¿Como é o seu nome¿, perguntou, mas eu fiz que não era comigo. Ela tentou mais algum tempo e chegou a agarrar o meu rosto e me olhar nos olhos. Fiz cara de maluco e olhei para cima. Ela me soltou e foi embora.
Ainda agora um homem passou comendo um cachorro-quente e notou meu olhar de fome. Eu não comia desde cedo. Deve ter ficado com pena, pois me deu a metade que ainda restava. Aceitei.
Nunca pensei que existissem tantos ônibus e tantos passageiros no mundo. Chegam e vão embora o tempo todo. Eu mesmo não vou a lugar nenhum, nem ao banheiro. Meu pai disse para não sair de perto da mala. Ele disse ainda: tem muito ladrão na rodoviária.
Também me deu dinheiro, o que é novidade. Meu pai nunca me dá dinheiro. Quando peço, diz que está sem emprego, a vida está dura e um monte de desculpas. Nos últimos tempos ele passa o dia inteiro em casa, vendo televisão. Nos dias em que sai de manhã, volta puto da vida, gritando que ninguém dá chance a quem tem mais de quarenta. Nesses dias se eu ou os irmãos fazemos alguma coisa, a surra é certa.
Ele e minha mãe conversam muito, geralmente baixinho, para nem eu e nem os meus irmãos ouvirmos. Outra noite eu encostei na porta do quarto e escutei pela fresta um pedaço da conversa.
¿O jeito é dar um deles para alguém criar¿, a voz do meu pai disse, e a voz da minha mãe começou a chorar.
De manhã, minha mãe ainda estava triste na cozinha. Eu não queria ver ela assim e comecei a fazer palhaçadas. Eu ainda não disse: sou bom em fazer os outros rirem, dizem para eu ser humorista quando ficar adulto. Então eu parei no meio da cozinha e fiz todas as caretas e brincadeiras que conhecia. Ela riu só um pouquinho. Depois ficou ainda mais triste e começou a chorar de novo.
Além de tudo, meu pai vai ficar puto da vida porque fiquei com sede e comprei um copo de água mineral. ¿Nunca compra nada na rua¿, ele manda e todo mundo da casa obedece. É para economizar, meu pai diz. Ele e minha mãe falam muito nisso. Não só pra mim, também para os meus irmãos. São três, Josué, Muriel e Leônidas. São mais velhos e não gostam de andar comigo. Dizem que sou novo demais.
Quando começou a anoitecer, um guardinha uniformizado veio e perguntou se eu tenho responsável. Vejam só! Eu disse ¿Tô esperando meu pai voltar¿, e ele foi embora, mas volta de vez em quando e fica me espreitando de longe.
O relógio diz que são onze e cinco. Em casa, a essa altura, eu já estaria na cama. Aqui no banco, me aperto em cima da mala por causa do frio. Ainda não olhei o que tem dentro. Tomara que um casaco. Não é todo dia que faz frio assim no Rio de Janeiro.
Também não é todo dia que meu pai me abraça, como fez mais cedo. Antes de sair, até chorou e enxugou os olhos na manga da camisa. Antes, minha mãe também chorou, mas ela faz isso o tempo todo. Está chorando desde sempre. Meu pai quase não chora. Só nas ocasiões especiais, como quando morreu o tio Zé, irmão dele, em um acidente de ônibus. Tio Zé era engraçado, como eu, todo mundo diz que eu aprendi com ele a brincar de palhaço quando era menor. Naquele dia, meu pai chorou o dia inteiro. Hoje não. Depois de limpar os olhos, disse:
¿Deus vai cuidar de você. Sabe que dia é hoje?¿
¿Não¿, eu respondi.
¿Sexta-feira Santa, um dia muito importante. Deus faz coisas boas na Sexta-feira Santa¿.
Depois um abraço e pela primeira vez um aperto de mão, como se eu já fosse gente grande.
Redação Terra