Parente de mineiro: Chile está triste no mês do bicenterário
04 de setembro de 2010 06h05 atualizado às 08h37

Um dos parentes dos 33 mineradores soterrados na mina San José, a 700 m de profundidade, "é o mês do bicentenário, o mês em que comemoramos os feriados nacionais, mas o país está triste, o destino nos bateu forte".

Claudia, irmã de Víctor Segovia Rojas, de 48 anos, um dos trabalhadores soterrados, tem a mesma opinião de muitas pessoas: "não há ânimo para festas".

"Pela primeira vez em muitos anos, em Copiapó choveu como nunca, em uma área que não é comum", disse a mulher que está na região da jazida acidentada, praticamente, desde o dia 5 de agosto, quando aconteceu o acidente.

"Ontem, inclusive, nevou forte na cordilheira e mandaram os mineradores trabalharem mais em cima", disse Pedro, uma pessoa que coloca madeira em uma fogueira que pode se apagar pela forte chuva.

Durante a quinta-feira e até as primeiras horas de sexta-feira choveu com força na cidade de Copiapó, situada a mais de 800 quilômetros ao norte de Santiago, o que despertou a curiosidade dos jornalistas que continuam chegando na região para ver de perto os trabalhos de resgate.

Jaime Aguilar, que acompanhou a Agência Efe à jazida San José e é grande conhecedor da área, afirmou que "nunca tinha visto um país tão triste como o Chile de agora".

"Primeiro foi o terremoto, o tsunami, depois as chuvas e a neve no sul, e agora nossos amigos soterrados nessa mina. O Chile não está para festas", disse.

Apesar de os moradores de Copiapó tentarem manter o ritmo habitual de trabalho, em uma cidade que vem crescendo nos últimos anos graças aos grandes projetos de mineração e o cultivo de frutas de exportação, a população não deixa de se preocupar com os "seus velhos", forma como chamam carinhosamente os trabalhadores acidentados.

Os moradores evitam a todo custo serem considerados "aves do mau agouro", estão mais informados que a imprensa de Santiago e de outros lugares do mundo, e estão conscientes de que pode ocorrer "algo ainda mais grave".

"Aqui na região tentamos evitar dizer, mas estamos muito preocupados com nossos velhos. Não sabemos o que vai acontecer com eles em dois ou três meses, a 700 metros de profundidade. Imagine mais uma desgraça na mina, isso não poderíamos suportar", diz à Efe Kenna Riveros, que trabalha em um meio de comunicação.

"Desde o dia da tragédia, esta cidade não é a mesma, o país não é o mesmo. Em Copiapó nunca mais se encheu um salão de festas, os restaurantes estão vazios, as bandeiras vistas nas ruas são em homenagem aos mineradores, não são pelo bicentenário ou pelos feriados nacionais. Só o que nos preocupa são nossos irmãos", ressaltou.

Patrício Bordones, um sobrenome muito comum na região, funcionário da Prefeitura de Tierra Amarilla, disse à Efe que as famílias, após "ficarem sabendo que seus entes queridos estão bem, começaram a vir para o local".

Bordones tem a mesma queixa de todos da região, o frio polar que cai pelas noites.

"Nunca tínhamos tido tanta chuva em Atacama, é coincidência, ou os céus choram por nossos homens", acrescentou o funcionário que se emociona com suas próprias palavras.

Algumas horas antes de ir até à mina, Nury Bordones, professora de culinária de um hotel da região, tinha assinalado à Efe "a tristeza que se vive em Copiapó. "Nos deitamos e nossa primeira oração é para eles", afirmou, alem de acrescentar que "ninguém se esqueceu de seus homens".

"A tristeza embarga o coração, é preciso ser da área para sentir o que agente sente. Só pedimos a Deus que saiam com vida", acrescentou a mulher.

Nury concorda com os demais no sentido de que o país está triste e que o Governo "faça o que fizer" para os feriados nacionais, seguirá triste "até que nossos homens sejam resgatados".

EFE
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