônia grita palavrões e tenta me impedir de entrar, quando atende a porta e me vê, mas não resiste ao empurrão e cai sentada quase no meio da sala.
"Escuta que eu vou falar uma vez só. Eu quero falar agora com Sônia".
"Filho da puta. Você não é da polícia!"
"Com a polícia vai ser muito pior".
No primeiro dia a sala estava limpa e arrumada. Agora é um mafuá de coisas fora do lugar, lixo em toda parte e brinquedos de criança espalhados.
"Vocês são burros demais", eu grito para Idalina.
Ela se encolhe. Não é preciso mais para começar a falar. Sônia, diz, ficou com pena do menino. Começou a se afeiçoar a ele, então um dia...
Para achar a rua, tenho que perguntar de novo. A casa está caindo aos pedaços. Há uma cerca de arame farpado no lugar do muro. Ali, disse Idalina, mora Valdir, o namorado de Sônia.
Com cara de sono e as cuecas aparecendo por baixo da calça caída, Valdir grita e pula em cima de mim quando abre a porta. É como se defender de um martelo de bater bifes. Valdir me soca e chuta, machucando meus braços que tentam aparar as pancadas. Quase não consigo mais movê-los até que acerto uma rasteira e ele cai. Ofegantes, tentamos levantar juntos. Sou mais rápido, e, com Valdir ainda de joelhos, apanho uma pedra grande no meio da rua e miro sua cabeça. Valdir me olha como alguém no cadafalso, resignado porque vai morrer. Mas não atiro a pedra.
No fim da rua, uma mulher anda apressada, puxando uma criança pelo braço. Mas não consegue ir longe sem ser alcançada. Sônia só começa a chorar quando a alcanço. O choro se transforma em desespero quando pego a criança no colo.
Só então presto atenção no menino. É negro, de olhos assustados. Tremendo, chora e tenta voltar para Sônia. Finalmente consegue escorregar para o chão e a abraça.
"Eu não aguentei saber o que vão fazer com o coitadinho. Não aguentei", Sônia choraminga. Valdir nos serve um café, sem nenhum sinal de animosidade.
"Uma noite", ela continua, "escutei os dois conversando sobre a adoção. Esse aqui (abraça o menino, que dorme no sofá) é só pra fornecer o fígado para o filho deles. Vão levar ele numa viagem ao estrangeiro e entregar a um médico para tirar o fígado. Ele morre, mas o filho fica bom".
Por isso, Sônia explica, quase ninguém sabe da adoção. Não querem chamar muita atenção. Para quem já viu o menino vão inventar uma desculpa, a mãe o quis de volta.
"Eu gosto do menino, não quis ver ele morrer. É um menino muito esperto. Ainda que seja para salvar o outro, a vida é sagrada. O outro nem tem culpa. Crianças são muito boas. O senhor sabe que eles se adoram?"
Pálido, o embaixador sacode a cabeça para cima e para baixo, em sinal da aceitação enquanto me ouve. Engole em seco todos os termos. Não tem outra saida a não ser o escândalo. O menino vai morar com a empregada em um apartamento pago pelo embaixador. Vai ganhar uma mesada mensal até a faculdade. Vai ser deixado em paz.
"E", acrescento, "meu preço aumentou".
Ele me paga com um cheque, o triplo do valor combinado, sem reclamar. Na sala, quando vou embora, o filho do embaixador Moreira monta uma casa de brinquedo, empilhando cubos pequenos de madeira. Ao me ver, responde com um sorriso, acenando e apontando o que está fazendo. Mas depois, com um tapa, joga todos os blocos no chão.
Redação Terra